Os Condenados: 20º trecho da trilogia de Oswald

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“E levando a malinha, jornais comprados e uma vontade humilde de chorar, nervosamente, epilepticamente, caminhou pelas ruas”

Por Oswald de Andrade | Imagem Warren Keating

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No âmbito da série “Oswald 60″, Outras Palavras publica semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os capítulos já publicados.

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Na sequência anterior, Jorge d’Alvelos é tomado por uma alegria ao escapar da prisão. Depara-se com o exílio daquela ilha, em frente ao litoral. Uma menina de branco, virginal e agreste, Vitória Agonia, chama a sua atenção. Ele isola-se no chalé. A embarcação reaparece. No quarto superior, conversa até tarde com Carlos Bairão. Os dias são longos. A dedicação de Quim João, a amizade das gentes, tudo reconforta o escultor. Os amigos voltam a visitá-lo. Dentre eles, Marcos Gurgel, amante de Nora, por quem Jorge se apaixonara. Ao ler os jornais de São Paulo, constata o próprio esquecimento. Não pode voltar enquanto os tribunais não decidirem a sua sorte. Vitória Agonia o compreende. A mudança de clima provoca uma crise na sua saúde estragada. Coincide a convalescença com novas visitas. Isolado de novo, Jorge sente a perturbação do contato da menina da ilha. (Theotonio de Paiva, editor de Oswald 60)

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TEXTO-MEIO

O mar tornara-se frio e mau. Uma neblina, riscada a compasso, cingia a ilha. Havia roncos de navio na distância cheia de perigos. E tartarugas faziam boiar os pequenos dorsos na água do recôncavo que avenidas brancas de sol listravam nas manhãs imprecisas.

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Um tiro estrugia no dia úmido. Aves gritavam passando. O sol tentava inutilmente atravessar a muralha do céu.

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E dias vieram e foram enrolados no mistério da bruma. Como nunca, uma sensação de desesperado abandono cegava Jorge. Tinham-no esquecido completamente, mortalmente.

Nas manhãs iguais repetiam-se as visitas iguais da lancha. Quim João fizera-se substituir por um prático moreno e ossudo. Claro não vinha, nem Carlos Bairão, nem Nora, nem Gulnare.

Uma lembrança de antigas querelas humanas subia às vezes do mar encarvoado – tudo tão longe, batalhas abandonadas, fugas nervosas, triunfos inacabados, empresas mortas, renúncias.

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Vitória Agonia atirava-se de repente, branca para a sua animalidade acordada. Pediu-lhe um beijo e a menina colou nos seus os lábios rápidos e quentes. Como todas as virgens de todas as ilhas, ela esperava, nas noites de sarabanda lunar, a vinda de seu cavalo-marinho.

Uma vontade de ficar para sempre ali apossou-se dele, uma vontade de viver, de amar a ninfa nascente numa nascente existência.

Mas no contágio das superstições que a bruma trazia do largo fojo das tempestades, crédulo e doente, temia tocar o gênio benéfico da ilha.

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O vestido frouxo desabotoava-lhe alvuras nas costas perfeitas, sob os cabelos crespos ao vento. Nos pulos animais, descobria redondeza de pernas acima dos joelhos divinos. O artista modelava-lhe na retina a nudez escultórea.

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Numa surpresa soube pelos práticos que estava em Santos o Reina, o antigo paquete que o levara à Europa. Devia partir na tarde daquele dia.

Jorge esperou deitado nas pedras até reconhecê-lo saindo.

A sua marcha altaneira, de bandeiras ao vento, as duas chaminés possantes listradas, as barcas de salvação suspensas, tinham um pouco de seu destino, haviam feito os mesmos mares, porfiado os mesmos horizontes, procurado os mesmos portos. Parecia-se ainda com ele, belo na sua maturidade experiente.

Ali, naquele tombadilho, Jorge vira afastarem-se pela primeira vez as montanhas saudosas da pátria, conhecera os primeiros contatos estranhos, amara os primeiros amores ligeiros.

O navio, cheio de procelas, renovava travessias, impávido, grande, feliz, convidando-o a segui-lo.

Ele ergueu o braço e disse um adeus fraternal a alguém que fosse talvez ali chorando só a emoção da primeira partida.

O navio dobrava longe na direção dos morros extremos. Fazia rumo à Europa, como quinze anos atrás, pelo mesmo roteiro, à mesma hora triste do dia.

Jorge lembrou-se que ele continha o cenário de seu primeiro romance, da sua primeira ambição sentimental.

E sorria à história extinta que entre pedras e árvores desaparecia nos mastros longínquos.

*-*-*-*-*

Saiu do chalé que as meninas percorriam num alvoroço de limpeza. Levava consigo os cigarros de Carlos Bairão, a rosa agreste, um livro. No porto, à sombra da crestada parede da casa, um barco virado estacava num convite. Em frente, a fonte perene do mar soluçava nas conchas.

Sentava-se no costado do barco humano. Sentia-lhe a rude construção de desafio, as chapas que o remendavam, os pregos que o tinham. Fora talhado num tronco de floresta. Um velho barco tem sempre uma grande história, uma história maior que a do oceano.

Quantas vezes o tronco arrancado da mata pelo trabalho humano, já sinuoso e ágil, cavalgara o estuário ondulado na venturosa caçada do horizonte. E varejara as enseadas e os recôncavos, trazendo do mistério das águas o mistério dos peixes, do mistério das baías o mistério visional das praias desertas. E nas marés noturnas arfara às estrelas achando pequeno o mar que o continha.

O coqueiral da ilha apontava-lhe o céu vertical. O mar falava canções escutadas por Homero e pelo Dante.

Uma necessidade de realizações apertava-lhe a alma desejosa. Mas sentia a impossibilidade dos altos contágios místicos. Dentro dele o coração endurecido resistia, silenciava.

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A lancha não vinha. Trar-lhe-ia talvez notícias dos seus. Quem eram os seus? Nora decerto e Gulnare e a família com quem morava e dois ou três amigos.

Uma agitação sensibilizava-o. Se viessem notícias!

Encaminhou-se para o porto. Um batelão negro passava numa pulsação regulada de máquina, procurando o mar largo. Uma silhueta de navio cortava o horizonte. Traria o férreo casco carcomido de tempestades.

Gritaram por ele. A lancha aproava. Uma aflição suspendeu-o. Traziam-lhe um bilhete de Claro Dutra. Carlos telefonara de São Paulo. Não havia ainda decisão alguma.

Quanto tempo seria preciso ficar ainda na ilha?

Sentia uma volúpia de castigos para que se cumprisse a purificação começada junto ao leito de morte de Mary Beatriz e tantas vezes evitada pela covardia humana de seu ser.

Uma suspeita tomou-o. Os amigos talvez lhe ocultassem uma condenação.

Vieram-lhe revoltas à lembrança do juiz que o julgava em São Paulo, o qual ele entrevira uma vez pomposo e idiota nas ruas da cidade.

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Anoitecera com lua. Na escada do barracão as crianças brincavam de anel. O holofote possante de Itaipus varava o mar.

*-*-*-*-*

Jorge aquela noite custava a adormecer. Que pensava dele a gente simples da ilha? A sua história por certo não começara na tarde do desembarque, quando viera trazendo a maleta do Castro. Pressentira na família atenta iniludíveis cuidados à aproximação casual de qualquer barco. Temiam uma surpresa para ele. Supunham-no decerto um criminoso açoitado, um presidiário evadido.

Tinha ímpetos de falar, explicar a existência dolorosa que tivera.

Jorge ouviu gritos de comando no mar. Era domingo. Uma iole esguia, dirigida por seis remos ligeiros, afrontara o largo encaminhando-se para a ilha. Uma voz grossa patronava. Jorge distinguiu os rapazes uniformizados de um clube, músculos ao sol sob chapéu de pano. Aportaram para descansar. Recolheram os remos e o grande barco envernizado.

Jorge conservou-se quieto no chalé. Não convinha que alguém soubesse de sua presença ali. Tinha no íntimo vontade de procurar o contato estranho daqueles desconhecidos aportados ao seu refúgio. Era moço como eles, forte como eles, como eles capaz de travessias porfiadas. Mas o destino parecia tê-lo desviado dos caminhos naturais da vida e das alegrias comuns.

Ouviu um tropel na escada, bateram imperceptivelmente na porta. Era Mariinha. Tinha os olhos líquidos, esgazeados, o vultinho negro agitado de temores e numa paradisíaca língua confusa transmitiu a Jorge um recado terrível. Que não descesse, havia gente de fora na ilha.

Ele sorriu dolorosamente, beijou-lhe a mãozinha alva, tranquilizou-a, fê-la partir.

Só, entristeceu-se. Era um foragido. Todos o sabiam. E as crianças se alarmavam da possibilidade de o verem descoberto e levado.

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Itaipus vivia na sombra. A lua amarela recolhera-se entre rolos de algodão negro.

Jorge saiu no barco junto com os dois agregados quietos da ilha. Iam verificar as redes estendidas à tarde além do Espinhé.

Uma ardentia inquietava de incêndios o mar grosso. Os remos suspendiam prata líquida nas pás. Tainhas ligeiras riscavam fogos de Bengala nas ondas. O vento dobrava o barco.

Rodearam os rochedos. Uma linha interrompida de pontos acendia-se no fundo, dividindo as águas. Os homens queixavam-se daquele fogaréu noturno. Os peixes distinguiam a armadilha e espantavam-se. Suspenderam com os remos a trama iluminada num cauteloso exame. Nos fios gotas de luz estagnavam, cor-de-estrela. Na noite marítima o barco dançava. Tiraram duas grandes sororocas de boca aberta e um pequenino sargo.

Na volta, Jorge veio conversando.

Seu Luiz fora marinheiro da fortaleza. Como pescador virara duas vezes no mar. Era uma vida de riscos aquela. Tinha pavor dos tintureiros.

– Bicho malucado, seu moço! Não respeita embarcação!

O seu primeiro naufrágio fora quase a morte. Tinha vindo deixar um prático a bordo, aí mesmo em frente à ilha e o sudoeste desgarrara-o do canal. Foi parar na Moela sobre montanhas de água. Quem o salvara fora o primeiro do farol que tinha seguido o desastre de binóculo. Pôs sangue pela boca durante quinze dias.

Remavam claridades. Chegaram. Vitória Agonia segurava um lampião no ancoradouro.

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Um cicio de morcegos tesourava o silêncio noturno. O mar glosava os seus eternos barulhos. Longe, canhoneava nas pedras, perto chapinhava no barco parado e sob o sono das árvores escorria monotonias de água vazada.

Jorge acordara na sua cama de presídio, foi perscrutar a solidão pela janela aberta na noite.

Uma semana se tinha escoado inteira sem a vinda de ninguém. Ficara até tarde sentado a um banco da casa, olhando escancaradamente, como quem espera o clarão longínquo do céu de Santos.

Deitou-se de novo. Mas súbito ouviu silvos. A natureza clareava indecisa. Foi ver. A Marina arfava chegando na antemanhã. Na coberta a silhueta vigorosa de Quim João. Saudou o marinheiro com o braço. E o homem gritou-lhe que trazia boa nova.

– O Dr. Claro mandou dizer que foi tudo favorável em São Paulo.

Jorge desceu numa grata efusão de surpresa. Era livre como o outro que lhe anunciava a vida, como os homens da barca e os outros da terra!

Foram tomar café no pavilhão com a família. Quim João viera esperar aquela manhã um grande navio da Mala Real Inglesa. Jorge propôs ir com ele na lancha. Numa inocência queria experimentar a capacidade de movimentos que ganhara.

Vieram para o rochedo. O sol não aparecera ainda sobre os morros de árvores. Uma melancolia divina irisava o céu matinal. Passaram barcos de pesca no mar que deixara de ser o mar de exílio.

Ficaram conversando. O prático narrava o encontro de gente nua, por praias abandonadas, em cabanas, pedindo a Deus a fartura dos naufrágios.

Súbito destacou-se da ponta rochosa uma proa possante. Houve uma correria retinida de apitos. Jorge apanhou do chão o chapéu largo e seguiu aos saltos o prático. Atravessaram o pontilhão, pularam para a lancha que manobrava. Quim João tomou a direção. Jorge ficara de pé, junto ao mastro onde a bandeirola flutuava. E foram aos pinotes, aos mergulhos, pelo mar encrespado. O transatlântico aproximava-se, assumiu pouco a pouco um aspecto de torre monstruosa. Jorge teve impressão de ser esmagado sob a proa negra e violenta que avançava. Quim João gritava ordens.

Do navio, apinhado de gente curiosa, pendia a escada de corda. O prático esgoelou qualquer coisa em inglês. Responderam.

A lancha bateu na nave imensa.

Num pulo ágil, o prático apanhou a escada que passava. Ficou no ar. A lancha destacara-se parada. O ajudante manobrou. Veio vindo, enquanto já longe o navio formidável singrava para a alegria do porto, entregue a Quim João.

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A liberdade era assim – o melhor dos dons, o mais suave. Uma borboleta de ouro, dançarina livre dos matos, brincou nas pedras, nos caminhos.

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Seu Luís ia também deixar a ilha. Não podia ficar naquele silêncio onde nada o entretinha. Uma nostalgia parava-o longas horas, fitando a terra longínqua. Seu Luís tivera mulher e tivera uma filhinha.

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Não mais o artista sonharia na rocha, solitária, ao luar frouxo das estrelas. Pressentia a chegada alvissareira de Bairão ou de Claro Dutra para buscá-lo. Na manhã tépida, cheia de cantos de pássaros e de velas ao longe, foi para o recôncavo onde a água transparente batia. Jogou-se ao mar. Retesou em cabriolas os músculos das antigas façanhas, brincou, chamou para a terra. No caminho ensombrado Vitória Agonia pôs a sua aparição silvestre acenando.

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Havia festa de luz no mar. Um transatlântico minúsculo gravava o fim das águas. Ele foi visitar todos os itinerários da chegada. Uma confiança diversa da torva tristeza inicial animava-o. Ficou vendo longamente as ondas do mar largo esbravejarem esfriando o rochedo do Espinhé, molhou na praia as solas de corda das sandálias e ao sol do meio-dia estirou-se para dormir como um animal, na pedra avançada da ilha.

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Jorge sabia que à trama de ouro do destino se entrelaça a trama sem luz. Claro Dutra não vinha buscá-lo na suposta efusão, nem Carlos, nem Nora, nem Gulnare.

Uma noite ele aprestou-se a partir na lancha de Quim João que aparecia afinal aos seus olhos aflitos na fímbria escura das ondas grossas. O mar fumava-a como um cigarro. Era ela – desaparecia, brilhava, desaparecia.

No embarcadouro a voz estrídula do marítimo disse-lhe que Carlos telefonara de São Paulo. Só poderia vir daí a uma semana. Ele despediu-se da gente da ilha. Beijou no rosto Vitória Agonia que estacava numa surpresa. Desceu a pedra, levando a maleta de tela do Castro. Saltou.

No despegar do recôncavo, sentado à tolda junto de Quim João, esvaziou o revólver para a noite, numa salva ao refúgio. Uma fileira de luzes alargou-se, abraçou-o. Transatlânticos iluminados saíam. Era Santos.

Já em terra, despediu-se num abraço de Quim João. Um bonde, um veículo humano estacava ali. Jorge sentou-se a um banco. O bonde partiu. Gente desembaraçada, da cidade marítima, entrava conversando alto. A praia de residências desdobrou-se, a cidade cerrada apareceu.

Jorge sentia comovido o regresso à luminosa poeira da vida. Havia tumultos festivos nas esquinas, nos bares. Uma música de circo tocou para a sua saudade. Um carrossel cheio de luzes punha melancolia na noite, onde bonecos desengonçados se extasiavam.

Apeou no centro. Lembrou-se vagamente de ir para um hotel. Sentou-se antes a um café. Todos os homens, de todas as mesas, divertiam-se, falavam. Saiu.

E levando a malinha, jornais comprados e uma vontade humilde de chorar, nervosamente, epilepticamente, caminhou pelas ruas.

Na antemadrugada, ele acordara no quarto estranho do hotel. Vestiu-se. Pagou embaixo. Foi para a estação pelas ruas desiluminadas.

O trem partiu às seis horas. Começara a clarear.

Jorge d’Alvelos ia num carro de segunda-classe. Uma serenidade tomara-o.

Gente simples, calmos derrotados da vida, juntavam-se nos bancos de pau ao seu lado. Ele olhou a paisagem que corria. No claro azul fitas vermelhas alongavam-se além dos morros negros.

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No atelier a procissão das figuras esperava-o na postura das criações.

Pôs-se a trabalhar. Em duas semanas terminou uma estátua de Gulnare. Enquanto trabalhava recordações e debates voltavam. Resolveu passar a obra para o mármore.

Vinha-lhe a memória minuciosa do tempo: os mesmos dias como aqueles, interminados, e as tragédias revivendo minuto a minuto, a cruz prego a prego. Os contatos com Gulnare eram o canto da felicidade, de novo pressentida. As flores rubras do sexo, os seios abotados.

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Os acontecimentos da existência tinham tido sempre para ele um sentido espetaculoso.

Nas horas de angústia, ele se sentia desdobrar numa instintiva curiosidade da própria tragédia. Raras vezes soubera defender-se. Numa dadivosa entrega, fora sempre a oferta vitimal de si mesmo.

Brincara com o mais doloroso dos destinos, e achara nele o seu infantil divertimento.

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Visitou Nora. E ela contou-lhe que estava para se casar. Queria dar-lhe a despedida do amor.

Jorge conservava-se imóvel, sem crer, no divã do grande quarto, sob as janelas cerradas, acariciado pela seda do pijama dela. Encontrara a vítima definitiva de seu torturado caminho.

– Tem fortuna?

– Não tem.

– Terás de restringir as tuas necessidades de luxo. Diminuirás a tua vida?

– Por que não? O luxo é necessário para enganar a desgraça. Só para isso.

Ficou parada, recurva, fulva, os olhos de mostarda num ponto.

– Quem é? – murmurou Jorge.

– Um homem que alugou um quarto na casa aí do lado. Um homem magro, esgueirado. Nem nome tem. Mas tem um caso como eu. É uma ruína.

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Havia um piano na noite.

Que doloroso coração o seu!

Séria possível que o mundo não tivesse mudado? Seria possível que tudo existisse como antigamente, numa eternidade de coisas e de gestos? Os mendigos das estradas, o medo, os benefícios inesperados, o assassínio e a dor como em todas as histórias de todos os livros?

Ou era ele que estagnava inútil, idiota, amesquinhado?

Toda a sua revolta do início que o fizera um out-law, fora afinal atenuada, desviada, amortecida. Chegara ao catolicismo. Chegara ao panteísmo na ilha.

Era o morador burguês daquele chácara burguesa. Tinham-lhe imposto um caráter sentimental e tímido. Tenazmente, disfarçadamente. A pouco e pouco, lhe haviam quebrado o ímpeto dos pulsos hercúleos.

Embebedara-se do meio cretino e frouxo, a sua vida tinha sido uma imbecil domesticação, uma redução do ser revoltado, imposta por tudo e por todos.

Mas no fundo guardava ainda energias intactas. Ir-se-ia embora. Quebraria de qualquer maneira o exílio que sentia crescer agora, na maturidade. O infinito abrir-se-ia ainda à chave da vontade

Refugiava-se avidamente no plano estético. Dava-lhe um grande sentido vocacional, pensando em sua mãe que havia olhado para o futuro com aqueles mesmos olhos seus daquela noite.

Gulnare prendia-o, mediocrizava-o. Acabaria casado e corno como toda a gente de boa sociedade. A sua concentração sentimental espedaçava-se num beijo lúbrico contra o mármore da menina.

*-*-*-*-*

Parava assombrado ante o nu que acordava na obscuridade.

Lá dentro ia um desmantelamento. E o rosto? Como estaria o rosto naquele minuto, a máscara?

Parava ante a misteriosa angústia da obra realizada. Fizera aquilo sem pensar, jogando numa brutalidade de formas o nu adivinhado e palpitante que desejava. Agora, de súbito aquelas carnes falavam, clamavam nas dobras, nas linhas, nas incríveis ondulações. Era o sonho sexual.

Lembrava-se da mãe, pequenina, gorda, cheia de bênçãos no Amazonas tórrido, acarinhando-lhe o despertar convulso de artista. Ela mandara-o pedir proteção uma vez ao ricaço Antunes. Ele saíra numa antemanhã para ter a primeira decepção rude da vida.

A obra estava ali no vitorioso e trágico retorno, a obra pequena e gigantesca. Bendito sonho materno! Jorge estremecia na sombra palpitante.

E beijava Gulnare toda nua.

(Na próxima semana, últimas cenas d’ Os Condenados)

TEXTO-FIM
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Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil, foi o autor dos dois mais importantes manifestos modernistas, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago. Oswald realizou, ao lado de outroas artistas, a Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Em ocasião dos 60 anos de sua morte, Outras Palavras faz série especial em sua homenagem.