Onde brilha o teu desejo

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Como as comunidades instigam a conhecer gente, expressar-se e superar o que Nelson Mandela via como “medo de ter luz”

Por Katia Marko

O lugar que almejamos é a terra
onde os humanos ainda são
tão perigosos quanto divinos,
onde o que é derrubado cresce de novo
e onde os ramos das árvores mais velhas
florescem por mais tempo.”

Clarissa Pinkola Estés,
“A ciranda das mulheres sábias”

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Dificilmente os dias são iguais na Comunidade Osho Rachana. Sempre encontro alguém diferente no café da manhã. As caronas também variam, assim como as conversas durante o trajeto até o trabalho. É muito rico viver desse jeito, com amigos por perto e todos dispostos a se conhecer. É verdade que a vontade de me esconder ainda existe. Mas a alegria de ser enxergada e amada apesar dos pesares é maior.

No livro O Lobo da Estepe, Hermann Hesse coloca um desafio: “saber qual o limite humano de suportar a vida, saber até que ponto aguentamos entre não poder viver e não poder morrer”. Esta questão é bastante profunda, mas parece que a correria do dia-a-dia não nos deixa espaço para refletir ou sentir o nosso limite. Na maior parte das vezes, paramos quando o corpo exige. Talvez exatamente isto seja o mais precioso da vida em uma comunidade como aquela em moro. Espaços de consciência e de cura. Momentos em que brecamos o trem e deixamos o corpo sentir.

Neste final de semana, começou mais um momento desses, na comunidade. O grupo chama-se “9 dias: Paixão, qual é a sua?”. Destinado para moradores ou não, serão nove dias de vivência. Pode-se participar de todos ou apenas de um ou dos dois finais de semana. O segundo grupo, chamado “O Desafio”, começa na quarta à noite e termina no domingo. As estruturas de dinâmica de grupo utilizadas foram criadas para cutucar conceitos, sentimentos e padrões. “O que está segurando tua paixão? Nosso sistema superlotado de “deves” e “não podes” e medos de sair da linha comum acaba massacrando qualquer possibilidade de criar uma vida com mais brilho”, explica o terapeuta Prem Milan.

Conseguir enxergar o que está limitando nossa energia da paixão não é fácil. Tem que estar disposto e aberto para mexer com conceitos. Muitas vezes, o script traçado por mãos alheias está tão assimilado que não sabemos mais se a vida que estamos vivendo é a que escolhemos, precisamos ou gostamos. Só sabemos que “devemos” continuar cumprindo as tarefas.

Em seu discurso de posse, em 1994, Nelson Mandela, afirmou que nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes. Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. “É nossa luz, não nossa escuridão que mais nos amedronta. Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de vocês. E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo”.

A vida em comunidade pode não ser a solução para mudar o mundo, nem temos esta pretensão. Mas queremos, sim, ser um foco de luz e possibilitar que a nossa verdade brilhe em outras direções. O medo está deprimindo a humanidade. O que geralmente se omite é que a depressão é originada basicamente da falta de expressão do indivíduo. E não é à toa, já que a nossa sociedade é a primeira a reprimir a expressão de nossas emoções, incentivando-nos desde cedo a controlá-las. Bloqueadas as emoções, impedimos que a nossa energia vital circule livremente por nosso corpo, o que faz com que ele perca a vitalidade original e passe a refletir os bloqueios a que se submete. Apesar de as emoções bloqueadas serem frequentemente as “negativas” (raiva, dor e medo), a perda de sensibilidade do corpo gera uma incapacidade também para os sentimentos ditos “positivos”, como a alegria e o amor.

Talvez uma alternativa mais saudável seja olhar com maior consciência para nossas vidas. Expressar nossas angústias. Compartilhar nossos medos e julgamentos. Retirar de nossos corações o peso de viver num mundo assoberbado e, ao mesmo tempo, vazio e superficial. Perceber o quanto merecemos nos responsabilizar por nós mesmos, com mais amor e respeito e não apenas como sobreviventes no meio do caos.

 

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Katia Marko

Katia Marko é jornalista, terapeuta bioenergética e uma pessoa em busca de si mesma.    Mantém o site: http://www.engenhocomarte.com.br