Triste futebol da era Ronaldo

Por Irlan Simões*, colaborador de Outras Palavras

Em fevereiro de 2011, um dos maiores jogadores da história do futebol mundial anunciou a sua aposentadoria. Antes mesmo de pendurar as chuteiras, Ronaldo, o “Fenômeno”, já havia revelado ao mundo os seus planos assim que deixasse de atuar nos gramados.

O que já se via àquela altura era uma estrela que havia se tornado um grande empresário do mundo da bola enquanto ainda era atuava em campo. Inaugurou no Brasil um modelo inédito de parceria atleta-clube, que ele próprio classifica como “a saída para os clubes brasileiros”.

Ronaldo pode ser considerado um marco de uma nova era no futebol, na qual os jogadores se tornam mega-estrelas, tendo status semelhantes a grandes artistas do show business da indústria cultural. Sua explosão como grande jogador, que encantava milhões de torcedores em todo o mundo, coincidiu com a nova ordem do futebol, cada vez mais mercantilizado, gerido por Federações que buscavam a todo custo adaptar-se a um modelo de empresa tendo participações em lucros exorbitantes e abusando do seu caráter de “direito privado”.

Ao voltar para o Brasil, já sem apresentar o belo futebol que o consagrou, Ronaldo encontrou o terreno perfeito para seus planos. Clubes endividados, um futebol pra lá de deficitário, dentro e fora das quatro linhas e uma confederação corrupta, tratada como um feudo pelo seu mandatário.

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Não foi à toa que, antes de escolher o clube mais adequado aos seus interesses – leia-se, fechar o melhor contrato – Ronaldo vagou pelo Brasil correndo atrás de contatos. Esboçou sua entrada no Flamengo, fazendo entrevistas emocionadas em rede nacional, aparecendo em jogos do time, vibrando junto com a torcida que exaltava como a “mais bonita do mundo”. O que se viu, no entanto, foi um acerto com o Corinthians, clube rival, e também de grande torcida, que lhe garantiu as melhores condições de negócio.

Ronaldo chega ao Corinthians como o grande momento do futebol brasileiro em 2009. Por mais que se desconfiasse das suas condições físicas e técnicas naquele momento, o jogador conseguiu atrair um inédito patrocínio de 18 milhões de reais, acordo firmado com a indústria transnacional de laticínios Batavo.

Não demorou muito e os resultados, de certa forma inesperados dentro de campo, vieram: conquista do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil. É verdade que o Corinthians reforçou o elenco a ponto de garantir a independência do seu futebol diante do Fenômeno. Mas suas participações foram fundamentais também como atleta. Fora dele, os números mostravam-se mais que positivos: a arrecadação do Corinthians, entre patrocínios e publicidade, saltou de 24,7 milhões de reais em 2008 para R$ 49 milhões em 2009.

O que ficava obscuro para a torcida do Corinthians, jornalistas e estudiosos do futebol, era a participação real do jogador nesses lucros exorbitantes que a diretoria do clube, através do malicioso Andrés Sanchez, afirmava auferir. Quem dependia mais de quem?

A situação ficou insustentável a partir do começo de 2010. O Corinthians fechou um contrato bianual, no valor de R$ 41 milhões, com a empresa de marketing Hypermarcas. Do total, nada menos que R$ 10 milhões, apenas para o jogador. Com a eliminação trágica do Timão na Taça Libertadores da América, torneio que ainda é o sonho de consumo da torcida alvi-negra, os valores tornaram-se ainda mais questionáveis. Assim como o futebol de Ronaldo.

Ao longo de 2010, Ronaldo atuou com a camisa do Corinthians em apenas 19 ocasiões, incluindo o campeonato estadual, a próprio Libertadores e o Campeonato Brasileiro. Marcou apenas 8 gols, a sua principal função. Em cálculos simples, o clube pagou cerca de 852 mil reais por jogo disputado. Mesmo jogando tão pouco, o fato de ainda ser jogador do clube lhe garantia contratos anuais com a Nike no valor de 1 milhão de dólares; com a Claro em 1,5 milhões, mesmo valor firmado com a AmBev. Além disso, Ronaldo participava de 80% dos 8 milhões recebidos por publicidade nos calções e ombro da camisa do Corinthians – um patrocínio gerenciado pela Hypermarcas. Por fim, um contrato com a Vale em 3,5 milhões só para uso da sua imagem no mercado chinês.

Ao mesmo tempo em que ganhava tanto, chegando à cifra impressionante de R$ 29,7 milhões ao longo dos 21 meses com a camisa do Timão, a torcida organizava diversos protestos contra o alto valor dos ingressos, outrora justificados pela presença da estrela que não mais aparecia em campo. Em determinados jogos, o torcedor comum era obrigado a desembolsar 80 reais, o dobro do valor cobrado na maioria dos estádios da Série A do Brasil. Um sinal de que os argumentos que sustentavam a presença de Ronaldo no clube já não mais faziam efeito. Sem jogar, o clube virou um misto de spa, agência de negócios e vitrine para jogador.

Acabado o triste ano do Centenário sem títulos do Corinthians, o ano de 2011 se iniciava com a dúvida sobre a aposentadoria do Fenômeno. Ainda havia uma Libertadores a ser disputada, talvez a forma de fechar com chave-de-ouro sua carreira. O resultado foi a vergonhosa eliminação na fase preliminar do torneio para o modesto Tolima, trazendo uma imensa crise ao clube.

Agora sim, Ronaldo podia dar fim à sua carreira de jogador, passando a explorar o futebol em proveito próprio fora das quatro linhas. Algo que já estava desenhado desde o início de 2009, pouco depois de estrear no Corinthians, como ele próprio revelou. Em entrevista à IstoÉ Dinheiro, em setembro de 2010. o Fenômeno contou que, à época, já montava – em parceria com os empresários Sergio Amado e Marcos Buaiz – sua empresa, a 9INE.

Os planos de Ronaldo com a 9INE são assessorar a carreira de jovens jogadores que se mostram potenciais estrelas. O ex-craque usa a sua história como exemplo: um talento raro com pouco preparo mental para o mundo selvagem do futebol-negócio. Com uma fortuna avaliada em 250 milhões de dólares, Ronaldo revelou a intenção de explorar também o mercado de direitos sobre os contratos dos atletas, no qual, em suas próprias palavras, “você compra dez jogadores e, se um der certo, já paga os outros nove”.

Não bastassem a sua carteira de ações, a participação de 8% na rede de academias A!BodyTech, as sociedades que tem com João Paulo Diniz, herdeiro de Abílio Diniz, e com ex-banqueiro Luiz Urquiza; e até a propriedade do prédio onde funciona a Faculdade Estácio de Sá, que lhe garante percentuais nas matriculas dos alunos; Ronaldo prevê a atuação da 9INE na Copa do Mundo de 2014 e nas Olimpíadas de 2016.

Ronaldo deixará um seu legado. O modelo de parceria atleta-clube será mais frequente no Brasil. Alguns atletas especiais deixarão a condição de subordinados ao clube, que devem satisfações aos cartolas e à torcida. O modelo já começa a se reproduzir com a vinda de Ronaldinho Gaúcho ao Flamengo, no início de 2011.

Ronaldo é hoje tipo ideal para muitos jogadores brasileiros. Na “vida real”, fora do mundo mágico do futebol, a realidade do jogador comum é extremamente cruel. Pouquíssimos desfrutam o status conquistado pelo Fenômeno. Dados recentes apontam que 96% dos atletas da modalidade recebem, no Brasil, entre dois e três salários mínimos. Apenas 3% recebem mais que R$ 10 mil reais mensais.

Em contrapartida, e a exemplo da 9INE, não param de surgir empresas que esticam os seus tentáculos sobre rentável mundo do esporte-negócio. Em favor de seu negócio, e tendo como alvo principal o torcedor, deturpam o principal sentido do futebol: o jogo em si.

O mundo do futebol não está apartado da realidade social na qual vivemos. A apropriação privada da cultura, um bem coletivo, provoca os mesmos efeitos que produzidos quando outros aspectos da vida humana ou da natureza são privatizados. Elitização, higienização, esterilização, acesso seletivo definido pelo aporte financeiro, são problemas que os torcedores, verdadeiros construtores do futebol enfrentam hoje e precisarão enfrentar nos próximos anos.


*Irlan Simões é estudante de Comunicação Social e torcedor do Esporte Clube Vitória. Atua no Movimento Somos Mais Vitória, na Associação Nacional dos Torcedores, na Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social e acha que o futebol deve ser jogador pela ala esquerda.

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Irlan Simões

Irlan Simões é jornalista, orgulhosamente nordestino, escreve para a coluna Futebol Além da Mercadoria. Também colabora com a Revista Rever.