Os Condenados: 12º trecho da trilogia de Oswald

140815-Lasar Segall

“A amante morta jazia no fundo subterrâneo do seu ser, no inacessível fundo – imortal, perene companheira para as noites de solidão, para as horas amargas”

Por Oswald de Andrade | Imagem Lasar Segall

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No âmbito da série “Oswald 60″, Outras Palavras publica semanalmente, em formato de folhetim, a trilogia “Os Condenados”, obra perturbadora que Oswald de Andrade escreveu entre 1922 e 1934. Acesse aqui os capítulos já publicados
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Na sequência anterior, Alma grita, estraçalhada das perfurações que o cáften lhe fizera. Jorge leva a jovem à Santa Casa de Misericórdia. O médico informa que é preciso intervir. A jovem resiste ao choque operatório. O estado geral parece se normalizar. Alma diz a Jorge que vai morrer. Em silêncio, o escultor deseja matar Mauro Glade. Pela manhã, ela se confessa, no entanto, o médico só acredita num milagre. A angústia cresce, sufocante. Rezas e preces. Os circunstantes permanecem extáticos como modelos, em composição escultural. Alma morre. Carlos Bairão filosofa, a morte é um triunfo: todos prestam homenagens à repudiada de ontem. É sepultada junto ao avô, Lucas d’Alvelos. O escultor abre os olhos na escuridão de seu quarto. E percebe a madrugada num silêncio de vidas estranhas. Onde estará ela agora? (Theotonio de Paiva, editor de Oswald 60)

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TEXTO-MEIO

Passavam homens e mulheres. Tinham todos no rosto uma estupidez triunfal e cruel. Em limousines perfeitas, as senhoras dos grandes ricos exibiam, belas e risonhas, a sua vérmina insolente de prole – meninas espigadas em sedas, meninos morenos e desdenhosos.

A cidade toda movia-se, rodava. Maníacos, sonhadores vencidos, fariam também trotar na ciranda os esqueletos vergados e velhos, sem perceber a inutilidade dos seus gestos de pressa.

O escultor ia devagar pela Rua 15 de Novembro. À porta dos bancos, homens parados abriam caras neurastênicas e vazias. Outros passavam, correndo, semiloucos, discutindo alto os seus angustiosos sonhos de lucro. Rapazes irrepreensíveis, de olhos vermelhos sob óculos redondos e enormes, gigolavam nas esquinas.

Ele chegara ao Largo da Sé. Parou na convulsão extática de populares, à porta de um grande edifício; olhou e viu, na distância, as obras da Catedral cor-de-cinza, como um grito lancinante, que tivessem cortado pelo meio na imensa praça apagada. Desceu aos encontrões com a gente que se movia pelas ruas atravancadas de bondes e veículos. Estava perto de uma leiteria, entrou. Um homem calvo tomava notas com um lápis no balcão. Ele perguntou-lhe se havia sanduíches. O homem não ouviu; repetiu a frase fazendo uma violência física para falar.

E, de pé, pôs-se a comer.

Mocinhas de avental branco iam e vinham, fazendo o serviço das mesas, pagavam à caixa, buliçosas, sorridentes. Jorge pensou que elas podiam ser desgraçadas um dia.

Inconscientemente, tornara outra vez ao Largo da Sé. Estacou incomodado, ia tomando o rumo da casa de Alma. Estava agora em frente à montra pejada de uma livraria.

E Mauro? Com certeza fugira.

A tarde baixava, ameaçadora de novo. Um vento leve e constante levantara-se. Ele andara, achava-se na Rua do Carmo, divisou ao longe a casa baixa, perdida entre outras na Rua da Boa Morte. Pensou que devia levar o desconhecido à quadra desolada do Araçá, onde Alma repousava. Mas encaminhou-se para o Braz.

No fim glabro do dia, o bairro negro fumegava com recortes sobrepostos de casas, chaminés, fábricas, gasômetros.

Descera à Várzea; seguiu para a frente, sem tomar o caminho do Palácio das Indústrias. Massas de poeira elevavam-se, caíam na planície desolada que a rua cortava.

O vento recrudescia. Homens aos grupos, negros, apressados, iam como num romance.

O escultor foi andando. Quase anoitecera no céu de anátema. Pingavam gotas de água, batendo nas árvores, no chão. Uma carroça passou, estrídula, em disparada.

No desamparo penetrante de tudo, Jorge d’Alvelos, com gestos de polichinelo quebrado, mergulhou na noite sem Deus.

*-*-*-*-*

Um barulho silencioso de trovões havia passado em sua vida. Depois, nada, o aniquilamento, o caos girando.

Édipo, Hamlet, Fausto – todos os grandes perseguidos – haviam sofrido horrores definitivos como ele. Mas tinham tido platéia e, a segui-los, cortes de figurantes, fanfarras de Fortimbraz, sabbaths rodando, o Diabo em pessoa. O rei Lear vira despejar-se, de furnas mitológicas, a hostilidade dos elementos.

Ele, não. Apenas um barulho silencioso de trovões. Depois, nada.

Jorge d’Alvelos levantou-se da cadeira em que estava. Olhou-se ao espelho oval do quarto. Tinha a pele fresca e branca, o rosto marcado e enérgico, os cabelos negros e ondulantes. Saíra da tempestade assim, robusto, cheio de saúde, uma saúde cínica, insensível ao descalabro.

*-*-*-*-*

Decidiu voltar ao Palácio das Indústrias. Mas a idéia de que fora um crime consciente tê-la deixado para Mauro vir a matá-la obcecava-o. Não o denunciara. Para que? Para saberem tudo o que ela era? Diabinhos sutis apareciam para conversar com ele no silêncio do quarto, enfáticos, pondo, a serviço de sua dialética, as recordações que o estrangulavam como íncubos.

Ele parecia agradar-se daquela tortura, gostava das longas horas de companhia infernal em que discutia as suas culpas. Sem aquela brutalidade do cáften, ela viveria decerto ao seu lado, boa, carinhosa, amiga.

Chorava copiosamente. Propunha-se castigos, por não tê-la defendido, castigos teatrais: deixar-se arrasar sob a estátua dela que levantaria alta e maciça de quatro metros… Mas, de repente, a idéia de sofrer a morte, a morte que ela tivera, com todas as torturas, apavorava-o, deixava-o como um cão batido.

Tinha momentos eróticos: exigia para a sua desgraça uma compensação sexual. O instinto esfomeado miava dentro dele; e a alma ferida, espezinhada, consentia benévola, covarde.

Revoltava-se profundamente contra o catolicismo. Nos dias que precedera a morte nem uma prece lhe faltara aos lábios, nem um grande nome de santo tinha deixado de vir ao seu coração angustiado, suplicante. Nunca milagre nenhum tinha sido reclamado pela fé como aquele. E o céu permanecera impassível: ela morrera, ela, o seu amor, morta por que ele a abandonara sempre. Morta talvez porque não quisera seguir o cáften antigo.

Chegara a um materialismo resignado. Alma morrera: nunca mais ele tornaria a vê-la, nem nesta nem em outra vida – exatamente como seu pai, sua mãe, seus avós, sua irmã… Tinham-se esfarelado na terra criadora. Era melhor assim. Alma não sofria mais aquelas dores de fogo… Deus não o tinha ouvido, porque não havia Deus. Ela agora descansava. Era melhor.

Nesse monólogo obcecante, Jorge d’Alvelos vestira-se. Não choraria mais, para que chorar? O crime? O próprio Mauro talvez ignorasse as consequências da queda. Era inocente. Todos eram inocentes e cúmplices.

Saiu. A manhã ia alta. Desceu de bonde para o Palácio das Indústrias, encontrou o atelier aberto. O formador – um português de grande gravata de artista – ficara com as chaves. Saudou-o, perguntou-lhe se não passaria mais a estátua em gesso.

Desembaraçando-se do chapéu, Jorge viu a um canto, sobre um pequeno aparador, dois lenços que Alma lhe trouxera, por ocasião da última visita, dois lenços perfumados de Malia e sobrepostos num carinho feminino. Do outro lado, brilhava o espelho redondo na moldura de mogno, graciosamente suspenso: tinha sido o último presente dela.

Jorge despediu o homem, foi fechar a porta. Passos afastaram-se, duros, regulares. O formador tinha tirado os panos que recobriam a figura. Jorge fitou-a, gelado: era como um presságio póstumo e inútil. E subitamente, pularam-lhe do íntimo, miríades de angústias sufocadas. As lágrimas vieram com gritos; ele tinha os punhos virados, convulsos. E a crise foi-se apaziguando pouco a pouco, em lamentações. Ele revira Alma inteira naquele nu de sepulcro. E dizia, chorando para a estátua:

— Pobre! Pobre!

*-*-*-*-*

Resolveu fazer dali o túmulo de Alma. Comprara o terreno exíguo do Araçá, junto à sepultura do avô.

E agora, manhãs, tardes e noites perdia-as num carinho enternecido, no vasto atelier.

Recebera da Itália uma carta e uma fotografia de Mary Beatriz, magra, num tailleur inteiriço de inverno. Mandara-lhe também um registrado: foi ao correio procurá-lo. Era um livro de arte que abria com o testamento de Rodin. Começou a lê-lo e, forçando-se um pouco, colocou o retrato sorridente sobre a chiffonnière abaulado, por trás de um bronze.

Sentia-se arrasado para novos empreendimentos de vida. Sem Alma, ficava como se estivesse incompleto, provisório, desarmônico, partido pelo meio. O seu consolo era fechar-se ali, com a estátua da desaparecida. Pretendia apenas recobri-la, onde ela se santificasse num sudário, os braços para o céu inútil, deixando adivinhar o corpo no martírio dos últimos dias. O rosto gelava: era a morte.

Levara para lá uma recordação da Santa Casa, um volumezinho da Imitação de Cristo que o capelão lhe dera – envelhecido por longo manuseio. Abrira-o uma vez e lera:

“Toda a vida de Cristo foi cruz e martírio e tu queres que a tua seja descanso e alegria. Erras, enganas-te se neste mundo buscas outra coisa mais que o sofrer tribulações, porque toda esta vida mortal está cheia de misérias e cercada de cruzes”.

Levantou-se, caminhava inquietado. Uma vaga luz tremia em seu fundo supersticioso.

– Se pudesse rever Alma! Este enigma de mundo! Abriu de novo o livro em outra página:

“A cruz reconciliou o céu com a terra que estavam em luta. Da árvore da cruz brota o pomo da vida que se perdera no paraíso terrestre; do seu tronco misterioso rebentam viçosos ramos que penetram no céu”.

Jorge sentia-se, com surpresa, invadido de esperança e perguntou a si mesmo:

– Por que havemos de ter essa credulidade? Por que há em nós, no fundo, qualquer coisa que sempre crê, que sempre espera? Essa qualquer coisa parece que não é o nosso corpo, é uma centelha íntima que tem vida à parte.

Mas ao consolo trazido pelas reflexões vitalistas, foi-se sucedendo mansamente uma grande sombra de tristeza. Se Deus existia, se a centelha que reside em nós não era mortal teria de prestar pesadas contas à Justiça Divina. E foi para o seu quarto, tomado de um misto estranho de volúpia espiritual e de medo.

*-*-*-*-*

Uma noite, o escultor demorara-se na Praça da República, num banco, ao lado de árvores. Mais do que nunca, sentia a tristeza do seu abandono. Alma não vivia mais. O remorso voltava. Ele queria fugir, distrair-se, mas as recordações agarravam-no pela gola. Por que? Porque não estivera sempre ao seu lado para conter o ímpeto dos braços malditos de Mauro inesperadamente retornado. Antes o tivesse denunciado. Seria dez vezes melhor. Ela tinha dito também ao médico da Santa Casa que escorregara da escada. E agora não vivia mais! Levantou-se de um salto. Como? Mas como?

Andou. Sentia a loucura chegar. Tinha todos os corredores do cérebro habitados.

Pisou de repente na borda de um canteiro, o trauma físico sacudiu-o. O ar da noite, pessoas que passavam conversando, a sua própria marcha dissolveram-lhe a obsessão embolada na cabeça.

E compreendeu como havia gente que falava sozinha pelas ruas e gesticulava à-toa, andando.

*-*-*-*-*

Depois do enterro, ele regressara uma vez ao sobrado velho da Rua Scuvero. Milagre tinha ido ver a morta, vestida de Nossa Senhora, no caixão do necrotério.

Ele reviu o cenário inútil do romance extinto, pediu à mulher um jornal, embrulhou cinzeiros, o medalhão de ônix no fio invisível de platina, um renard antigo, dois anéis. Disse a Milagre, numa generosidade enternecida, que a roupa era para ela. Mandaria buscar os poucos móveis, os tapetes e as cortinas.

Ficou ainda ali, olhando os objetos familiares, o linho desembaraçado das gavetas, depois levantou-se, fez as contas com a mulher e partiu.

*-*-*-*-*

A libidinagem, entretanto, coruscava em meio daquele derrocamento. Jorge d’Alvelos havia passado dois meses de castidade. Os seus trinta anos idos, a sua vida sexual regulada na Europa e depois com a aventura que terminara tão mal, não lhe permitiam mais a freqüência humilhante dos bordéis ou a caça cínica às migalhas do amor de aventura. Casar-se… Pensava em Mary Beatriz, mas repelia a idéia como se fosse uma injúria à memória da morta. Voltar para a Europa, desorganizada pela guerra, e num ímpeto de sátiro, macular corpos inocentes, comprar virgindades nos becos, seduzir, gozar…

Uma das tardes geladas daquele começo de agosto, Carlos Bairão aparecera no atelier, a paradoxar elegantemente sobre Freud. A libido era tudo: a libido é que fizera o mundo e que o continuava numa retesada volúpia. Tudo copulava, e, mais, tudo era cópula: sentimentos, religiões, anedotas…

Nos dias que vieram, de incontida violência carnal, Jorge desejava espojar-se sobre a japonesa que lhe trazia o café pela manhã, sobre a vizinha, uma oxigenada, amante de Bruno de Alfenas, sobre a filha morena da porteira, de onze anos… E fungava, de dentes unidos, o cérebro fechado na obsessão espasmódica:

– A libido é tudo! A libido é tudo!

Vinha-lhe depois uma sensação enojada de miséria física. Tinha sonos maus e no dia seguinte, dores de cabeça, cansaços. Aquela situação não podia continuar assim…

Ao por a chave na porta enorme de ferro do sobrado da Avenida São João, Jorge d’Alvelos pensou na luta impotente que mantinha contra o sexo. Iria poluir os lençóis em sonhos idiotas. Hesitou. Depois, subiu lentamente até o Largo do Paissandu, com automóveis parados e um ruído de vida alegre, ao lado dos teatros. Tomou por uma rua quieta. À porta de uma casa, estava uma mulher magra, de saias curtas e cabelos de bebé. Ele parou. Atrás, vinha um casal burguês, deixou-o passar. A mulher chamava um cãozinho peludo que insistia em cheirar a sarjeta. Conversou com ela, perguntou-lhe o nome do cão. E tentou entrar. Mas ela olhava-o, séria, num súbito receio, e disse com delicadeza:

Non, monsieur, je suis occupée…

Jorge tinha o chapéu enterrado na cabeça, os membros lassos, o olhar fixo.

Bien… Au revoir…

Subiu a rua. Voltou imediatamente e foi se deitar.

*-*-*-*-*

Milagre viera agora vê-lo no Palácio das Indústrias. Sabia o caminho que Alma lhe indicara uma vez.

Tinha se empregado numa casa de família, morava num quarto do Piques. Trazia alguma coisa de Alma: os sapatos altos, a camisa de bordado fino.

Jorge fitava-a, subitamente despertado. E perguntou-lhe a idade.

– Trinta e um anos…

Entabulou uma conversa oca, procurando interessá-la. De pé, Milagre olhava-o com olhos espertos. Ele levantou-se, foi até a porta que ficara entreaberta, cerrou-a, deu volta à chave, veio sentar-se no divã e, ao passar por ela, roçou-lhe no corpo de cavala.

Milagre afastara-se: dava-lhe as costas. Foi olhando as figuras da parede, nus, torsos, estátuas. Parou em frente a um estudo de sátiro que ficara esboçado a crayon. Riu-se do membro desmesurado. Jorge aproximou-se. Foi uma vertigem. Apanhara-lhe na boca o beijo sujo, adstringente, pequeno.

Envolveu-a. Ela tinha os miúdos olhos deslumbrados, as mãos quentes. Veio trazendo-a sem resistência.

E notou que Milagre tinha as pernas esbeltas de Alma e trazia uma calça de rendas da morta.

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Sentia agora em toda a sua hediondez a desgraça moral que o devorava.

Deixara de ir ao Palácio das Indústrias, com medo de rever a mulher que tivera num espasmo sutil e doloroso, nas calças de Alma.

Ficara manhãs inteiras no quarto, a ler, a rodar, a descobrir pela janela o estirão de ladeira, com árvores nos canteiros de grama, entre os asfaltos largos. Automóveis passavam buzinando; bondes lá embaixo cruzavam-se. E desfilavam mulheres, escolares, prostitutas, mendigos – era o seu drama de grande espetáculo. Havia uma sorveteria em frente, quase ao lado do Conservatório: um sujeito gordo e sujo bocejava e servia lentamente os fregueses, tirando o troco de uma bolsa a tiracolo.

Fazia vir o almoço ali mesmo, comia sem os antigos cuidados de limpeza. Quando saía, voltava logo. O ambiente de velha estima, decaía. Deixara mesmo de fazer encerar o soalho.

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Aquela noite, numa obsessão, abismava-o a aventura com Milagre. No instante do grande aviltamento, em que ele a possuíra nas roupas íntimas da morta, alguma coisa gritara-lhe do fundo do ser: – Não! Não! E ele consumara o ato abjeto.

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A ausência de punições sociais para o crime de Mauro, tornara-o inquieto, desarmônico. A sua consciência exigia tribunais. E tirando do peito a medalha em que Alma lhe deixara o seu antigo riso sério, exclamava exaltadamente:

– Por que não me matas, querida! Mata-me! Vinga-te em mim! Eu te daria o coração em pedaços… Mata-me!

Se, ao menos, pudesse adoecer da chaga moral que o invadia todo, morrer disso como um morfético de sua lepra. Mas não. A Justiça Divina movia-se. O seu castigo seria outro, bem pior.

Enrodilhado numa cadeira, na noite velha, Jorge d’Alvelos pensava na possibilidade de ter engravidado Milagre.

Reunia numa estranha composição a figura de mulher à paisagem trágica de Areias e sentia, numa transposição da própria desventura, sob um vasto céu de queimada, o trabalho invisível das formigas.

Um filho com esse monstrengo que juntava todas as misérias neutras da vida.

Um filho! Ela persegui-lo-ia. Obrigá-lo-ia a adotá-lo, a criá-lo. Seria forte, gordo, idiota. Vaias infinitas vinham-lhe ao ouvido, pertinazes, dilacerantes. Era a vingança triunfal da assassinada: como ela riria no inferno!

Jorge levantou-se. Estava lavado em suor.

– Que ideia! Que ideia!

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O plenário dos diabinhos miúdos, com sapatinhos de vidro. reunira-se para julgá-lo. No centro, o juiz de barrete vermelho e tendo uma mancha na toga, apontava-o.

Ele esperava, cheio de pressentimentos. Estava de pé, havia guardas em torno, atrás, na porta. A mancha era uma caveira que guinchava, pondo a língua. Vinha-lhe uma vontade cega de gritar, de dizer desaforos. E o diabinho juiz esticava o pescoço de tripa, perguntava-lhe:

– Quer matar também?

Ele tinha os olhos secos, fixos. O diabinho prosseguia, com gestos de convite, fazendo toda uma mímica postiça de discurso.

– Venha, atire-se de ponta-cabeça. Venha! É bom…

Estava no chão, estirado num doloroso cansaço sincopal.

Levantou-se. Tinha um inchaço na fronte, que batera, no tombo, contra uma quina de móvel.

*-*-*-*-*

No entanto, a imagem adorada de Alma vacilara da sua primitiva fixidez.

– A vida é viva! – gritara ao escultor, num encontro de rua, o impagável Barrinhos, risonho, baixo, nervoso.

E ele repetia no silêncio do atelier:

– A vida é viva…

Cerrou o volume religioso. E ficou ali, no divã, a pensar no pequeno cemitério que guardava na alma, sagrado, inviolável à torrente da vida. A amante morta jazia no fundo subterrâneo do seu ser, no inacessível fundo – imortal, perene companheira para as noites de solidão, para as horas amargas. Que importava traí-la? Era o corpo que traía, a miséria fisiológica, um apodrecimento disfarçado de células, a lutar contra o inexorável caminho que as havia de desagregar em sebos pestosos e gases e liquefações e pó no escuro de um jazigo.

A centelha eterna restava fiel ao compromisso assumido.

Jorge teve um sorriso iluminado e triste. Voltava-lhe persuasiva, tentante, a sugestão teológica de que o corpo, como a semente, precisa apodrecer na terra para florir e frutificar.

*-*-*-*-*

Encontrara-se aquela noite com o músico Torresvedras, sempre mudo, sempre lento, no seu terno grosso e cor-de-burro, sob um chapelão preto de artista. E pusera-se a andar com ele pelo Triângulo.

Carlos Bairão regressara do Rio, onde tinha passado um mês. Assistira a um baile flutuante, a bordo de um couraçado e descrevera-lhe a festa num impressionismo: os reflexos da baía haviam feito, da Guanabara, Veneza à noite, vista com vidros de aumento, e os flirts nos canhões, com oficiais ingênuos e fortes pedindo beijos às moças…

E levara-o inütilmente aos cabarés na roda alegre de Mário de Alfenas.

Era outro mundo o de Jorge: o mundo que pressentia em Torresvedras, guardando tesouros imensos de sonoridade, de realização, correntes de força, de magia, de amor, no silêncio vagaroso do seu passo, – fechado como a Peau-d’âne da fábula naquele terno ridículo de casimira felpuda.

Foram andando e toparam de repente no Viaduto com a figura desengonçada e viva, buliçosa e espiritual do pintor Lino de Albuquerque, chegado de Paris. Era um menino quase, nos seus vinte anos ágeis e sonhadores. Abraçou-os expansivo, dizendo logo:

– Vou morar aqui. São Paulo é estupendo! Ontem, depois do baile no Automóvel Clube, era pura Londres. Só cartolas e o fogg… Sabem, chegou minha pequena do Rio, a Lolote…

Naquele tumulto confiante, Jorge d’Alvelos reviu-se aos vinte anos na primeira investida da vida, em Roma.

Lino contava o desembarque da mulher, por engano, na estação do Braz e depois fez, num arremesso de gestos:

— Estou contente. São Paulo é estupendo. Amanhã, instalo a Lolote. Vou fazer um álbum intitulado Nos Bordéis da América… estudar os Anjos da Terra, vocês conhecem essas senhoras que posam Murillo nas rótulas…

Partiu num alvoroço de risos. Ia à Rôtisserie visitar uma família.

Os dois sorriam andando, empolgados por aquela efusão dionisíaca, solidários com o artista criança que também tinham sido. Mas Jorge entristeceu-se dizendo:

— Como a vida canta em ti! Como a vida há de chorar dentro de ti!

Foram a um circo na Barra Funda, com fanfarras, palhaços, trapézios, pantomimas. Voltaram a pé. Uma mulher alta e flexuosa passou, seguiram-na. Depois deixaram-na. Tinham chegado ao Viaduto central. Jorge veio acompanhando o amigo. No parapeito da ponte, sobre o Anhangabaú, havia ajuntamentos escuros. Para os lados da Luz, uma fogueira elevava-se sobre as casas no céu ardente. Carros de bombeiros tilintaram na distância.

Jorge despediu-se e desceu para o quarto, murmurando:

– A vida… um circo, uma mulher, um incêndio…

*-*-*-*-*

Compusera o panejamento ligeiro da estátua de Alma, a recobrir-lhe a descarnada nudez. E passara-a para o gesso, com outro formador, italiano longo e triste.

Ia desnudá-la num domingo. Carlos Bairão prometera levar para ver o trabalho um crítico de arte, colaborador e correspondente de jornais.

*-*-*-*-*

A estátua, enovelada num bloco informe, fora transportada para um pavimento isolado do Palácio que abria dois quadros de janelas largas sobre a cidade. De um lado, via-se o Cambuci, panorâmico, extenso, com a sua capelinha de Lourdes em alta miniatura, sob o céu sereno; do outro, era a elevação do casario do centro, onde as torres de pedra da Abadia de São Bento subiam direitas, no ar lúcido. Os dois trechos recortavam a nítida manhã, emoldurando-a nas janelas.

E, numa alegria inocente, o escultor trabalhava.

Num veston de veludo, trazido de Roma, pendurando-se à escada aberta, adiantava o escalpelamento. Tinha retirado uma grande parte da fôrma – e o dorso velado da figura saltava já, branco, numa grande harmonia pressentida.

Jorge d’Alvelos continuava, integrado pela primeira vez depois de desastre, na alegria de criar. O formão, dirigido pela mão leve e certeira, revelava detalhes, compunha trechos de movimento, tirava pedaços de vida sepultada na massa. Às vezes, o escultor parava para arrancar as ligações de ferro que cingiam todo o bloco, e partes inteiras da fôrma, agora inútil, desmoronavam aos pés da estátua. Descobrira quase toda a figura e enervava-se em cima, num carinho, atacando de frente o rosto, numa ânsia de tirá-lo daquela sufocação inerte. Forçava cautelosamente o formão até atingir o trecho colorido em rosa, anunciando a presença imediata dos relevos.

E a estátua saiu do soterramento, moveu-se, livre, morta…

O artista descido contemplava-a. Quanto a greda, o bronze e o mármore eram a vida espetaculosa das formas, o gesso era a morte empedrada. Alma estava ali, branca, de pé, cinérea, sepulcral, num passo curto, de braços infinitos. O rosto ria um riso de outra vida, perturbador, gelado.

Mas ouviram-se vozes. O escultor foi à porta. Subiam pela escada provisória Carlos Bairão e um senhor petulante num fraque preto. Trazia óculos e fumava. Carlos apresentou-o: era o crítico.

Haviam-se calado diante da escultura. Jorge perscrutava-os. No amigo elegante, belo, desenvolto, percebeu logo uma simpatia radiosa pela obra; mas o jornalista emperrara num exame atento, descoroçoador. Disse afinal com significativo desprezo:

– Isso é futurismo…

Jorge teve uma angustiada surpresa. Depois, tentou explicar. Era moderno, quisera pôr a sua nota pessoal. Auxiliado pelos recursos de cultura de Carlos Bairão, defendia a estátua.

O crítico continuava insensível à sugestão emocional. Jorge então abateu-se num grave mutismo colérico.

Despediram-se. À porta, Carlos Bairão disse que o viria buscar para um passeio a Santos.

(Continua na próxima semana)

TEXTO-FIM
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Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos mais importantes introdutores do Modernismo no Brasil, foi o autor dos dois mais importantes manifestos modernistas, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil e o Manifesto Antropófago. Oswald realizou, ao lado de outroas artistas, a Semana de Arte Moderna que ocorreu 1922 em São Paulo, tornando-se um dos grandes nomes do modernismo literário brasileiro. Em ocasião dos 60 anos de sua morte, Outras Palavras faz série especial em sua homenagem.