O trabalho (nem sempre) enobrece o homem

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Filme inédito do diretor alemão Rainer Werner Fassbinder relata o declínio de um operário seduzido pela sociedade de consumo.

Por Bruno Carmelo, editor do blog Discurso-Imagem.

“Eu só quero que você me ame”. O título pode parecer romântico, mas ele deve ser lido num sentido mais angustiante. A necessidade de ser amado, de se inserir na estrutura (moral e econômica) contemporânea e corresponder “ao que se espera” de uma pessoa pode realmente levar o indivíduo a ações inesperadas. A crise financeira e o aumento das desigualdades sociais têm inspirado diversos filmes recentes sobre a desilusão do capitalismo, sobre a falência pessoal diante de um sistema de consumo de difícil inserção.

Esta obra se insere nesta linha “moderna”, mesmo tendo sido feita em 1976, pelo diretor alemão Rainer Werner Fassbinder. O filme inédito chegou à França com grande comemoração e notável peso autoral (a menção “um filme de Fassbinder”) aparece três vezes no filme, seguida do rótulo “moderno” no pôster. Sim, a narrativa se foca na falência de Peter, um pobre operário que deseja levar uma vida de classe média, deseja comprar aparelhos de alta tecnologia, ter computadores e uma vida “respeitável”. Sua noção de sucesso profissional e pessoal passa necessariamente pelo consumo, desejo que normalmente leva a uma ruína gradativa e inevitável dos protagonistas, geralmente homens, pais de família, empresários e portanto respeitáveis pretendentes à burguesia (vide Sonata de Tóquio, O Adversário, A Agenda…). Perder o emprego é uma desonra na estrutura em que o homem é o único responsável pela sobrevivência da esposa e dos filhos.

Crise da família patriarcal, portanto, que atinge desde os pais do protagonista, figuras exigentes e pouco amorosas. O filho, sensível, buquê de flores sempre à mão, se esforça para ganhar a admiração das duas figuras impassíveis. O sucesso no trabalho é portanto indispensável para este homem poder se mostrar como adulto independente aos olhos dos outros. Peter se casa com uma esposa que deseja trabalhar, mas ele a impede garantindo que o “dinheiro é de responsabilidade do homem”. Seguem mentiras, trabalhos mal pagos, dívidas, crises, tensões, brigas.

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Fassbinder utiliza a estrutura da gradação linear e certeira, que utiliza o frágil protagonista e o mergulha num ambiente cada vez pior, com perspectivas mais limitadas (o filho nasce, o trabalho torna-se escasso), mas tentando manter as aparências (simbolizadas pelo terno e gravata, por viajar de táxi). A direção concentra-se no rosto perturbado de Peter, na sua passagem diante das vitrines, nos presentes caros que oferece à esposa “porque eu só quero que você me ame”. O tema da compra do afeto com bens materiais está presente na arte pelo menos desde a Revolução Industrial, sendo bem descrita nos livros de Guy de Maupassant e de Gustave Flaubert, mas o capitalismo dos anos XX, pós-Guerra Fria (estamos no oeste alemão), intensifica a noção de desejo, de “descartabilidade”, de individualidade. Por amor à esposa, Peter compra joias, mas não lhe compra os alimentos de base.

I Only Want You To Love Me segue o declínio de Peter, até o tal assassinato que o filme evoca desde o início. A única solução para o protagonista é evidentemente assassinar um tipo bem-sucedido, figura paterna evidente, rompendo simbolicamente os laços familiares. A narrativa se conclui de maneira irônica, cínica e sem soluções. O personagem sai de quadro e resta o espaço vazio, a vista do “mundo lá fora”, visto da sala da prisão. A noção de liberdade deste mundo exterior parece de repente muito mais restrita, ingrata, capaz de levar mesmo os homens mais honestos a atos de loucura. Que se considere este ponto de vista determinista ou sintomático demais, este filme constitui uma representação pessimista do que viria a ser a “multidão solitária” e pós-moderna dos dias de hoje.

 

Je veux seulement que vous m’aimiez (Ich will doch nur, dass ihr mich liebt, 1976)
Filme da Alemanha do Oeste, dirigido por Rainer Werner Fassbinder.
Com Vitus Zeplichal, Elke Aberle, Alexander Allerson, Erni Mangold, Johanna Hofer.

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Bruno Carmelo

Bruno Carmelo é editor do site Discurso-Imagem