Irlanda: o “tigre celta” era de papel

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Por Antonio Martins e Pep Valenzuela

A república foi o primeiro país da eurozona a cair oficialmente em recessão, no último trimestre de 2008, com uma queda de 7,5% no PIB. Os três maiores bancos do país tiveram que ser resgatados pelo governo. Em protesto, mais de 100 mil pessoas manifestaram-se em Dublim, em 21 de fevereiro de 2009, em passeata não vista desde 1980.

De qualquer modo, os protestos não tiveram continuidade importante. Governo e empresários cancelaram um pacto social com os sindicatos, que vigorava desde 1987, época áurea do crescimento econômico. Os sindicatos, reunidos na Confederação Irlandesa de Sindicatos, ameaçam com mobilizações, mas sua repercussão ainda é reduzida. Para parte importante dos trabalhadores, a saída pode ser deixar o país – num retrocesso aos tempos de pobreza. Cerca de 120 mil pessoas emigrarão da Irlanda entre esse ano e o próximo, segundo informes publicados pelo Economic and Social Research Institute do país, em julho. Tendo em conta que a população é de 4,2 milhões, o êxodo tem proporções alarmantes.

É o fim das ilusões alimentadas nas duas últimas décadas do século 20. Convertida em “base estrangeira de fabricação para multinacionais estadounidenses” (New Statesman, 18/01/10), a Irlanda cresceu, nessa época, mais que qualquer outro país da zona euro. Era chamada de “tigre celta”. Mas o crescimento foi fictício: as empresas utilizaram a ilha como paraíso fiscal e rota de entrada na UE. A entrada maciça de capitais acabou inchando uma bolha imobiliária de dimensões faraônicas. A saída das multinacionais e o estouro da bolha provocaram a crise e o fim do sonho.

A Irlanda é também o exemplo mais eloquente da inutilidade dos “ajustes fiscais”. No início do ano, o governo aplicou radicalmente a receita recomendada pela União Europeia e FMI. Ao invés de tentar estimular a economia, articulou um corte de 20% nos gastos públicos, nos próximo quatro anos. Esta decisão levou ao fim do sistema de saúde universal gratuita para os idosos com mais de 70 anos, que vigorava só desde 2002. Todos os salários dos servidores públicos serão reduzidos em 10%. No setor privado, os trabalhadores estão aceitando redução salarial de até 7%. Ao mesmo tempo, haverá aumento dos impostos para as pessoas físicas — sendo que, para “estimular os investimentos”, a alíquota que inciede sobre as empresas foi mantida no patamar de 12,5% – o mais baixo da Europa.

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Os resultados já começam a aparecer. Os capitais não se sentiram atraídos – a Dell Computadores anunciou no início de agosto a transferência de sua unidade na Irlanda, que exportava para Europa, África e Oriente Médio. O empobrecimento da sociedade deprimiu a demanda. Espera-se para 2010 um encolhimento ainda mais brutal do PIB, em torno de 10%.

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