O papel de quem se crê consciente

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Nas ruas, novo ponto de encontro dos brasileiros, partidos de esquerda e movimentos sociais são indispensáveis — mas sem arrogância

Por Tadeu Breda

O protesto realizado quinta-feira 20 de junho na Avenida Paulista, em São Paulo, mostrou que as manifestações que têm ganhado a cidade estão divididas em dois grandes grupos: os organizados e os desorganizados. Eu sei que toda tentativa de classificação política e social — como esta que estou prestes a fazer — é generalista e não abarca a imensa diversidade do real. Portanto, muitas vezes acaba sendo inócua. Ainda assim, acredito que pode contribuir para a compreensão do que estamos vivendo, e reforçar alguns caminhos que me parecem abertos.

O primeiro grupo — os organizados — está formado majoritariamente por militantes de partidos políticos, movimentos sociais, sindicatos, centros acadêmicos, associações estudantis e organizações populares, muitas com atuação cultural. É um grupo pouco numeroso, mas está espalhado por todo o território paulistano: centro, periferia, bairros ricos, pobres, classe média, universidades públicas e privadas. Alguns de seus membros foram agredidos durante o protesto de quinta-feira, tiveram suas bandeiras queimadas e se viram obrigados a bater em retirada para não apanhar mais.

Os organizados também se representam por grupos ainda mais reduzidos e pouco articulados, que o senso comum prefere denominar como gangues. Por um lado, estão punks, anarquistas e antifascistas, avessos à existência do Estado e da autoridade, que consideram opressores. Por outro, grupos de ultradireita, nacionalistas, skinheads e fascistas, que pregam o reino da lei e da ordem, têm saudades da ditadura militar e lideraram as agressões contra as pessoas que carregavam bandeiras vermelhas na última marcha. Ambos podem utilizar de violência, mas com objetivos radicalmente distintos.

A parcela mais numerosa de manifestantes, porém, está formada pelas pessoas desorganizadas — ou seja, gente que não está vinculada a nenhuma entidade política, sindical, social ou cultural. E apenas uma minoria delas é politizada. A imensa maioria está tomando contato com a política pela primeira vez na vida: nunca havia participado de uma manfestação, nunca havia apanhado da polícia, nunca havia sequer discutido política nem se preocupado com isso.

TEXTO-MEIO

Estão acostumados a se informar apenas pelos grandes meios de comunicação, como Jornal Nacional. Se leem notícias, costumam recorrer a UOL, Folha ou Estadão. Sua revista preferida é Veja. São todos veículos imparciais — acreditam. Não importa tanto a faixa etária, se são adolescentes, adultos ou estão às portas da terceira idade. Foram os despolitizados de todas as classes sociais que compraram a pauta criada pela grande imprensa para as manifestações que claramente pediam redução da tarifa e passe-livre, e que haviam sido conduzidas desde o começo por organizações de esquerda.

Essa passividade também fez com que engrossassem o coro antipartido e se mostrassem coniventes com as agressões aos militantes. Por ingenuidade, preguiça ou comodismo, muitos deles simplesmente não sabiam o que estavam fazendo. Outros, sim: e estes puderam escolher — com pleno domínio de suas consciências — se apoiavam ou não a catarse movida a gritos como “Abaixa essa bandeira”, “Fora PT”, “Bandeira, aqui, só a do Brasil” e “O povo unido não precisa de partido”. Isso porque, dentro do enorme grupo dos desorganizados, há quem busque outras fontes de informação, questione as opiniões hegemônicas, reconheça os valores da democracia etc. Houve gente que ficou feliz por ter manobrado a massa em prol de seus objetivos repressores — na ocasião, alcançados com sucesso. E houve quem se decepcionou imensamente por ter visto um atentado tão grande à liberdade e à democracia, enquanto skinheads andavam envoltos em seu bairrismo xenófobo e cartazes preconceituosos — tipo, “Feliciano, cura a Dilma” — eram exibidos impunemente.

Existe uma imensa massa protestando nas ruas — e que está disposta a ser convencida sobre quais pautas devem abraçar em seu desejo legítimo de melhorar o país. Por enquanto, essa massa está sendo convencida a levantar as únicas bandeiras que chegam a seus olhos e ouvidos, e que não por coincidência são as bandeiras propaladas pelos meios de comunicação tradicionais em seu bombardeio incessante.

Por isso, uma vez reduzida a tarifa, os cartazes foram tomados por insígnias etéreas, como Fora Renan, Fora Dilma, Fora PT, Não à PEC 37, Não à corrupção, Fim dos impostos e congêneres. Os motes da violência policial, que teria sido a responsável pela massificação dos protestos; o Fora Alckmin, como pregam desde sempre os partidos de esquerda; e a passagem gratuita nos transportes públicos, que teria iniciado a mobilização, simplesmente desapareceram.

Nessa mesma quinta-feira, presenciei um jovem do Movimento Passe Livre explicando a algumas pessoas que gritaram bordões antipartido porquê eles haviam sido violentos e irracionais incitando a violência contra os militantes que portavam bandeiras vermelhas. E conseguiu convencer alguns. Um deles continuou criticando Dilma Rousseff e o PT em seu mural do Facebook, mas passou a postar mensagens sobre a importância dos partidos para a democracia. Também alertava amigos sobre o perigo de atitudes como as que ele mesmo havia tomado na rua.

É possível convencer muitas pessoas que, à primeira vista, parecem fascistas empedernidas, mas que na realidade apenas nunca pensaram sobre suas próprias crenças — e nem nunca se viram confrontadas com pensamentos diferentes dos seus. Jamais fizeram o exercício do autoquestionamento político. Para tanto, partidos, movimentos sociais e organizações populares precisam deixar a agressividade e a arrogância de lado e mostrar-se receptivas ao debate — sobretudo ao debate nas ruas, novo ponto de encontro dos brasileiros.

É verdade que o convencimento individual não é páreo para as transmissões televisivas, que atingem — e cativam — milhões de pessoas todos os dias. Por isso, novas estratégias devem ser traçadas pelos grupos organizados que há tempos pregam a ampliação dos direitos sociais, a preservação ambiental e uma longa lista progressista de etcéteras. Como disse o filósofo Vladimir Safatle, é hora de compreender que o verdadeiro embate apenas começou – e que a história não perdoará quem, agora, recolha suas bandeiras. “Agora não é hora de medo. Agora é hora de luta.”

TEXTO-FIM
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Tadeu Breda

Tadeu Breda, jornalista, é autor de Memória Ocular (2016) e O Equador é verde: Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento (2011), ambos publicados pela Editora Elefante.