O zen e o mindinho quebrado

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“Subitamente é preciso rearranjar as ações sobre as quais nem se reflete. Quebrar esse dedo me deprime e me enche de vida. Faz lembrar que não sou só ideias, só éter”

Por Maria Bitarello | Imagem: Otto Mueller, Deitada, 1926

Três semanas atrás quebrei o dedo do pé. Uma bobeira. Uma topada. E nada grave. Uma fratura e pronto. E essa pequena pedra no caminho – quebrar o dedo mindinho, menor impossível – se mostrou um inconveniente surpreendente. O desequilíbrio provocado pela impossibilidade de usar uma parte do pé pra se apoiar é real, concreto, e também mental. Subitamente, é preciso rearranjar pequenas e grandes ações cotidianas, aquelas sobre as quais nem se reflete – como mudar de posição na cama ou calçar os chinelos. Agora, todas as ações motoras levam em conta esse toquinho no canto do pé. É preciso que outros façam por mim coisas até então dadas como banais, como apertar o pedal da embreagem do carro. De maneira compulsória, o cotidiano ficou mais zen e mindful, com as atenções plenamente voltadas pra cada ação. É bom e ruim. Nem bom nem ruim.

As limitações, pequenas e grandes, reversíveis ou não, aparecem a vida toda. Fraturamos, luxamos, distendemos, inchamos, inflamamos, sofremos. O corpo é forte e frágil, às vezes se quebra, e envelhece sempre, o tempo todo. Um bebê se recupera de uma lesão com velocidade Wolverine; um velho, não. E a falha do corpo, aqui e acolá, é um fato com o qual é melhor aprender a lidar e sacar, cedo ou tarde, que não dá pra controlar. Certas limitações, como a minha, são um aborrecimento passageiro. Outras, irreversíveis, e a elas muita atenção há que se dedicar, muitos ajustes são necessários. Viver as pequenas e grandes limitações dá um desânimo e, por essa razão mesma, maior é o desafio em manter a mente quieta, a espinha ereta, o coração tranquilo. Sentir dor drena força vital da nossa alma. Pode arruinar o bom humor. E aí, minha gente, não há bem-estar que renasça. Alegria é cura.

Então, já que o repouso é compulsório, esse dia-a-dia mais tai chi chuan pode trazer insights resultantes do deslocamento de perspectiva. Eu não tinha consciência, por exemplo, das contrações e distensões dedais que pratico dormindo. Nem do quão importante o mindinho é pra fazer a garra com os dedos no chão molhado do boxe, durante o banho. A afinação delicada do corpo a nossa mente e anima equilibra-se numa harmonia preciosa e frágil. Dos ossos às vísceras, da pele às unhas e cabelos, dos músculos, tendões, ligamentos e cartilagens ao sistema sanguíneo. Emoções, sensações, intuições, raciocínios. É como uma orquestra mesmo, a metáfora não existe sem razão. Basta o desajuste de um oboé (ou de um mindinho) pra desandar a sinfonia inteira. E, no entanto, quando tudo flui bem, a beleza é de parar o coração. Como a respiração tranquila de quem dorme profundamente.

TEXTO-MEIO

Fiquei pensando nas contusões, fiéis companheiras do todo atleta e artista. Lembro de um comentarista em época de Olimpíadas dizendo que um dos fatores determinantes pra superioridade do nadador americano Michael Phelps sobre outros é sua capacidade de recuperação e descanso. Que isso, mais do que se imagina, é vital para o êxito de um atleta profissional. Em paralelo, lembrei-me também de entrevistar uma bailarina do Grupo Corpo, dez anos atrás, e de ela dizer que fora as 6 a 8 horas diárias de ensaio, o restante do seu dia era dedicado a minimizar os danos provocados pela dança em suas articulações. Sofria de todas as “ites” e “oses”, como me disse na época.

Quando criança, achava que seria atleta. A modalidade mudava de acordo com a idade e a atividade favorita do momento, mas não a paixão pela utilização do corpo de forma ativa e a necessidade de explorar seus limites. Necessidade mesmo. Passei por anos de ballet, natação, tênis, capoeira, futebol até chegar ao yoga, que hoje me cai muito bem. Confesso que sigo tendo verdadeira adoração por quem modela e desdobra o corpo com a plasticidade de uma dançarina ou por quem modula as sutilezas da voz e transforma o sopro em música cantada. Só o corpo, só a voz, sem ferramentas.

Minhas limitações físicas de cada dia, da simples falta de aptidão pro handebol às inflamações repetidas no joelho, foram e vêm se acumulando, se alternando, se metamorfoseando. Ao longo dos anos, meu foco infantil foi mudando do músculo da coxa pras falanges dos dedos, quando passei a me dedicar a escalas pentatônicas e dedilhados de cordas. A divagação do espírito que se instaurou em decorrência da desaceleração forçada do corpo – “senta aí, menina, fica quieta e veja o que acontece”, me dizia um demônio indesejado atrás da orelha – flanou do violão pros livros, da câmera fotográfica pro cinema, da cozinha pra escrita. O movimento foi gradual, natural, mas não sem dor de perda. E, quando em vez, voltam essas memórias afetivas, que sinto no corpo mesmo. Não fossem essas limitações, talvez eu já tivesse morrido num acidente de asa-delta ou me quebrado muito mais na bicicleta. Talvez não escrevesse.

Quebrar esse dedo me deprime e me enche de vida. Faz lembrar que não sou só ideias, só éter. Que tenho um corpo; que sou um corpo. E ele é falível e maravilhoso.

TEXTO-FIM
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Maria Bitarello

Maria Bitarello trabalha como escritora, jornalista, tradutora e é mestre em Literatura Brasileira e Portuguesa pela UCLA. Só sei que foi assim (2014) é seu primeiro livro e outros trabalhos seus estão no blog ioncemetagirl.com

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