Muito mais que Indignados

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Dois anos depois de ocupar praças da Espanha, 15M assume nova forma: múltiplos experimentos de relações sociais e culturais alternativas , numa sociedade em crise

Por Bernardo Gutierrez | Tradução: Antonio Martins

“As velhas manifestações, tão cinzentas e limitadas, tornaram-se obsoletas e inúteis, o que abriu caminho para um infinito de possibilidades. Repensamos a ação, a queixa, as relações, o público, o comum”. No texto coletivo Isso não é uma manifestação, aparecem detalhes que os meios de comunicação de massas ignoram. Isso não é uma manifestação não é um exercício de nostalgia. Não é um anseio daquela vibrante Multidão Que Ocupava as Praças que conformou aquele imprevisível corpo coletivo, aquela trama de afetos a que alguns chamam de “movimento 15M”.

Isso não é uma manifestação é um inventário de detalhes mínimos / máximos, de ações, processos, projetos para os quais servem mal as velhas palavras. Isso não é uma manifestação, dizíamos: “E nossa imaginação transbordou por completo o espaço do possível, construindo já novos mundos dentro da velha carcaça deste em que vivemos”. Isso não é uma manifestação. Isso não é uma soma quantitativa. Isso é mais que uma enumeração de conquistas. Isso é algo mais que um eco daquele “vamos devagar, porque vamos longe”.

Alguns meios de comunicação apressam-se, na Espanha, a enterrar “o que sobra do 15M”. Depois da manifestação do último domingo, convocada nas principais cidades da Espanha, alguns colocarão um obituário sobre o 15M. Contarão cabeças, escolherão a foto mais despovoada. Manipularão inclusive alguma imagem, como se faz nas ditaduras. Comemorarão o enterrro, isolados em sua cova, refletidos no empanado espelho midiático do velo mundo. Não olharão para os detalhes, o processo, o gotejar incessante. Não observarão. Não escutarão. Não lerão este texto.

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Certo: o 15M é tão complexo que custa categorizá-lo, explicá-lo, traduzi-lo. Além disso, os olhos veem o que estão acostumados a ver, como lembra Amador Fernández-Savater, no recomendável Ver lo invisible: unicornios y 15M. Mas talvez se possa vislumbrar sua potência transformadora descrevendo pequenos gestos, sonhos em minúsculas, construções coletivas, invisíveis para muitos. O 15M não necessita mais de utopia em maiúsculas, não. Não necessita aquela UTOPIA do maio de 68, aquela estúpida “praia debaixo dos paralelepípedos” que nunca apareceu. Não necessita porque o 15M já construiu sua própria utopia: dezenas, centenas, milhares de microutopias em rede. O 15M não necessita de um modelo utópico porque já tem – um, centenas, milhares – de protótipos reais. Protótipos microutópicos, conectados entre si, conectados (quase) em tempo real.

Palavras-chaves, sim: prototipo. “Exemplar original ou primeiro molde em que se fabrica uma figura ou outra coisa”. A cultura digital, os processos copyleft, a ética hacker tão presentes nos preâmbulos do 15M impregnaram esta nova revolução de multidões conectadas. O protótipo, o novo mundo aberto baseado nos processos, substitui o modelo definitivo. E o 15M não deixou de cozinhar protótipos. Construiu-os coletivamente, em rede, de forma aberta. Naquela Acampada Sol inicial não havia apenas perssoas protestando diante do colapso do sistema. Naquelas acampadas estava o novo protótipo de mundo. E estava nos detalhes. Em suas creches, em suas bibliotecas abertas, em suas hortas, em seus streamings, em seus mecanismos analógicos e digitais para propor mudanças. O 15M – seja um diagnóstico, um movimento, um estado de ânimo ou um conjunto de vínculos humanos – construiu protótipos. E muitos. Jurídicos, urbanos, culturais, econômicos, tecnológicos, comunicativos, políticos, afetivos..

A potência do 15M não está na reação, na (necessária) defesa coletiva do sistema do bem-estar. Sua bomba poético-real está em sua natureza propositiva, criativa, inovadora. Diante da cegueira generalizada de nossos políticos, diante do olho torto da mídia, visibilizar estes protótipos reais, vivos, eportáveis-exportados, é mais necessário que nunca. Não é uma lista, não. Talvez, um ato de justiça poética. Um invetnário subjetivo que conforma algo maior – para o que ainda não temos nome.

Nossa vingança é ser felizes, estamos dizendo faz tempo.

 

PROTÓTIPO 1 / MICROUTOPIA DO MÉTODO

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Imagem: Ondas de Ruído. Licença Creative Commons Share Alike 2.0

As acampadas de 2011 surpreenderam a velha política com um retorno às assembleias. Assembleias não-hierárquicas, abertas, das quais qualquer pessoa podia participar. Assembleias políticas, pela primeira vez em muitas décadas, celebradas no espaço público. Assembleias que se converteram em método e hardware para reunir as cidades . Do diálogo e convívio, como reação ao antagonismo viscxeral da velha classe política, surgiu a necessidade do consenso: daqui não saímos, até que nos coloquemos de acordo. Do desgaste do mecanismo de consenso nas acampadas nasceu a estratégia da distribuição geográfica e temática. #TomaLosBarrios. #TomaLaPlaya. #TomaLoqueQuieras. Faz com outros. Faz aberto. E da dificuldade de convívio, da lentidão do consenso, da decentralização, foram surgindo mecanismos de autonomia.

O fork – utilizado na gíria do software libre para definir um desvio pacífico, em um projeto – passou a ser usado na política cidadão do 15M. O recém-formado Comitê Disperso resume bem os novos rumos do método 15M para lidar com processos de multidão plurais: “Pode-se estar sem estar sempre. Pode-se ser sem ser o mesmo. Pode-se participar sem que implique casar com ninguém, nem deixar de ter vida própria. A partir do respeito mútuo, organizar-se na dispersão facilita a colaboração de pessoas e coletivos em diferentes graus, segundo seus próprios desejos, capacidades e possibilidades em cada momento” Não é de estranhar que o Partido X, Partido do Futuro, um fork do 15M, defina-se como “um método”.

PROTÓTIPO 2 / MICROUTOPIA URBANA

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Imagem: Campo de Cebada. Licença Creative Commons Share Alike 2.0

As acampadas supunham uma dupla mutação do espaço urbano. Primeira: a passagem de espaço público a espaço comum. As praças, fustigadas pela privatização de seu uso e por excessiva proibições, renasceram como um comum urbano. Os cidadãos em rede, sem hierarquias nem líderes, organizaram um espaço urbano peer-to-peer (de pessoa a pessoa), de praças-nós conectados entre si.. A segunda mutação: o espaço híbrido . Não eram praças de cimento. Eram praças feitas de átomos e bits. A vida analógica estava intimamente entrelaçada com a digital. Inseparavalmente. Durante a Acampada Sol, o Twitômetro conectava redes e praças, espaços virtuais e físicos. A campanha #AbreTuWIFI, que incentivava a abrir o WI-FI dos apartamentos, durante as manifestações, alimenta esta nova cidade híbrida. Outro bom exemplo: o mapa #Voces25S, criado para proteger a multidão da violência policial. Bastava tuitar desde o celular, com a geolocalização ativada, para colocar a Almofada Digital na Cidade Física.

A primeira mutação caminha para uma rede de espaços públicos convertidos em espaços comuns, autogovernados, autogestionados, cheios de vida, como o Campo de Cebada, de Madri, que hoje ganhou o prestigioso prêmio Golden Nica, do festival Ars Electrónica, na categoria de ‘Comunidades Digitais. São espaços que não contam, em sua maior parte, com apoio de instituições sem ideias nem recursos. A segunda mutação voa rumo à plataforma Convoca!, que permite registrar-se em uma multidão inteligente, manifestação, evento ou acampada. Ambas mesclam-se num novo espaço de fluxos, em rede, conectando peers glocalmente, mais além de instituiçoes e fronteiras, à margem de lógicas comerciais.

PROTÓTIPO 3 / MICROUTOPiA COMUNICATIVA

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Imagem: Fotomovimiento.org

Poucos países do mundo vivem na prática o conceito do sociólogo Manuel Castells, da “auto comunicação de massas”, como a Espanha. Diante do olhar de mídias de massa encerrados em seus clichês e limitações corporativas, o 15M criou um sistema de auto comunicação de massas sem paralelo na história. Instaurou a transparência como método: streaming de assembleias, atas/documentos abertos das reuniões. Uma transparência que é ação e comunicação ao mesmo tempo. O 15M fez os melhores streamings das manifestações, desde o início. A TV envelheceu um século, diantes dos streamings cidadãos de People Witness o Toma La Tele. A revolução, sim, foi televisada, contrariando o hit sonoro de Gil Scott-Heron (The Revolution will not be televised). Na verdade, alguns meios escritos, vendo o impacto global da SolTV e dos streamings cidadãos, começaram a fazer coberturas audiovisuais ao vivo, para não ficar para trás.

E as fotografias de agências (uma boa parte) perderam brilho, diante dos canhonaços poéticos do FotoMovimientoAudiovisol ou Agora SolRadio ou o Periódico 15M, (impresso em papel), marcam a inovação autocomunicativa das multidões inteligentes. Alguns novos meios, como ElDiario.es, La Marea, Reset Project, Revista Números Rojos ou Café amb Llet nasceram empapados da microutopía comunicativa do 15M. Como se fosse pouco, falta mencionar a máquina de Trending Topics globais de Twitter del 15M, que se cozinham en PADs coletivos como este e já são casos de estudo nas faculdades de comunicação de todo o mundo.

PROTÓTIPO 4/ MICROUTOPIA EN FEMININO

Vídeo: apresentação de Zorras Mutantes na Assembleia Geral da Porto do Sol, em 13 de maio de 2012.

Do nosotros ao nosotras. Ver homens falando com naturalidade em feminino, algo habitual no entorno do 15M desde as acampadas iniciais, é muito mais que um detalhe. É um sintoma. É uma mutação. Um passo do competitivo ao colaborativo. Da cidadania à “cidadania”. É a ponta do iceberg de um novo paradigma de mundo. Não falo de microutopia feminina porque creio que é algo mais profundo. Pelo menos, assistimos a uma rearticulação do feminismo clássico, que certas vezes constrói os mesmos muros categóricos e antagônicos do machismo. O 15M está favorecendo um intuitivo contato com a terra das utopias ciberfeministas do Manifiesto Ciborg de Donna Haraway.

A existência da assembleia TransMaricaBollo (coletivos gays, lésbicos e transexuais de Madri) é outro sintoma da microutopia agregadora, plural e transgênero que percorre o corpo coletivo do 15M. A assembleia Zorras Mutantes, que flerta com o movimento queer, o poliamor e as consignas do feminismo ciborg, é outra fagulha nesta microutopia do #PosFeminismo e #PosPatriarcado. Eis alguns trechos de seu manifesto: “Somos animal-humano-máquina-software, e hackeamos as fronteiras do estabelecido (…) Nos declaramos em greve de gênero e de espécie: renunciamos a nossas categorias de gênero binárias e à categoria de humano, que são classificações arbitrárias de uma tradição imperialista (…) não reconhecemos fronteiras corporais, subjetivas e territoriais de nenhum tipo (…) Abominamos o dualismo sujeito-objeto, o indivíduo possessivo e o direito de propriedade e nos proclamamos metacorpos”.

PROTÓTIPO 5 / MICROUTOPÍA DA CULTURA COLETIVA

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A cultura copyleft – fixada como resistência ao copyright – é uma inspiração direta para o 15M. O Desejo Copyleft – que legitima a cópia e o reuso do conteúdo – alastrou-se nos meses anteriores ao 15M, num movimento contra a Ley Sinde [que procurava estabelecer controle sobre a internet]. E de forma intuitiva, coral e não-planejada, converteu-se no processo vertebral da #GlobalRevolution. As praças copyleft, as prazas corta-e-cola, as que penduravam em seus espelhos digitais instruções sobre como ocupar, como gravar, How to occupy, desembocaram numa criação e contágio coletivo inauditos.

Depois da explosão do 15M, nasceu a Fundación Robo, diluindo o conceito de autoria individual, lançando canções assinadas com a identidade coletiva Robo. Canções livres para baixar, com licença livre. Nasceu o irmão literário de Robo, o projeto Asalto, literatura coletiva, pirulitas poéticas remixada em intensos Asaltos coletivos. E as Plazas Invisibles, escritas por Italo Calvino + el 99%. E VocesConFutura, os gritos gráficos de criadores inspirados — refugiados no enxame pixel do 15M. Y Bookcamping.cc, que surgiu depois de uma pergunta inocente: ¿Que livro você levaria à praça?. Com suas estantes coletivas de livros, con suas playlists de títulos, com suas visitas guiadas, Bookcamping.cc é um excelente exemplo da nova cultura cozida en rede e orientada para o bem comum. Ainda que seja, talvez, o projeto transmídia 15M.cc – documentário, livro, 15Mpedia – o que melhor resuma o espírito coletivo, aberto e colaborativo da microutopia cultural dol 15M.

A remescla – A copia B, B recria a obra de A – passa de defeito a virtude. La remescla passa a ser uma homenagem, una co-criação. E – por que não? – um grito de guerra. Que melhor que #cortapegar [#cortarcopiar] um fragmento do Asalto nº 4, Lorca remix, em apoio à Marea Verde [Maré Verde], que defende a educação: “Verde que te quero verde. Verde vento. Verdes ramos. A educação precisa de tua mão para vingá-la. E expulsar os que buscam o fracasso das massas”.


Bernardo Gutierrez (@bernardosampa) é jornalista, escritor e consultor digital. Pesquisa o mundo P2P e as novas realidades da cultura open source. Fundador da rede de inovação Futura Media.net. Seus artigos publicados em Outras Palavras podem ser lidos  aqui.

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Bernardo Gutierrez

Bernardo Gutierrez (@bernardosampa) é jornalista, escritor e consultor digital. Pesquisa o mundo P2P e as novas realidades da cultura open source. Fundador da rede de inovação Futura Media.net.