Militares e Hollywood: as relações perigosas

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Cena de “O Resgate do soldado Ryan” (Steven Spielberg, 1998). Pentágono examina todos os roteiros que requerem instalações militares. Sugestões de mudança não aceitas inviabilizam produções

Documentos inéditos revelam como o Pentágano, CIA e NSA agem para silenciar visões críticas no cinema e TV e obter apoio público ao estado permanente de guerra

Por Tom Secker e Matthew Alford | Tradução: Inês Castilho

Quando começamos a nos interessar pela relação entre política, cinema e televisão, na virada do século XXI, aceitamos a opinião de consenso, segundo a qual um pequeno escritório do Pentágono [o Departamento de Defesa do governo norte-americano] havia, a pedido, assistido à produção de cerca de 200 filmes ao longo da história do cinema moderno, com uma mínima interferência nos roteiros.

Como éramos ignorantes. Mais precisamente, como fomos enganados.

Recentemente, recolhemos 4.000 novas páginas de documentos do Pentágono e da CIA por meio da Lei de Liberdade de Informação (Freedom of Information Act). Para nós, esses documentos foram o prego final no caixão.

170727-CinemaEles demonstraram, pela primeira vez, que o governo dos Estados Unidos influenciou, nos bastidores, mais de 800 importantes filmes e mais do que 1.000 títulos de TV. A maior estimativa anterior, de um livro acadêmico de 2005, era de que o Pentágono havia interferido em menos de 600 filmes e num punhado de programas de televisão não especificados.

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Até que os excelentes livros de Tricia Jenkins (The CIA in Hollywood) e Simon Sillmetts (In Secrecy’s Shadow) fossem publicados, em 2016, pensava-se que a CIA havia influenciado apenas cerca de uma dezena de produções. Mas mesmo estas obras deixaram escapar ou subestimaram casos importantes, incluindo Jogos do Poder [Charlie Wilson’s War] e Entrando numa fria [Meet the Parents].

Junto com a escala maciça dessas operações, nosso novo livro National Security Cinema [“Cinema de Segurança Nacional”] detalha como o envolvimento do governo dos Estados Unidos também inclui reescrever roteiros de alguns dos maiores e mais populares filmes, incluindo os de James Bond, a franquia de Transformers, e filmes do universo cinematográfico da Marvel Comics [como Homem Aranha, Wolverine, X-Men e Capitão América] e da DC Comics [como Batman, Superhomem e Mulher Maravilha].

Uma influência semelhante é exercida sobre a TV quando recebe apoio militar, desde o Hawaii 5-O e America’s Got Talent, os programa de Oprah e Jay Leno até Cupcake Wars, e inúmeros documentários produzidos pela PBS, History Channel e pela BBC.

National Security Cinema revela também como dezenas de filmes e programas de TV foram apoiados e influenciados pela CIA, incluindo a aventura de James Bond Thunderball, o suspense de Tom Clancy Patriot Games e filmes mais recentes, como Salt.

A CIA ajudou até mesmo a fazer um episódio de Top Chef [a horigem de Masterchef] que foi hospedado em Langley [cidade-sede da agência], com a participação de seu então diretor, Leon Panetta, que apareceu na tela deixando de lado a sobremesa para atender atividades vitais. Essa cena seria real ou uma dramatização para as câmeras?


A censura política de Hollywood pelos militares

Quando um escritor ou produtor aproxima-se do Pentágono e pede acesso a qualquer recurso militar, para ajudá-lo a fazer seu filme, ele tem de submeter seu roteiro aos escritórios ligados à indústria de entretenimento para verificação. Em última análise, o homem com a palavra final é Phil Strub, chefe do Departamento de Defesa para as relações com Hollywood.

Se há personagens, ações ou diálogos que o Pentágono não aprova, o cineasta tem de fazer mudanças para acomodar as demandas dos militares. Se ele se recusar, o Pentágono empacota seus brinquedos e vai embora. Para obter a cooperação, os produtores precisam assinar contratos – Acordos para Assistência na Produção – que os vinculam ao uso da versão do roteiro aprovada pelos militares. Isso pode criar problemas, quando atores e diretores acrescentam algum improviso fora do roteiro aprovado.

No set montado na base de Edwards da Força Aérea norte-americana, durante as filmagens de Iron Man, houve um confronto raivoso entre Strub e o diretor Jon Fabreau.

Favreau queria que um personagem militar dissesse: “As pessoas se matariam pelas oportunidades que tenho”, mas Strub contestou. Favreau argumentou que a fala deveria ser mantida no filme, e de acordo com Strub:

“O rosto dele estava cada vez mais vermelho, e eu estava ficando igualmente irritado. Foi meio estranho, e ele disse com raiva: ‘Bem, que tal eles andarem sobre brasas?’ Eu disse: ‘tudo bem’. Ele ficou muito surpreso que fosse fácil assim.”

Ao fim, afala não apareceu na edição do filme.

Aparentemente, nenhuma referência a suicídio de um militar – mesmo um comentário ligeiro, numa comédia de ação de super-herói – é permitida pelo escritório do Pentágono para Hollywood. É compreensível que seja uma questão sensível e constrangedora para eles, uma vez que durante alguns períodos da “Guerra ao Terror”, sempre em expansão e cada vez mais inútil, mais soldados dos EUA suicidaram-se do que morreram em combate. Mas por que um filme sobre um homem que constrói seu próprio traje de armadura voadora não poderia incluir esse tipo de piada?

Outra fala irônica que foi censurada pelo Pentágono apareceu no filme de James Bond O Amanhã nunca morre

Quando Bond está para saltar de paraquedas de um avião de transporte militar, eles se dão conta de que ele vai cair em águas vietnamitas. No roteiro original, a parceira de Bond, da CIA brinca: “Você sabe o que vai acontecer. Será guerra, e talvez dessa vez a gente vença.” Essa fala foi retirada a pedido do Pentágono.

Estranhamente, Phil Strub negou que tenha havido qualquer apoio para O Amanhã nunca morre, embora o Lawrence Suid, um pesquisador destacado liste a conexão com o Pentágono como “Cooperação Não Reconhecida”. Mas o Departamento de Defesa está creditado no final do filme e nós obtivemos uma cópia do Acordo de Assistência na Produção entre ele e os produtores.

O Vietnã é, obviamente, outro tópico sensível para os militares norte-americanos, que também tiraram uma referência à guerra do roteiro de Hulk (2003). Embora os militares não estejam creditados no final do filme, no IMDB ou na própria base de dados de filmes apoiados pelo Pentágono, obtivemos um dossiê dos Marines detalhando suas mudanças “radicais” no roteiro.

Entre elas, estava transformar o laboratório onde Hulk é criado acidentalmente numa instalação não-militar; transformar o personagem do diretor do laboratório num ex-militar e mudar o nome do código da operação militar para capturar Hulk de “Mão do Rancho” (Ranch Hand) para “Homem Raivoso” (Angry Man).

Ranch Hand é o nome de uma operação militar real, na qual a Força Aérea dos EUA 76 milhões de litros de pesticidas e outros venenos na área rural vietnamita, deixando 20 mil km² de florestas e 2 mil km² de terra cultivável envenenados e inférteis.

Eles também retiraram diálogos que faziam referência a “todos aqueles meninos, porquinhos da índia, morrendo de radiação e guerra bacteriológica”, uma aparente referência a experimentos militares secretos com seres humanos.

Os documentos que obtivemos mais tarde revelam que o Pentágono tem poder para impedir que um filme seja realizado, ao recusar ou retirar apoio. Algumas produções, como Top Gun, Transformers e Ato de Coragem são tão dependentes de cooperação militar que não poderiam ter sido feitas sem se submeter a esse processo. Outras não tiveram tanta sorte.

O filme Countermeasures foi rejeitado pelos militares por várias razões, e consequentemente nunca foi produzido. Um dos motivos é que o roteiro incluía referências ao escândalo Irã-Contras e, como disse Strub, “Não há necessidade de nós… lembrarmos o público do caso Irã-Contras”.

Do mesmo modo, Fields of Fire e Top Gun 2 nunca foram realizados porque não conseguiram obter apoio militar, novamento devido a aspectos dos roteiros considerados politicamente controversos.

Esta censura “soft” afeta também a TV. Por exemplo, um documentário planejado por Louis Theroux sobre o treinamento dos recrutas, entre os Marines, foi rejeitado, e por isso nunca realizado.

É impossível saber exatamente quanto se difundiu essa censura militar no setor de entretenimento, porque muitos arquivos ainda estão sob sigilo. A maioria dos documentos que conseguimos são informes diários dos escritórios de ligação entre o Pentágono e o setor de entretenimento, que raramente se referem a mudanças de roteiro, e nunca de forma explícita e detalhada. Contudo, os documentos revelam que o Departamento de Defesa requer uma verificação prévia de qualquer projeto que apoia e às vezes faz mudanças mesmo depois que a produção está fechada.

Os documentos registram também a natureza próativa das operações dos militares em Hollywood e o fato de que estão encontrando modos de envolver-se durante as primeiras etapas de desenvolvimento dos filmes, “quando os personagens e os enredos podem ser mais facilmente modelados em benefício do Exército”.

A influência do Pentágono naos filmes pode ser encontrada em todos os estágios da produção, o que garante o mesmo tipo de poder que têm os executivos dos principais estúdios.


A influência da CIA e do NSA nos roteiros de filmes

Apesar de ter muito menos recursos cinematográgicos, a CIA também tem exercido considerável influência em alguns dos projetos que apoiou (ou se recuou a apoiar).

Não há nenhum processo formal de revisão de roteiro pela CIA, mas Chase Brandon, durante muito tempo o responsável pela ligação da agência com a indústria de entretenimento, foi capaz de inserir-se nas primeiras etapas do processo de roteirização de várias produções de filmes e programas de TV.

Brandon fez isso mais claramente no filme de suspense e espionagem O Novato [The Recruit], em que um novo agente passa por um treinamento da CIA nas instalações secretas da agência em Camp Peary – obviamente um modo de conduzir a audiência para aquele mundo e dar-lhe um vislumbre dos bastidores. O tratamento original da história e rascunhos iniciais do roteiro foram escritos por Brandon, embora ele só apareça nos créditos do filme como conselheiro técnico, encobrindo sua influência no conteúdo.

O Novato inclui falas sobre as novas ameaças do mundo pós-soviético (incluindo a ignóbil justificativa para um orçamento anual de “Defesa” de 600 bilhões de dólares), junto com refutações da ideia de que a CIA fracassou na prevenção dos atentados de 11 de Setembro. E repete o adágio de que “os fracassos da CIA são conhecidos, mas não os seus sucessos”. Tudo isso para propagar a ideia de que a agência é um ator racional e benévolo, num mundo caótico e perigoso.

A CIA também conseguiu censurar roteiros, removendo ou mudando sequências que desejava ocultar do público. Em A Hora mais escura [Zero Dark Thirty], o roteirista Mark Boal “compartilhou verbalmente” seu roteiro com funcionários da CIA, e eles excluíram uma cena em que um funcionário bêbado da agência dispara uma AK-47 para o ar de um telhado em Islamabad (Paquistão), além do uso de cachorros, nas cenas de tortura.

Num tipo de filme muito diferente, a comédia romântica muito popular Entrando numa fria, Bradon solicitou que mudassem uma cena em que o personagem de Ben Stiller descobre o esconderijo secreto de Robert De Niro (futuro sogro de Stiller). No roteiro original, Stiller encontra manuais de tortura da CIA numa mesa, mas Brandon mudou isso para fotos de Robert De Niro com altos oficiais.

De fato, a habilidade da CIA para influenciar roteiros de cinema remonta a seus primeiros anos de vida. Nas décadas de 1940 e 50 trataram de evitar qualquer menção a si mesmos em filmes ou na TV até Intriga Internacional [North by Northwest], em 1959. Isso incluiu rejeitar pedidos de apoio a produções, o que significa que alguns filmes nunca foram realizados, e censurar todas as referências à CIA no roteiro da comédia de Bob Hope A Cigana me enganou [My Favourite Spy].

A CIA chegou a sabotar uma série prevista de documentários sobre a agência que a antecedeu, o Escritório de Serviços Estratégicos [OSS, em inglês]. Para fazê-lo, assegurou que a CBS assumisse a produção, afastando um estúdio menor que a planejara. Assim que isso foi feito, a agência desincentivou a própria série da CBS, para garantir que as atividades da OSS permanecessem blindadas ao exame público.

Embora muito pouco se saiba sobre as atividades da NSA na indústria de entretenimento, encontramos indicações concretas de que também esta agência adota táticas similares às do Pentágono e da CIA. Emails internos da NSA mostram que os produtores de Inimigo do Estado [Enemy of the State] foram convidados a múltiplos tours em Fort Meade, o quartel-general da NSA. A agência não os proibiu de usar a filmagem aérea, de helicóptero, destas instalações. Segundo uma entrevista de 1998, com o produtor Jerry Bruckheimer, o script foi mudado, a pedido da NSA, para que os crimes cometidos fossem atribuídos a uma “banda podre” da agência, e não a ela própria.

Bruckheimer afirmou: “Acho que o pessoal da NSA ficou feliz. Eles não vão aparecer tão mal como poderiam. A NSA não é o vilão do filme”. A ideia de usar o cinema para atribuir a culpa das agências de segurança a “agentes maus” – evitando assim a noção de responsabilidade institucional, é um clássico, entre as artimanhas da CIA e do Pentágono.

Em seu conjunto, estamos diante de aparato de propaganda vasto e militarizado, que opera por meio da indústria cinematográfica dos EUA. Ele não precisa agir como censor oficial, já que as decisões sobre os scripts são tomadas voluntariamente pelos produtores. Mas exerce influência enorme – e pouquíssimo conhecida – sobre o tipo de narrativas e imagens que vemos nas telas do cinema e da TV.

Em um país acostumado a usar seu poder militar em todo o mundo, o uso da cultura popular para estimular o apoio da população às guerras precisa ser visto como algo muito grave.


Tom Secker e Matthew Alford são autores de um livro recém-lançado nos EUA: National Security Cinema: The Shocking New Evidence of Government Control in Hollywood [“Cinema de Segurança Nacional: as evidências chocantes de controle governamental sobre Hollywood”]

Tom Secker é escritor radicado na Grã-Bretanha, que se dedica ao exame de temas de segurança, Hollywood e a história do terrorismo. Edita o blog SpyCulture. Seu trabalho foi reportado por publicações como The Mirror, The Express, Salon, TechDirt e outras.

Matthew Alford é professor no Departamento de Política, Língua e Estudos Internacionais na Universidade de Bath. Seu documentário The Writer with No Hands, [“O Escritor sem mãos”] foi premiado no festival Hot Docs (Toronto, Canadá) em 2014 e obteve menção honrosa no Festival Popular de Cinema da Anmar, em Teerã.

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