México em guerra

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Por Ignacio Ramonet | Tradução Cauê Seigne Ameni

No último dia 20 de novembro, o mundo celebrou o centenário da revolução mexicana, primeira grande revolução social no século 21. Uma epopéia popular conduzida por dois grandes heróis lendários, Emiliano Zapata e Pancho Villa, que conquistaram, com os operários e camponeses, direitos sociais até então impensáveis, popularizando a educação pública, gratuita e laica e implementando sobretudo uma reforma agrária.

Tais conquistas formidáveis foram amplamente dilapidadas pelos presidentes seguintes. Ao ponto que, cem anos depois, a situação seria “analógica, em muitos terrenos, ao que era em 1910: escandalosa concentração de riqueza e retrocessos sociais profundos; desrespeito à vontade popular; atentados aos direitos trabalhistas e às liberdades sindicais; garantias individuais atropeladas pelas autoridades; perda de soberania diante do capital internacional; exercício distante, oligárquico, patrimonial, e tecnocrático do poder1.”

A este cenário deprimente, acrescenta-se uma guerra. Ou melhor, três guerras; numa delas, diferentes cartéis do narcotráfico combatem pelo controle territorial; em outra grupos Zetas (organizações mafiosas, constituídas por ex-militares e antigos policiais) especializam-se em sequestros e extorsões contra a população; a terceira provém da opressão e abusos cometidos pelos militares e forças especiais contra os civis.

Essas guerras, nas quais a mídia internacional pouco se interessa, vêm sendo extremamente letais. O número de mortos provocados por elas chega a ser bem superior – por exemplo – ao  número de soldados ocidentais mortos desde 2003 nas guerras do Iraque e Afeganistão… Sob forte pressão exercida por Washington, o presidente Felipe Calderón lançou sua “ofensiva contra os traficantes de droga”, há quatro anos. Desde então o número de mortos chega proximo dos 30 mil.

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O México parece cada vez mais com um “Estado encurralado”, preso em uma armadilha mortal. Todos os tipos de agressores armados desfilam pelo pais: as forças especiais do exército e os comandos de elite da polícia; bandos de paramilitares e para-policiais; clãs de assassinos e gangues de todos tipos; agentes norte-americanos da FBI, CIA e da DEA2; e por fim os Zetas, que persistem na perseguição dos imigrantes latino-americanos, na travessia em direção aos Estados Unidos. Eles tornaram se “celebres” após o massacre de 72 imigrantes (crianças, homens e mulheres) descoberto no último dia 24 de outubro, no Estado de Taumalipas.

A cada ano, cerca de 500 mil latinos-americanos atravessam o México em direção ao “paraíso norte-americano”, mas antes de alcançá-lo, seu percurso assemelha-se ao inferno. Ataques sucessivos de hordas predatórias depenam-nos no decorrer da trilha, com roubos, sequestros, violações… Oito mulheres entre dez são vítimas de abusos sexuais; grande parte delas são transformadas em “serventes escravizadas” por bandos criminais, ou contratadas como prostitutas. Centenas de crianças são arrancadas de seus pais e obrigadas a trabalhar nos campos clandestinos de maconha.

Milhares de imigrantes são sequestrados e para liberá-los, os Zetas exigem de suas famílias (já instaladas ou não, nos Estados Unidos) o pagamento de um “regaste”. “Para as organizações criminais, é mais fácil sequestrar durante alguns dias alguns desconhecidos em troca de 300 a 1500 dólares cada um, que correr o risco de sequestrar um grande patrão3.”

Se ninguém é capaz de pagar o regaste dos sequestrados, eles são simplesmente liquidados. Cada célula dos Zetas possui seu próprio carrasco, muitas vezes responsável pela decapitação e esfolamento dos corpos das vítimas, até por queimá-los dentro barris metálicos. No decorrer da última década, cerca de 60 mil imigrantes ilegais, cujos familiares não puderam quitar o resgate, foram “desaparecidos” dessa forma…

Essa violência selvagem, antes concentrada em algumas cidades, incluindo Cidad Juarez4, já se espalhou por todo o país (com exceção da capital federal, Cidade do México). Washington veio a público qualificar oficialmente o México como “país perigoso”, e ordenou em algumas cidades – entre elas Monterrey, a capital industrial e financeira – que seus funcionários consulares, repatriassem suas famílias.

Todavia o presidente Calderón anuncia regularmente os “sucessos da luta contra o crime organizado”, com a detenção de alguns importantes líderes do cartel. Ele continua a esbanjar confiança por ter usado a via militar para resolver os problemas. Um sentimento que muitos cidadãos estão longe de compartilhar. No entanto, desprovidos de experiências nesse tipo de combate, os militares multiplicam os “danos colaterais”, e passam a matar – por engano – centenas de civis…

Por engano? Abel Barrera Hernandez, o recente vencedor do prêmio de Direitos Humanos, (atribuído por uma fundação norte-americana, Robert F. Kennedy), nega essa afirmação. Pelo contrário, ele estima que o Estado aproveita-se da guerra contra as drogas para liquidar contestações sociais: “As vítimas dessa guerra são as pessoas mais vulneráveis; os indígenas, as mulheres, os jovens. O sistema serve-se da força para intimidar, desmobilizar, aterrorizar, frear a protestos social, desarticular e criminalizar todos que lutam pelo respeito de seus direitos5.”

Por outro lado, o governo de Obama considera que o banho de sangue que submerge o México ameaça ser um grande perigo para a segurança norte-americana. A chefe da diplomacia, Hillary Clinton, não hesitou em declarar: “A ameaça que representam os narcotraficantes está crescendo; parecendo cada vez mais com a de grupos de insurgentes políticos (…) O México começa a parecer cada vez mais com a Colômbia dos anos 1980.” Deixam claro as pretensões de Washington, em intensificar suas ações no interior de seu vizinho sulista. A possibilidade de um golpe militar – algo impensável desde o fim da revolução mexicana em 1920 – não está mais descartada. O poder mexicano (corrompido e desprezado) continua batendo na tecla de que nos últimos anos o viés militar foi a única solução para a desordem e a violência do país. Resultado: cada vez mais os cidadãos parecem concordar com as decisões dos militares diante da situação vigente…Uma solução encorajada sem dúvida pelo Pentágono, apesar de o Departamento e Estado e a Presidencia do EUA manterem a velha retórica dos “princípios democráticos”.

Uma “ditadura militar” resolverá o problema? Certamente que não. Além do que os Estados Unidos são os principais responsáveis pelas guerras mexicanas. Eles são os opositores mais intransigentes da legalização das drogas. E fornecem armas para 90%6 do combatentes (cartéis mafiosos, os Zetas, policias e militares)…Além disso eles (EUA) formam a “narcopotência” mundial: pois são produtores maciços de maconha e os maiores fabricantes de drogas químicas (como anfetamina, ecstasy, etc).

Eles são, sobretudo, o principal mercado consumidor do planeta, com notável número de mais de sete milhões de dependes em cocaína… São as máfias norte-americanas que tiram a maior vantagem de todo o narcotráfico latino-americano: cerca de 90% do lucro total, 45 bilhões de euros por ano…Enquanto todos os cartéis da América Latina juntos compartilham apenas os 10% restantes…

No lugar de dar seus – pobres – conselhos ao México, Washington não faria melhor em focar seus esforços contra sua própria máfia?

1 La Jornada, México, 20 novembro 2010.

2Drug Enforcement Administration , serviço da policia federal dos Estados Unidos, dependente do Departamento de Justiça, encarregada da luta contra o trafico de narcóticos.

3Ler o excepcional livro-reportagem de Óscar Martinez, Los migrantes que no cuentan. En el camino con los centroamericanos indocumentados en México, Icaria, Barcelona, 2010.

4Consultar o blog de Judith Torrea Ciudad Juárez, en la sombra del narcotráfico.

5La Jornada, op. cit

6El Norte, Monterrey, 9 de setembro, 2010.

 

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Ignácio Ramonet

Ignácio Ramonet é jornalista, editor do Le Monde Diplomatique, edição espanhola, e presidente da rede Memória das Lutas – Medelu. Seus livros pode ser encontrado em nossa livraria virtual.