Ler Primeiro: A consulta, por Otávio Mazza

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– Está tudo bem? O doutor tem alguma coisa? – Não tenho nada, mas é contagioso

Por Otávio Mazza | Imagem: Bruce Nauman

– Doutor, eu não tenho nada.
– Bom, isso é ótimo! Mas então por que é que você está aqui?
– Você não entendeu, doutor. Eu não tenho nada. Absolutamente nada.
– Se é assim, eu posso lhe emprestar algum. Por sorte, eu estou com a carteira recheada, um homem prevenido vale por dois. Tenho até euros, se você preferir.
– Não, doutor, não é a isso que me refiro. Eu até tenho coisas. Muito mais do que preciso. Só que tudo o que eu tenho não me serve. Ou já não me basta. Não há nada de meu ali. A única coisa realmente minha é um grande vazio.
– E as pessoas? Você tem família, amigos?
– Tenho, mas eles não me veem, ou não me escutam. Ou falam outra língua: quando digo coisas tristes, eles riem; quando penso ser engraçado, eles choram. E eles se divertem muito com as coisas que eu tenho ou que eles julgam ter. Estão sempre muito entretidos.
– Você tem algum hobby, pratica um esporte…? Já cogitou ter uma amante?
– A palavra hobby me causa náuseas, doutor, não a repita de novo, por favor. Eu procuro me expressar de várias formas artísticas, mas a minha falta de talento briga com o meu bom gosto; o esporte ajuda a me manter vivo e fora de um manicômio judiciário; a amante eu já tive, mas só aumentou o meu vazio, e vazio a dois é muito triste…
– Entendo…
– Eu só queria muito querer muito algo, e que fosse realmente especial para mim. Queria ter certeza de que estou vivo.
– Quer que eu ausculte o seu coração?
– Doutor!!!
– Desculpe, foi automático. Bom, do pouco que eu conheço, o senhor parece padecer do mal-estar da civilização – li um capítulo do Freud na faculdade e gostei muito, especialmente de citá-lo em festinhas com o pessoal de humanas.
– Arrã…
– Apesar disso, eu tenho poucos recursos para ajudá-lo, pois sou apenas um ortopedista. Posso lhe indicar um psicólogo.
– Nãã. Já fui a muitos. Trocamos livros, CDs, impressões sobre filmes, uma até se apaixonou por mim, mas não achei de grande valia.
– Um psiquiatra, daqueles que receitam remédios tarja preta?
– Já tomei tudo junto e misturado.
– Um tango argentino?
– Os conheço de cor, assim como Bandeira e Fernando Pessoa.
– Bom, tentei tudo que está ao alcance da medicina, mas me sinto de mãos atadas.
– Eu também. Esse é o problema.
***
Epílogo
– Neide, você pode cancelar as consultas desta tarde, por gentileza?
– Sim, claro. Está tudo bem com o doutor? O doutor tem alguma coisa?
– Não tenho nada. Mas é contagioso.

Meu nome é Otavio, tenho 37 anos, moro em São Paulo, e a literatura salvou minha vida.

Meu nome é Otavio, tenho 37 anos, moro em São Paulo, e a literatura salvou minha vida.

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Vale a pena ler primeiro é seção de Outras Palavras dedicada à literatura. Foi criada e é editada por Fabiano Alcântara. Jornalista especializado em cultura, repórter de Música do portal Virgula, e colaborador de diversas publicações – como Valor Econômico e os sites das revistas TRIP e TPM –, Fabiano é também músico, baixista das bandas Mercado de Peixe e Lavoura e curador de festivais.Para ler edições anteriores da coluna, clique aqui.

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Otávio Mazza

Tenho 37 anos, moro em São Paulo, e a literatura salvou minha vida.

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