O mito do dinheiro encantado

170608-Luxo

O planeta é capaz de oferecer a todos uma vida digna — porém frugal. Mas continuamos acreditando que é justo atender, sem limites, os luxos de quem pode pagar por eles

Por George Monbiot | Tradução: Inês Castilho

Imagine projetar uma das nossas grandes cidades a partir do zero. Você logo descobriria que há espaço físico suficiente para magníficas praças, parques infantis, piscinas públicas, parques e reservas naturais urbanas, suficientes para dar conta das necessidades de todos. Por outro lado, você poderia destinar o mesmo espaço a uma pequena parte de sua população – os cidadãos ricos – que pode ter amplos jardins, talvez com sua própria piscina. A única maneira de assegurar espaço para ambos é permitir que as periferias se espalhem até a cidade tornar-se disfuncional – impossível de ser equipada com serviços eficientes, de modo a perder o sentido de coesão cívica e adquirir um rosnar permanente de tráfego: Los Angeles para todos.

Imagine projetar um sistema de transportes de longa distância para um país que não o possui. Você poderia descobrir que há espaço abundante para todos se deslocarem rápida e eficientemente, em trens e ônibus confortáveis (um ônibus intermunicipal pode transportar tantas pessoas quanto uma fila de carros de 1,6 km). Mas oferecer a mesma mobilidade com carros particulares requer um uso imenso de terra, concreto, metal e combustível. Pode ser feito, mas somente às custas de mudanças climáticas, poluição do ar, destruição de belos lugares e um atentado à tranquilidade da vizinhança e à vida em comunidade.

O conflito se repete em termos financeiros. Como os muito ricos podem pagar menos impostos, os parques infantis públicos estão caindo aos pedaços. Os privilegiados podem usar sobras de dinheiro e construir espaços privados para seus filhos brincarem. Os banheiros públicos estão fechados, para que algumas pessoas possam instalar torneiras banhadas a ouro em seus banheiros. Piscinas públicas têm seu funcionamento restrito a algumas horas, para que os muito ricos possam ter suas piscinas aquecidas. Museus de arte públicos precisam cobrar entrada para que bilionários possam ampliar suas próprias coleções. A riqueza que poderia ser compartilhada e usufruída por todos é sequestrada por poucos.

É impossível oferecer uma vida boa para todos garantindo espaço privado através de gastos privados. Tentativas de fazê-lo são altamente ineficientes, produzindo níveis ridículos de redundância e duplicação. Olhe para as estradas, onde indivíduos, cada qual encerrado numa tonelada de metal, cada qual ocupando 90 metros de pista, viaja em paralelo ao mesmo destino. A ampliação da riqueza pública cria mais espaço para todos; a expansão da riqueza privada o reduz, deteriorando mais cedo ou mais tarde a qualidade de vida da maioria das pessoas.

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Essa é uma questão global, assim como nacional. De acordo com a Global Footprint Network (Rede Global de Pegada Ecológica), cada habitante do Reino Unido usa o equivalente a 5 hectares de terra e mar com os alimentos que comem, os produtos que usa e o carbono que libera, e que tem de ser absorvido em algum lugar se não quisermos que acelere o aquecimento global. Contudo, a “biocapacidade” do Reino Unido  (sua capacidade de absorver esses impactos) é de pouco mais de 1 hectare por pessoa. Esta extravagância gera um custo com que outros têm de arcar.

Comodidades públicas compartilhadas por todos, ou luxo privado disponível para poucos: essa é a escolha que enfrentamos o tempo todo, mas especialmente nestas eleições. É o conflito entre essas duas visões que define, ou deveria definir, nossas escolhas políticas. Há uma diferença significativa entre Trabalhistas e Conservadores a esse respeito, mas eu gostaria que ela fosse mais profunda.

O Partido Trabalhista, por meio da proposta de um fundo de capital cultural, irá reinvestir em galerias e museus públicos. Irá defender e expandir nossas bibliotecas, centros da juventude, quadras de futebol, ferrovias e serviços de ônibus locais. Ao contrário do Manifesto Conservador, quase silencioso sobre o assunto, sua plataforma oferece uma lista razoável de medidas de proteção à vida.

Mas também promete “continuar a melhorar nossas autoestradas” (logo depois da promessa de “encorajar e capacitar as pessoas para deixar de usar os seus carros”) e prover nova capacidade aeroportuária. O progresso no século 21 deveria ser medido menos pela infraestrutura que construímos do que pela infraestrutura prejudicial que dispensamos.

Os trabalhistas também perdem excelente oportunidade, em seus planos para expandir moradias acessíveis, de promover um tipo de acomodação que restabelece a comunidade e faz melhor uso do espaço. No sistema de cohousing (co-lares), as pessoas possuem ou alugam suas próprias casas, mas compartilham o resto do espaço. Em vez de picotar o espaço disponível em jardins do tamanho de um caixão, onde uma criança não consegue fazer uma estrela sem trombar com a cerca, as crianças têm espaço para correr juntas, e os adultos podem cuidar do jardim enquanto conversam. Lavanderias comunitárias liberam espaço para as casas das pessoas. Carros compartilhados reduzem a necessidade de estacionamentos. O isolamento dá lugar à convivialidade.

Mais importante, e menos surpreendente, o manifesto trabalhista não consegue reconhecer o grande dilema da esquerda: o dano ambiental causado pelos esforços para criar empregos por meio de crescimento econômico. Como os conservadores, como quase todos os partidos em todos os lugares (os verdes são uma notável exceção), a visão econômica do Partido Trabalhista é baseada no pressuposto de que não há limites.

Já o partido Conservador e  o Social Democrata veem o mundo como um manjar mágico que nunca será exaurido. Constroem seus programas econômicos com base num conto de fadas. Eles têm em comum uma outra premissa a ser considerada: a de que o dinheiro tem legitimidade para comprar o poder de tirar do mundo o que você quiser. Existe na política uma suposição quase universal de que, se você pode pagar, tem o direito de servir-se à vontade da maior parte dos bens comuns globais (atmosfera, solo, água, peixes), embora isso reduza o que sobra para outras pessoas dividirem. Você tem o direito de ocupar tanto espaço quanto seu dinheiro pode comprar, a despeito das restrições que isso imponha aos outros.

De onde vem essa licença? Ainda que a riqueza privada fosse obtida por meio do exercício da virtude (proposição improvável, na melhor das hipóteses) ou através de um empreendimento e trabalho duro (ainda mais improvável, nesta nova era de herança e renda), seria difícil identificar o princípio que converte esse dinheiro em permissão para adquirir o espaço e os recursos dos quais outras pessoas dependem para uma qualidade de vida decente. Quando e por quem foi garantida essa permissão? Como ela corresponde a nossa noção de direitos iguais, ou nosso conceito de democracia, que é baseado em igual poder de decisão?

Você não verá essas questões serem debatidas nesta eleição, ou em qualquer outra. Eles estão corrompidas pela crença mágica de que há espaço e recursos suficientes para todo mundo fazer o que quer; de que o crescimento infinito garante que ninguém – quando as promessas econômicas do partido são cumpridas – precisará se intrometer nos interesses dos outros. Contudo, neste planeta finito, essas são as questões que irão determinar não apenas a qualidade de nossas vidas mas também nossa segurança e, ao final, nossa sobrevivência. A tarefa primordial de todos os políticos de visão deveria ser decidir, primeiro, o quanto podemos usar, e então qual a melhor maneira desse tanto ser compartilhado.

Quando as questões que importam mais que todas as outras estão além do âmbito da política, quando quase todo o mundo na vida pública é muito cego ou muito medroso para enfrentá-las, quando – mesmo na grande e definidora eleição do Reino Unido, que finalmente oferece às pessoas uma escolha política significativa – nenhum grande partido consegue sequer nomear essas questões, começamos a perceber o tamanho da encrenca em que estamos metidos.

 

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George Monbiot

Jornalista, escritor, acadêmico e ambientalista do Reino Unido. Escreve uma coluna semanal no jornal The Guardian.