Isto não é um filme

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O diretor Jafar Panahi, preso pelo regime iraniano, faz um filme sobre a falta de liberdade de expressão no país

Por Bruno Carmelo, do Discurso-Imagem.

Parte da espécie de “cota” que o festival de Cannes reserva aos filmes ligados à atualidade política, Isto não é um filme conseguiu sair de seu país de maneira clandestina, através de um mero pen drive, e foi acolhido ironicamente com pompa no famoso tapete vermelho francês. O diretor não podia participar à apresentação de seu filme por estar preso em domicílio no Irã, condenado pela justiça local a uma proibição de 20 anos de filmar e a seis anos de prisão – algo que até o momento ele pôde evitar com a alternativa da prisão domiciliar.

O diretor de O Espelho, O Círculo e outras obras de cunho social tem se tornado uma espécie de porta-voz de todos os diretores iranianos que se encontram em situação semelhante – e eles não são poucos. Assim, entre a proibição do governo e a vontade do diretor de expressar suas opiniões, nasceu este “não-filme”, espécie de interpretação corajosa de seu veredito : mesmo se o diretor não pode filmar nem escrever roteiros, nada o impede de ser filmado por um amigo, e de ler o seu próprio roteiro já escrito… Assim, Jafar Panahi torna-se ator, e claramente diretor do projeto, apesar de (quase) não tocar na câmera. A autoria do filme pode não enganar ninguém (em Cannes, tanto Panahi quanto Motjaba Mirtahmasb foram creditados), mas Panahi espera não sofrer punições suplementares depois desta produção caseira.

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Pois o que faz o diretor, sozinho dentro de casa, com um roteiro nas mãos? Ao invés de se limitar a lê-lo (“os espectadores ficariam entediados”, ele explica), a alternativa é partir para uma encenação quase abstrata do filme que ele gostaria de ter feito, se pudesse. Como a ação do roteiro se passa integralmente num domicílio, com uma garota presa pelos pais por insistir em fazer carreira nas artes – qualquer semelhança com a situação de Panahi não será mera coincidência -,  o cineasta se limita, como uma criança curiosa, a delimitar um espaço na sua sala, marcar a presença de cada objeto com fita crepe sobre o tapete, e interpretar sozinho, dentro destes espaços fictícios, os personagens que deveriam ali existir. Há pelo menos dois filmes dentro de Isto não é um filme : a película em si, espécie de making of de uma obra inexistente, e o filme-dentro-do-filme, que existe com detalhes apenas na cabeça do espectador, a partir das sugestões do roteiro, ricas em descrições.

O conjunto é claramente caseiro, simplório, improvisado. Para dar uma ideia da imagem e dos planos que gostaria de fazer, Panahi mostra referências de outros filmes, em DVD, mas de vez em quando ele não consegue continuar sua encenação, se levanta e vai chorar fora do alcance da câmera. Este projeto é um reflexo da frustração deste homem, que passa seus dias pensando em como filmar, e que decide se aventurar nesta espécie de terapia rudimentar, destinada a apaziguar seus desejos de cinema – algo como a masturbação em relação ao coito. No entanto, face à frustração inevitável (encenar um filme sem atores não equivale a filmá-lo), o diretor perde a motivação, que é renovada na manhã seguinte. Panahi aproveita qualquer oportunidade de seguir alguém, de criar uma história, como a decisão de acompanhar dentro do elevador o homem que vem retirar o lixo em frente ao seu apartamento.

Isto não é um filme é memorável não apenas por seu engajamento político (o “fazer arte a qualquer preço”), mas acima de tudo pela exposição sem concessões que Panahi faz de sua intimidade, de sua tristeza, de sua vontade frustrada de trabalhar com o que gosta. Este é uma obra de criança frustrada, a quem se retirou o brinquedo, dotada de uma ingenuidade e idealismo evidentes, mas também de uma perserverança ímpar. Como alguém pode ser ao mesmo tempo ingênuo e perfeitamente consciente da realidade local, frágil e corajoso? Basta ver os créditos finais, tragicômicos, em que a lista de agradecimentos apresenta uma série de linhas no lugar onde normalmente se inscreveriam nomes, pela incapacidade de identificar aqueles que o ajudaram a driblar a lei. Esta “presença ausente” representa muito bem a censura, sobre as maneiras de contornar o regime e sobre a necessidade de expressar livremente os desejos e opiniões, algo “que não tem governo e nem nunca terá”, como diria um destemido Chico Buarque.

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Isto não é um filme (In Film Nist, This is not a film, 2011)
Filme iraniano dirigido por Jafar Panahi e Motjaba Mirtahmasb.

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Bruno Carmelo

Bruno Carmelo é editor do site Discurso-Imagem