O dia em que a Catalunha começou a virar o jogo

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Truculência do governo espanhol serviu de amálgama: agora, plebiscito independentista tornou-se indispensável – e ameaça um pilar do conservadorismo europeu

Por Flávio Carvalho

O dia 21 de setembro de 2017 ficará guardado na memória coletiva da Catalunha como a data em que finalmente a mobilização pelo Referendo conseguiu vencer o bloqueio informativo dos grandes meios de comunicação espanhóis, depois de anos somando milhões e milhões de pessoas protestando de forma pacífica nas ruas. Importante objetivo foi alcançado: que a palavra Catalunha estivesse nas primeiras páginas de toda a imprensa mundial.

No hay mal que para el bien no venga, costuma dizer-se em espanhol. Não existe hoje, em toda a grande e velha Europa, manifestação popular que concentre mais de um milhão de pessoas na rua. Dias atrás, a França dos grandes sindicatos, por exemplo, contra a reforma trabalhista de Macron, conseguiu o enorme êxito de meio milhão de pessoas nas ruas, por um argumento tão convincente quanto os direitos trabalhistas de todos os franceses. Diferença qualitativa se compararmos os setenta milhões de franceses com os sete milhões de catalães. Pois Mariano Rajoy, primeiro presidente da Espanha a ser convocado a depor na Justiça após centenas de casos de corrupção envolvendo o seu partido, o PP, está conseguindo o que poucos conseguiram: a quase unanimidade na Catalunha, o consenso entre oito em cada dez catalães que dizem, por distintas razões, não aguentar mais e querer votar de uma vez.

Basta de políticos colocando palavras nas bocas dos catalães que nunca foram ditas; deixem o povo expressar-se diretamente nas urnas. A unidade dos catalães agora transcende, supera a defesa do Referendo. Até quando Rajoy esconderá não comparar-se a Franco, que interveio e tomou, à força, o poder político, a máxima representação institucional catalã, a Generalitat?

A “UNE” dos estudantes catalães, a “OAB” de Barcelona (em linguagem adaptada ao entendimento brasileiro), o conselho de reitores das universidades e as dezenas de “conselhos profissionais” (de arquitetura, de médicos, de jornalistas etc.), os bispos catalães, a imprensa local, os sindicatos e os representantes dos pequenos e médios empresários (enquanto os grandes empresários, mais conservadores e lucrativos, satisfeitos como estão, não defendem as mudanças), os estivadores no cais do porto e até os curiosos representantes do Festival Musical mais potente da Europa, o Primavera Sound, condenam, cada um à sua maneira, os recentes ataques da polícia de Rajoy contra as instituições públicas catalãs.

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A sede do partido CUP (jovens, feministas e, sobretudo, com fortes bases municipais) segue ameaçada de invasão pela “polícia política”, sem mandado judicial, prendendo aleatoriamente, como nos anos 1960. Rajoy bloqueia páginas da Internet e exige na TV: “mudem de opinião”, “abandonem suas pretensões”, “voltem para suas casas”. Prefeituras, praças e universidades estão sendo ocupadas. A Prefeita de Barcelona, Ada Colau, líder dos desalojados pela explosão da bolha imobiliária dos bancos privados, inimiga política da direita independentista (sim, pois aqui o independentismo é diverso e transversal em toda a sociedade) está cada vez mais se entendendo, neste momento especialmente histórico, até com os velhos inimigos para impedir os ataques de Rajoy.

É possível avançar na luta anticapitalista e apostar pela revolta social independentista. Não há incompatibilidade quando o objetivo é reconstruir de baixo, na luta política de base, todo um país. Todo um mundo de oportunidades – nada cai do céu, sem luta – depois do 1º de outubro. Por iniciativa da nova esquerda espanhola, do partido Podemos, a direita herdeira do franquismo, o PP, começou a perder votação no Parlamento espanhol: está ficando só (com o apoio do seu clone na Catalunha, a nova direita) na sua estratégia de guerra.

Todas as expectativas estão em cima do Partido Socialista (só no nome), que nasceu na luta contra a ditadura franquista e encontra-se absolutamente dividido entre frear a crescente perda de militantes ou ganhar, à direita, os votos de quem acha que Rajoy está enfraquecido e ainda poderia ser mais duro do que já está sendo. Porque na Espanha tudo sempre pode ficar pior…

Ninguém mais esquece que nos anos 1970 a ditadura refundou-se no PP e, jogando a poeira pra debaixo do tapete, aprovou-se a Constituição que Franco, no leito de morte, encomendou ao Rei da Espanha, guardião simbólico da unidade do Reino. A prova de que quando se quer muda-se a Constituição foi a própria posse do Rei, às pressas, para tapar escândalos reais. Esta semana, adotando a estratégia fabricante de novos independentistas (que se traduz em mais e necessários votos para o nacionalismo espanhol, sediado em Madri), o governo espanhol bloqueou, na capital do reino, as contas públicas catalãs, a maior fonte de dinheiro de todo o Estado.

Conseguiu dos grandes bancos privados (resgatados com 77 milhões de euros presenteados por Rajoy, dinheiro público que nunca será devolvido, tal como antes prometeram), o apoio para bloquear as contas dos serviços públicos catalães. Hospitais e escolas, entre outros, começam a falar em greve geral, como estratégia de sobrevivência, antes que todos os serviços comecem a desmoronar.

A tal polícia de Rajoy, a Guardia Civil, sequestrou urnas e cédulas eleitorais dos armazéns públicos e privados e até se atreve a retirar, a força, bandeiras independentistas de casas e locais privados. Um claro ataque a um direito internacional e muito prezado na Europa Ocidental: a liberdade de expressão. O Wikileaks já se ofereceu como suporte às páginas da Internet independentistas que Rajoy fechou com ou sem ordem judicial.

Personalidades como ex Presidentes da União Europeia (os principais líderes atuais são do Partido Popular, o mesmo de Rajoy) e até um madridista famoso como o tenista Rafaem Nadal, conclamam Rajoy a sentar-se em uma mesa de negociação. O mesmo que já fizeram e seguem fazendo diversos prêmios Nobel e personalidades internacionais como Silvio Rodriguez, Pep Guardiola, Gerard Piqué, Yoko Ono, Peter Gabriel, Paul Auster e Vigo Mortensen, entre tantos outros.

Para a Espanha que viveu sob a ditadura europeia mais duradoura (Franco durou décadas defendendo a unidade forçada da colcha de retalhos espanhola), falar de independência era um tabu. Nas Olimpíadas de Barcelona, independentistas foram presos e torturados para não aproveitar as câmeras de televisão focadas nessa cidade. Mas agora Rajoy não consegue olhar para o outro lado, como se nada estivesse acontecendo.

Um dia antes de iniciar-se a ocupação policial espanhola, golpista segundo vários jornais mundiais como o Le Monde francês, milhares de espanhóis assistiam a TV Intereconomia, em Madri, recomendar ao líder norte-coreano que bombardeasse Barcelona. O cenário político está propositadamente esquentado pela direita espanhola, a quem interessa provocar o medo para que os catalães não saiam a votar no dia 1º de Outubro.

Graças à criminalização orquestrada pela polícia de Rajoy (passando por cima da própria polícia catalã recentemente condecorada como heróica, diante do atentado terrorista de Barcelona), os catalães reativaram a memória da Guerra Civil em Barcelona. Nas ruas, é comum encontrar idosos dizendo que já passaram por duas guerras e não pensam em morrer tão perto de conseguir o sonho dos seus irmãos, pais e avôs, fuzilados pelos franquistas. Barcelona foi a primeira cidade no mundo a ser bombardeada pelo ditador do seu próprio país, a Espanha. Depois dessa semana, uma coisa é certa: a Espanha nunca mais será a mesma.

O grito mundial de Barcelona (No tinc por: “não tenho medo”) que ressoou em todo o mundo em solidariedade contra o atentado terrorista, voltou às ruas de Barcelona e está voltando a ganhar o mundo, dessa vez dirigido ao PP de Rajoy, depois de haver sido erguido contra os terroristas do Estado Islâmico. Como última informação, dezenas de brasileiros, em Barcelona, difundem nas redes sociais, há alguns dias, o seu manifesto próprio: “Liberdade de Expressão na Catalunha! Lutamos contra o fascismo na Espanha”.

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