O cinema-fluxo de Terrence Malick

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“De Canção em canção”, seu filme mais recente é sequência de fragmentos, sem arranjo lógico ou dramático, com quatro personagens jovens e lindos. Há musicalidade, mas falta sentido. Ainda assim, pode ser experiência instigante

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

De canção em canção, o novo filme de Terrence Malick, é um objeto – melhor seria dizer: um organismo – difícil de apreender, pois tudo nele é fluido: a história, os personagens, o modo de filmá-los.

São fragmentos, retalhos, sem ordem cronológica ou progressão dramática aparente, das vidas de quatro personagens centrais: um produtor musical rico e poderoso (Michael Fassbender), sua jovem assistente e namorada (Rooney Mara), um músico em início de carreira (Ryan Gosling) e uma garçonete (Natalie Portman). Todos belos, jovens e inquietos, circulando por ambientes modernos e suntuosos, hotéis de luxo, bastidores de shows de rock, em cidades ricas do Texas, com ocasionais incursões em coloridos pueblos mexicanos.

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Consta que as filmagens foram feitas de modo intermitente ao longo de dois anos, durante a realização de outro longa-metragem do diretor, Cavaleiro de copas (2015). Consta também que o filme não seguiu um roteiro e que sua primeira versão editada tinha nove horas. No processo de depuração que resultou nas atuais pouco mais de duas horas, Malick parece ter-se preocupado mais com a criação de um fluxo do que de um enredo ou de uma concatenação lógica. É, como em outras obras do diretor, um cinema mais sensorial do que propriamente narrativo ou “intelectual”.

Daí que todas as cenas – filmadas com uma câmera quase sempre em movimento – pareçam começar já em andamento e ser interrompidas antes de ter um desfecho. O uso frequente de lentes grande-angulares acentua a fluidez, curvando o mundo, amaciando suas quinas e arestas (ainda que os cenários sejam frequentemente retilíneos, condizentes com a arquitetura moderna e clean de seus ambientes de vidro, concreto e aço).

Numa esfera social de abundância (casas nababescas, iates, jatinhos particulares, jardins babilônicos), os personagens se debatem com angústias e carências impalpáveis, que o hedonismo e o sexo não conseguem aplacar por completo. Mesmo o mais poderoso e manipulador dos personagens, o produtor vivido por Fassbender, gira em falso, movido por uma energia interior que não se aplaca totalmente com a dança, o sexo promíscuo, as lutas e jogos corporais.

Âncoras de realidade

Alguns dados pontuais sobre o trabalho, as relações com familiares, os projetos imediatos, são pequenas âncoras de realidade que não chegam a fixar muito bem a trajetória dos personagens, que parecem seguir flutuando à deriva, “de canção em canção”. Do mesmo modo, a aparição de roqueiros das antigas (Iggy Pop, Patti Smith, Johnny Rotten), no papel deles mesmos, e de alguns atores veteranos (Holly Hunter, Val Kilmer) em papéis secundários tem o dom de trazer momentaneamente o espectador para um certo chão de realidade.

No mais, é aquela fluidez dos filmes de Malick, que parece tentar inserir cada ser e objeto no movimento contínuo do cosmo, seja num filme de guerra, num drama familiar ou numa história de amor. É uma vocação mais metafísica do que histórica, social ou psicológica.

Essa abordagem autoral pode ter efeitos contrastantes no espectador. Há os que se deixam conduzir pelo andamento líquido das imagens, por sua musicalidade intrínseca (exacerbada no caso deste filme feito de canções) e há os que simplesmente se dispersam e se desinteressam ao não encontrar onde se agarrar para manter o prumo e encontrar um sentido. Não é por outro motivo que Malick divide opiniões, e até paixões. Não é necessário tomar partido, mas tentar suspender por um par de horas as expectativas e embarcar nessa viagem pode ser uma experiência enriquecedora.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.