Hitchcock e seus prodígios

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Avança, em BH, mais completa retrospectiva do diretor no Brasil. Nosso roteiro sugere como conhecer a fundo sua obra extraordinária

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Um dos grandes acontecimentos cinematográficos do ano está em curso desde 31 de julho no Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte: a mostra Hitchcock é o cinema, a mais completa retrospectiva do diretor no Brasil, com 54 filmes, além de episódios da série televisiva Alfred Hitchcock apresenta e cursos, debates e palestras. Vai até 5 de setembro. É de esperar que o evento se espraie depois para outras cidades brasileiras. A cultura cinematográfica nacional ganharia muito com isso.

Dizer que Hitchcock é um nome central na história do cinema é quase como enunciar uma verdade autoevidente, um desses postulados científicos ou dogmas religiosos que não admitem contestação. Mas não foi sempre assim. Durante várias décadas ele foi considerado um mero entertainer, quando muito um artesão competente na construção de filmes de suspense desprovidos de densidade artística e verdade humana.

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Foi só nos anos 1950 que alguns jovens críticos franceses provaram por A mais B que o que Hitch fazia era grande arte. Além das críticas e ensaios publicados na Cahiers du Cinéma, dois livros foram fundamentais para essa virada de perspectiva: Hitchcock (1957), de Claude Chabrol e Eric Rohmer, e o monumental Hitchcock/Truffaut (1966), em que o discípulo francês entrevista longamente o mestre inglês.

Seria muita pretensão, a esta altura do campeonato, querer dizer algo de inédito ou original sobre Hitchcock. Limito-me a compartilhar o meu assombro, sempre renovado, diante de alguns prodígios hitchcockianos.

Clássico e moderno

Como todo grande artista, Hitchcock supera a dicotomia entre tradição e invenção. É, por um lado, um mestre do cinema clássico, na medida em que utiliza à perfeição seus fundamentos: invisibilidade do narrador, montagem em campo/contracampo, mecanismo de projeção/identificação com os personagens etc.

Aqui, o próprio Hitchcock demonstra didaticamente o papel da montagem na criação de sentido e na sugestão de emoção, numa atualização do célebre “efeito Kulechov” apresentado nos anos 1920 pelo cineasta e teórico russo Liev Kulechov:

Por outro lado, mesmo sem romper com os princípios do cinema clássico, Hitchcock foi um incansável inventor de formas, de ideias, de modos de narrar. Basta pensar na experiência radical – depois injustamente renegada por ele próprio – da filmagem numa tomada contínua de todo um longa-metragem, Festim diabólico (1948). Ou na combinação de zoom para a frente e travelling para trás criando um efeito de vertigem quando o protagonista (James Stewart) olha para baixo na torre do sino de Um corpo que cai. Nunca é demais ver ou rever esta magnífica sequência:

Mais do que construir sua obra na fronteira entre o cinema clássico e o moderno, Hitchcock rompeu essa fronteira, tornou-a difusa e sem sentido.

Refinado e popular

Outra falsa contradição superada pelo diretor de Psicose é aquela que opõe arte e indústria, sofisticação e entretenimento. Lendo suas entrevistas a Truffaut, a Peter Bogdanovich e a outros interlocutores, constatamos que Hitchcock tinha um único critério para avaliar seus próprios filmes: o êxito junto ao público. Quando a bilheteria era fraca, ele tinha falhado em alguma coisa: no roteiro mal construído, na escolha equivocada dos atores, nas opções de montagem ou até no tom da fotografia.

Nunca se viu Hitchcock queixando-se de ter sido incompreendido ou culpando a obtusidade do público. O paradoxo aparente é que, para atingir esse público (não necessariamente agradá-lo, mas sempre causar-lhe impacto), o cineasta afiava de tal maneira seus instrumentos expressivos que acabava por criar obras de uma complexidade estética e humana que não cansa de encantar, desafiar e estimular cinéfilos, críticos, psicanalistas, filósofos e, claro, outros cineastas.

Se, por um lado, queria se comunicar com as amplas plateias, por outro Hitchcock abominava a vulgaridade, o recurso a ideias gastas, o golpe baixo. Por isso inventava, desenvolvia, sofisticava. Seu objetivo declarado era partir de um clichê para chegar a algo novo, original.

Reprimido e sem-vergonha

Bibliotecas já foram escritas sobre as ambiguidades morais dos filmes de Hitchcock, sobre o modo como sua formação católica aparece, ainda que a contrapelo, nos dramas de seus personagens atormentados pela culpa ou pelo desejo mal resolvido. Sua filmografia é um terreno fértil para as especulações psicanalíticas.

Muito se falou, por exemplo, sobre a homossexualidade latente em Pacto sinistro, a necrofilia em Um corpo que cai, a impotência em Janela indiscreta. Em Hitchcock, com frequência, sem saber o lugar certo onde colocar o desejo, os personagens convertem-no em desvio, doença, crime. Talvez seja por isso que, como observou Truffaut, ele filma cenas de amor como se fossem assassinatos e assassinatos como se fossem cenas de amor.

Muitas vezes as alusões sexuais estão no diálogo dúbio, outras vezes na forma da imagem ou na sagacidade da montagem. Um exemplo clássico, que o próprio Hitch considerava demasiado explícito, é a cena final de Intriga internacional, em que o beijo romântico dos protagonistas é seguido da penetração do trem no túnel:

Outro caso bastante citado é o da teleobjetiva do fotógrafo voyeur de Janela indiscreta, que vai crescendo à maneira de uma ereção à medida que ele se excita com as coisas que vê. Li em algum lugar, provavelmente um livro de Luiz Nazário, um estudo do sugestivo jogo entre retas (cigarro, trem) e círculos (cinzeiros, carrossel, bola) em Pacto sinistro, formas das quais a raquete de tênis, instrumento do protagonista, seria uma espécie de síntese.

Drama e geometria

Essas observações remetem a outra característica de Hitchcock, a capacidade de apontar para uma depuração geométrica da imagem sem perder de vista o sentido do drama narrado. O exemplo mais notório é, de novo, Um corpo que cai, em que tudo – do coque no cabelo da protagonista (Kim Novak) à musica sinuosa de Bernard Herrmann, passando pelos volteios da construção narrativa – conflui para a figura da espiral, anunciada já no magnífico grafismo dos créditos de abertura, criados pelo genial Saul Bass. Termino este texto que já vai longo com esse momento precioso, que vale como uma abertura para o universo misterioso e fascinante de Alfred Hitchcock:

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.