O pós-capitalismo particular de Mahatma Gandhi

Gandhi com operárias de Darwen, Inglaterra, nos anos 1930

Gandhi com operárias de Darwen, Inglaterra, nos anos 1930

Previu os desastres da alienação do trabalho, do consumismo, do maltrato aos animais. Defendeu uma vida frugal para todos e uma nova democracia, com controle social

Por Débora Nunes

Há uma bela viagem a fazer com Mahatma Gandhi: acompanhá-lo em sua crítica ao capitalismo e sua proposta de uma sociedade pós-capitalista, a partir da evolução da consciência humana. Nem que seja uma viagem bem curta, apenas à sua premonitória visão ecológica sobre os desastres que o capitalismo promoveria, por ter sido feita no início do século 20, antes da existência da sociedade consumista de massas.  Quem me conduziu anos atrás nessa viagem foi o professor Jeevan Kumar, que dirigiu por muitos anos o Centro de Estudos Gandhianos vinculado à Universidade de Bangalore (Índia), onde fiz o meu pós-doutorado.  É com Jeevan que saímos juntos para essa viagem breve.

Em sua visão integral acerca do desenvolvimento da teia da vida, Gandhi afirmava, tendo em vista o capitalismo: “uma sociedade em que os trabalhadores são tratados como máquinas, em que os animais são explorados cruelmente nas fazendas industriais e em que a atividade econômica leva à devastação da natureza não pode ser concebida como uma civilização”.

Na Índia, na primeira metade do século 20, Gandhi propunha a igualdade entre os sexos, a superação das castas e das divisões religiosas e a busca pessoal e coletiva por mais consciência, para construir uma sociedade humanizada que superasse o capitalismo. Ele dizia que “uma civilização, no sentido real do termo, consiste na redução voluntária de desejos, que promova felicidade e satisfação reais e aumente a capacidade de serviço”.

Para Gandhi, o caminho até essa civilização demandaria um processo de baixo para cima, com condições educacionais e econômicas para a participação de todas as pessoas, criando instituições locais, regionais e nacionais abertas ao que chamamos hoje de “controle social” [nota da redação: vale a pena olhar o pensamento de Gandhi vis a vis o de Rosa Luxemburgo, clicando aqui. Ambos foram contemporâneos, ele nasceu em 1869 e ela em 1871, embora talvez nunca tenham ouvido falar um do outro]. Tal civilização deveria garantir também (quanta atualidade!) que “os representantes eleitos se comprometam com os princípios de transparência, veracidade e responsabilidade”.

TEXTO-MEIO

No tempo de Gandhi, vários defensores do socialismo acreditavam que ele seria construído a partir de uma revolução na qual a fonte dos males, a propriedade privada, seria extinta. Um governo operário de uma sociedade sem propriedade construiria então um mundo justo para todos. Não foi bem assim. As mudanças sociais e econômicas não foram acompanhadas de uma evolução das consciências e o desejo de predominância sobre os demais foi uma das causas dos desvios do projeto socialista, no socialismo real, que combateu apenas os efeitos desse desejo.

Gandhi entendia a necessidade de coerência e foi isso que exprimiu em sua frase mais famosa: “nós precisamos ser a mudança que queremos ver”. Para superar o capitalismo e seus efeitos perversos para os humanos e a Natureza, seria bom seguir os conselhos do velho e bom Mahatma.

TEXTO-FIM
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Débora Nunes é arquiteta,doutora em Urbanismo, com pós doutorado em Extensão Universitária pela Universidade Lumière Lyon II (2008) e em História das Cidades e Cidades do Futuro pela Bangalore University, India (2015). É coordenadora da Escola de Sustentabilidade Integral e professora titular da Universidade do Estado da Bahia, no Curso de Urbanismo. Autora dos livros Os Novos Coletivos Cidadãos (2014), com Ivan Maltcheff; Incubação de Empreendimentos de Economia Solidária (2009) e Pedagogia da Participação - Trabalhando com Comunidades (2002 e 2006).

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