Ler Primeiro: Move ≠Di≠, ou O Pixador

thiago pixo

“Por que diabo deveria eu me enfiar numa caçada a pixador? isso, o oficial de polícia do Destino poderia responder melhor que qualquer um”

Por Thiago Venco & Maia Jorge | Imagem: Fabio Knoll

Adaptação do romance “Moby Dick ou A Baleia”, de Herman Melville

Este é o primeiro capítulo de uma obra em construção. Para ler os demais, clique aqui

TEXTO-MEIO

Capítulo 1

Aleivosias

Pode me chamar de Ismail. Anos atrás – esqueça quantos exatamente – tendo um ou nenhum puto no bolso, e nada específico me interessando na barra, pensei em rodar um pouco e voltar aos alagamentos de São Paulo. Isso é modo meu de desbaratinar do tédio, e regular a circulação. Em toda a ocasião de me encontrar cultivando veneno através da boca; em toda ocasião de ser um Novembro abafado, enervante na minha alma; em toda ocasião de eu me pegar parando do nada na frente de depósitos de caixões, e colando na rabeira de cada funeral que eu cruzo; e especialmente em toda ocasião que meu gogó leva um cruzado de mim mesmo, isso tudo junto me demanda um forte princípio moral para me prevenir de deliberadamente pisar na rua e metodicamente bater os bonés dos cidadãos – aí, eu contabilizo como “demorou” para cair na noite, o quanto antes eu mesmo for capaz. Isso é meu substituto para pistola e bala. Numa espécie de gesto filosófico, um Getúlio dá-se um tiro no próprio peito; eu, na miúda, eu pego a barca. Não tem nada para se surpreender nisso. Se eles só soubessem, 99% dos homens cada um em seu grau, cedo ou tarde, regula comigo os mesmos sentimentos sobre a cidade, quase exatamente.

Agora aí está sua cidade ilhada de Sampa. Acinturada por trechos de mata indígena e barreiras de muros, e o comércio arrodeando em volta com seu surf. À esquerda e à direita, as ruas te levam às marginais. Seu extremo centro é a Sé, onde a nobre terra é batida pela passagem, e resfriada pela garoa, que poucas horas antes estava fora de vista, atrás das montanhas. Olhe para as multidões de tios e tias em São Paulo.

Circuambulando a cidade em uma tarde de Sábado, dos sonhos. Vá do fim do Pari à Parada de Taipas, e de lá à frente, siga com a Água Rasa, ao Norte. O que você vê? Parados como sentinelas silenciosas dentro dos prédios, centenas de milhares de mortais vivem obcecados pelas marés da cidade. Alguns se debruçam nas varandas para sentir os borrifos; alguns sentados nas beiras de viadutos; alguns olhando para os contêineres chineses, indo e vindo; alguns bem por cima da carne seca, como se lutando por uma vista ainda melhor do mar. Mas isso tudo é coisa pedestre; de dia de semana, à paisana de jeans e poliéster, enrolados nos despachantes, pregados nos galpões, grampeados nas baias. Como é que se dá esse processo? Cadê os verdes campos? Eles aqui o quê?

– Mas olha! Vem chegando novas legiões, rumando confiantes para o meio da muvuca, e aparentemente pretendendo cair de cabeça. Estranho! Nada vai satisfazê-los, a não ser os extremos limites desse território, ir se imiscuindo nos terrenos baldios de sempre, eita, não bastará. Não. Tem que chegar o mais perto quanto possível da represa e não cair nela. E ali eles ficam – milhões deles – léguas. Tudo tatu, vem de quebradas e becos, ruas e avenidas – norte, leste, sul e oeste. E ainda todos se irmanam. Diga aí, qual virtude magnética captam as bússolas paulistanas, quando precisam prever para onde rumam todos os carros, pegos presos todos nas mesmas ruas?

De novo. Digamos, você está no campo, no interior, numa terra alta que chega a formar lagos. Pegue qualquer travessa que queira, dez para um que você vai descer até um ribeirão, que te deixará diante de um bica, denotando um córrego em curso. Tem mágica nisso. Deixe um sonâmbulo ser largado em seu sono mais profundo – bote este homem em suas botas, aponte seus pés para a porta, e ele vai infalivelmente se colocar no rumo d´água – se água houver naquela região. Esteja você passando sede no sertão nordestino, tente este experimento, se acaso sua caravana estiver suprida de um bom mestre metafísico. Sim, como todo mundo sabe, meditação e água estão casadas para sempre.

Mas aqui tem um artista. Ele quer te pintar a mais fantástica, detalhada, tranqüila, mais encantadora vista do buraco mais romântico de todo o vale do Rio Tietê. Qual será o elemento chave aplicado em tal retrato? Lá ele põe umas árvores, com uns troncos retorcidos formando grandes ocos, como se ali dentro coubesse uma família inteira e ainda um crucifixo; e ali vai um matinho briguento, acolá umas capivaras; e das ruazinhas, uma fumacinha constante e preguicenta. Lá pra dentro, nas distantes favelas venta um vento de labirinto, alcançando as matas naqueles mares de morros banhadas no azul da montanha. Mas apesar de todo esse belo quadro assim traçado, apesar dos eucaliptos postados para te agradar com seu cheiro bom de planta esterilizante, tudo isso teria sido em vão, se os olhos do pastorinho aí não se deitarem sobre este rio surreal estagnado diante de si. Vá o amigo visitar a várzea na Zona Leste, ao pôr-do-sol de Junho, onde por quilômetros e quilômetros você pode ajoelhar e sumir no capim sujo – qual é o encanto que se estaria buscando nisso? – Água – e não tem uma gota d´água ali! Fosse a Foz do Iguaçu uma desgraça de uma catarata de areia, você viajaria milhares de quilômetros para ver essa duna? Por qual razão o Pobre Poeta Paulista, naquela vez que recebeu (do nada) duas mãos cheias de Cruzeiros, deliberadamente ao invés de se comprar uma boa de uma jaqueta, que ele lamentavelmente estava necessitando, não, ele investe tudo numa viagem chulezenta para a Praia Grande? Por que quase todo garotão do interior, com uma alma robusta saudável por dentro, mais cedo mais tarde entra numas de ir até o litoral?

Por que, no seu primeiro rolê de viatura, ainda recruta, você, você mesmo, sentiu aquela vibração mística quando pela primeira vez informaram que estávamos fora do alcance da central de rádio – na beira da serra, quando você viu o mar em São Paulo? Por que os Tupis mantinham aqui em Sampa seu solo sagrado? E por que os portugueses vieram aqui e fizeram chamar esse lugar pelo nome do próprio apóstolo de Jesus Cristo? Com certeza nada disso é sem sentido. E mais profunda ainda é a história do Narciso, que por não conseguir dar conta do recado – da suave imagem que ele viu na refletida na poça – nós, a nós mesmos nos condenamos aos reflexos dos retrovisores e das vitrines. Vendo a imagem do intocável fantasma da vida; e o pior é que é essa a merda da chave de tudo isso que tá aí.

Agora, quando eu digo que tenho o hábito de cair na avenida sempre que eu começo a ficar seco do olho, quando começo a ficar nervoso do pulmão, não tô querendo que você pense que eu vou como passageiro de barca, não. Porquê para ir de passageiro você precisa ter roubado uma bolsa, e uma bolsa é só couro esticado a não ser que tenha algo dentro. Além disso, passageiros passam mal – ficam estressados – não dormem bem à noite – não curtem muito a própria companhia, de um modo geral – não, eu nunca vou de passageiro; e nem, apesar de eu ser um cara, como dizem aí, coxinha, eu jamais iria pra rua como major, ou de capitão, ou de piloto. Abandonai a glória e distinção do oficialato para quem tem gosto pela medalha. Porque, da minha parte, abomino todos os próceres, pompas e enroscos burocráticos de qualquer tipo que se apresentem. Já estou no limite do quanto eu posso fazer só pra cuidar de mim mesmo, quanto mais prestar conta de viaturas, motos, camburões e o que mais não. E sobre ir como piloto, – apesar de eu confessar que tem glória na direção, sendo o piloto uma espécie de comandante a bordo – nem assim, eu nunca me amarrei em ferver o motor ainda que uma vez fervido, meticulosamente azeitado, estando a barca minuciosamente alinhada e balanceada, não haverá um para falar mais respeitosamente, para não dizer reverenciosamente, de uma viatura bem pilotada quanto eu. É por causa dessa inclinação à idolatria ao carro, que os antigos “tiras” se permitiram um dia, que você ainda consegue encontrar múmias preservadas de Veraneios e Joaninhas, pretas e vermelhas sem estofo, nos vastos depósitos de veículos da PM.

Não, quando eu vou para as ruas de São Paulo, eu vou como um simples soldado, bem atrás da farda, chumbo abaixo no coldre, investido abaixo do democraticamente eleito Governador. Verdade: ele frequentemente me ordena umas boas tarefas, fazendo-me pular de poste em poste, como um macaco-prego apressado na 23 de Maio. A princípio, esse tipo de coisa é bem desagradável por si só. Isso toca o senso de honra de um homem, particularmente se você vem de uma renomada família aqui estabelecida, como os Brito, os Mendes, os Salles, os Cavalcanti, os Setúbal, os Safra, os Jereissati et caterva. E mais ainda acima de tudo, se antes de enfiar seu pé na jaca, você fez as vezes de lorde interiorano, enquanto Bacharel em Direito numa cidade pequena, fazendo os mais tarimbados delegados de polícia travarem diante de sua imponência. A transição é uma brasa, te garanto, de um Bacharel para um soldado, e requer uma boa interpretação de Jesus Cristo e São Francisco de Assis para fazê-lo suportar e aguentar o tranco. Mas até isso se vai com o tempo.

E daí, se um bode velho de um capitão de polícia me manda pegar um balde e uma bucha e lavar a viatura? O quanto me acrescenta isso de indignidade, quer dizer, na escala do Novo Testamento? Você acha que o arcanjo Gabriel pensa um tico menos de mim, porque eu pronta e respeitosamente obedeço o bode velho nessa instância específica? Quem não é um escravo? Me diga você. Bem, então, qualquer trolha que o velho capitão de polícia vier a me ordenar – independente de o quanto me enfie o dedo e doa-me os brios, eu tenho a satisfação de saber que tudo vai bem; de que cada um de um jeito ou de outro fica servido de modo muito semelhante – seja num ponto de vista físico ou metafísico, que seja; e então o passa-e-não-devolve universal vai rodando a roda, e todas as mãos darão seus croques nas nucas uns dos outros, e serão contentes.

De novo, eu sempre vou pras ruas como soldado, porque eles tem um ponto em me pagar pela minha encrenca, enquanto que eles jamais pagam meus passageiros um único centavo que eu saiba. Ao contrário, os passageiros devem pagar por eles mesmos. E tem toda diferença no mundo entre pagar e ser pago. O ato de pagar é talvez a imposição mais desconfortável que o casal de ladrões de maçã do Jardim armou pra cima de nós. Mas SER PAGO, – o que se compara a isso? A atividade urbana pela qual um homem recebe dinheiro é realmente maravilhosa, considerando que nós cremos piamente que o dinheiro é a origem de todos os males terrenos, e que em contagem alguma poderá o endinheirado adentrar o reino dos céus. Ah! Quão alegremente nos entregamos à perdição!

Por fim, eu sempre vou pras ruas como soldado, por causa do exercício completo e do ar puro da janela da viatura. Porquê nesse mundo, os ventos de frente são bem mais comuns que os ventos de trás (isso é, contanto que você não esteja num show do Ary Toledo…), então o major no banco de trás pega a atmosfera de segunda mão dos soldados que vão na linha de frente. Ele acha que quem respira primeiro é ele; mas nem. Muito nesse mesmo jeito, o povão lidera os cabeças de muitas outras maneiras, ao mesmo tempo que a liderança pouco suspeita desse fato.

Mas porque diabo foi que, depois de eu ter repetidamente sentido o cheiro podre de São Paulo enquanto soldado militar, deveria agora eu me enfiar numa caçada a um pixador; isso o oficial de polícia do Destino, que me mantém sob vigilância constante, que secretamente me leva na coleira, e que me influencia de modo inenarrável – esse aí poderia responder melhor que qualquer um. E, sem dúvida, minha ida a essa caça ao pixo, forma parte do grande programa da Providência que estava armado há muito tempo. Ela veio como um tipo de breve interrupção da programação para declaração do Excelentíssimo antes de outros espetáculos mais especiais ainda por vir.

Tomo por mim que tal parte da manchete deveria ser mandada nessa linha:
“GRANDE CONTESTAÇÃO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DO BRASIL”
“OPERAÇÃO CAÇA-PIXADOR POR UM TAL DE ISMAIL”
“BATALHA SANGRENTA NO AFEGANISTÃO”

Apesar de eu não poder te dizer exatamente o porquê desses animadores de palco, os Destinos, terem me colocado para esse papel vagabundo numa operação caça-pixo, enquanto outros foram escalados para papéis magníficos em altas tragédias, e/ou papéis curtos e fáceis em comédias chiques, e/ou alegres papéis em farsas globais – apesar de eu não poder dizer o porquê exatamente do ocorrido; ainda assim, agora que eu me relembro de todas as circunstâncias, penso que consigo enxergar um pouquinho das fontes e motivos que se me apresentaram sob os mais variados disfarces, induzindo-me a definir a interpretação do papel que me coube, além de me sugerir com a ilusão de que a escolha foi de minha responsabilidade, resultante de meu imaculado livre arbítrio &oriunda de meu cristalino juízo discriminatório.

Soberana entre estas motivações foi a própria idéia atordoante do grande pixador de branco. Esse monstro agourento e misterioso atiçou minha curiosidade. Na seqüência, as quebradas sinistras e distantes onde ele rolava sua tinta; os inescaláveis lugares sem nome do pixo; esses, junto com todas as maravilhas que atendem pelo nome de periferias de São Paulo, com suas vistas e seus sons, me ajudaram a rebolar rumo a essa tentação. Para outros cabras, talvez, essas coisas não teriam sido incentivo; mas de minha parte, eu sou atormentado por uma coceira eterna por coisas remotas. Eu amo fazer ronda em ruas proibidas, e descer da barca nos picos mais barbarizados. Não ignorante do que é bom, eu sou rápido em captar um horror, e ainda poderia socializar com ele – se me permitissem – pois não tem nada de errado se manter em termos amigáveis com os vizinhos do barraco onde você vai ser forçado a se hospedar.

Pelo arrazoado geral dessas coisas, então, a Operação Caça-Lata foi bem-vinda; as grandes comportas do mundo-maravilha se abriram, e nos selvagens preconceitos que me levaram ao meu propósito, deu dois pras duas da manhã e pronto, estava lá já flutuando na minha alma mais encavernada um interminável rastro de pixos, e, no centro de todos eles, o grande fantasma encapuzado, o ≠DI≠, o “diferente”, o iceberg ao contrário, pendurado de ponta para baixo nos edifícios.

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Thiago Venco, 37, e Maia Jorge, 33, são casados e têm dois filhos. Thiago estudou cinema na USP e Maia arquitetura na UNESP. A literatura é feita depois do expediente, depois que as crianças dormiram. Maia tem um atelier de encadernação e restauro de livros com seu pai; Thiago está empreendendo na área de resolução de conflitos.

Vale a pena ler primeiro é seção de Outras Palavras dedicada à literatura. Foi criada e é editada por Fabiano Alcântara. Jornalista especializado em cultura, repórter de Música do portal Virgula, e colaborador de diversas publicações – como Valor Econômico e os sites das revistas TRIP e TPM –, Fabiano é também músico, baixista das bandas Mercado de Peixe e Lavoura e curador de festivais.Para ler edições anteriores da coluna, clique aqui.

TEXTO-FIM

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