Festa num país dividido

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Comemoração da Revolução dos Cravos, em Portugal, escancarou o descompasso entre discurso oficial e sentimento popular: tensão está no ar

Por Antonio Barbosa Filho, correspondente na Europa 

PORTO — Quem acompanhou as comemorações dos 38 anos da Revolução de 25 de abril em Portugal, conhecida como “Revolução dos Cravos”, viu duas faces muito diferentes, quase opostas, do mesmo país.

No plenário da Assembleia da República, em Lisboa, viu-se uma sessão solene com as presenças do presidente Aníbal Cavaco Silva e do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, mas com as ausências da Associação 25 de Abril, formada pelos militares que fizeram a Revolução, e do ex-presidente Mário Soares, um dos responsáveis pela consolidação democrática que se seguiu ao levante pacífico das Forças Armadas contra a ditadura salazarista. Nas ruas, o povo apropriou-se da efeméride e transformou as comemorações em manifestações de protesto.

TEXTO-MEIO

Deve ter sido constrangedor para Passos Coelho ouvir os deputados dizerem — como José Luis Ferreira, do Partido Ecológico, os Verdes — que “o governo não está cumprindo com os ideais de Abril e a Constituição em vigor”. Cecília Honório, do Bloco de Esquerda, expressou que “a direita (no poder) ataca o 25 de Abril e a Democracia” com suas políticas recessivas. Ouviram-se murmúrios no plenário quando ela afirmou que “a direita alimenta um sentimento sanguinário de vingança contra o Estado social”, e fez de Portugal um “colonato do governo alemão sob a batuta autocrática da Sra. Merkel”.

O representante do Partido Comunista, deputado Agostinho Lopes, também bateu forte — e incluiu os socialistas nas origens do problema, pois o Partido Socialista (PS) foi um dos que assinaram o pedido de “ajuda” feito à União Europeia. De acordo com Lopes, os partidos que se alternaram no poder desde 1974 (PS, PDS e CDS) “subscreveram um pacto de traição aos portugueses” ao aceitarem o “socorro” da troika — grupo formado pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI. Restou ao representante da coligação governista CDS-PP, Hélder Amaral, dar uma resposta aos militares e ao socialista Mário Soares, figura nacionalmente reverenciada, por sua recusa a participarem desta sessão comemorativa: “Quem nos dá licença para estarmos aqui é o povo, e não qualquer entidade ou qualquer político.” E acrescentou que a Assembleia da República é “uma casa de Abril, e por isso o 25 deve ser comemorado aqui”.

Pelo Partido Socialista, o deputado Carlos Zorrinho disse que o atual governo português foi um dos primeiros a aliar-se com “as visões extremistas que corroem a Europa (…) e parece querer dispensar a memória do 25 de abril”. Anunciou que o PS fará uma “ruptura democrática com quem ouse destruir em apenas uma legislatura o que levou quatro décadas a adquirir”, referindo-se ao desmonte do Estado social. E inseriu em seu discurso um alerta: “a vitória de François Hollande na França quebrará o eixo neoliberal na Europa”, abrindo possibilidades de novas alternativas de solução à crise. “É possível ajustamento econômico sem empobrecimento geral”, afirmou.

O esperado discurso do presidente Cavaco Silva frustrou a todos: ele gastou 90% do tempo falando da projeção de Portugal no mundo, com atletas que venceram competições importantes, cientistas que se destacaram, arquitetos que ganharam prêmios internacionais. Quando tratou superficialmente da crise que martiriza o país, foi para dizer que os portugueses hão de vencê-la unidos, e que o mundo reconhece que Portugal cumpre seus compromissos. Chegou até mesmo a citar que o país tem sido elogiado por estar fazendo até mais do que o acordado com a troika.

O discurso de oito páginas recebeu críticas gerais e foi timidamente defendido pelas bancadas governistas. O deputado Francisco Louçã, coordenador do Bloco de Esquerda, afirmou: “É surpreendente que (o presidente) não se tenha lembrado do que disse há um ano sobre o limite dos sacrifícios”. E Jerônimo de Souza, secretário-geral do PS, foi irônico: “Cavaco Silva falou do cisco e esqueceu o elefante.” Na opinião geral das ruas, o discurso do presidente foi visto como, no mínimo, infeliz. Embora se dissesse consciente da situação, Cavaco Silva pareceu distante do drama vivido pelo povo português.

Nas ruas, outro país

Fora dos salões e discursos oficiais, o que se observou nas principais cidades e em quase todas as partes foi um 25 de abril de protestos contra o governo, os acordos com a União Europeia e a banca. O tom variava do auto-flagelo — do tipo “a culpa é nossa, do povo, porque gastamos demais, tivemos vidas de ricos, e agora é a hora de pagar a conta” — até a revolta mais exacerbada, dos que desejam uma mudança radical na administração, ruptura com a União Europeia (deixando até o euro como moeda) e uma volta ao princípio do processo revolucionário de 1974.

Mesmo os mais conformados com as medidas recessivas acham que o governo está exagerando, e que os portugueses não suportam mais o empobrecimento geral. Na Praça da Liberdade, no Porto, onde concentraram-se cerca de 5 mil pessoas para gritar slogans como “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, um ex-militar de 71 anos conta que tem um filho de 35, engenheiro com MBA, e uma filha de 30, professora de Letras que fala vários idiomas, ambos desempregados. “Os empregadores acham que eles têm currículo muito elevado, e que não podem pagar o que valem. Estamos assim: quem não tem estudos, não consegue emprego por isso; quem tem boa formação, paga por ter-se preparado. O desemprego é nosso maior flagelo”.

Sem querer identificar-se (“ponha aí Capitão Gonçalves, há muitos Gonçalves por aí”), o velho oficial, que estava na Guiné-Bissau quando ocorreu o golpe contra a ditadura, está indignado com a corrupção dos governantes, e acha que muita gente ficou viciada nos benefícios sociais concedidos em Portugal às custas dos recursos recebidos da Europa no período de integração do país ao bloco. “Gastamos mal e muito mais do que podíamos, agora é a hora de nos ajustarmos ao que somos, um país pobre”, afirma.

Mesmo achando que a Revolução e os governos que se seguiram cometeram muitos erros, o “capitão Gonçalves” é afirmativo ao dizer que o maior benefício trazido pelos cravos foi “a liberdade que temos de nos expressar, de criticar e expor ideias. Antes, em qualquer reunião, havia um agente da PIDE ou da Polícia Judiciária que podia convidar um cidadão a acompanhá-lo a uma delegacia ou quartel. E muitos desses nunca mais voltaram”.

A impressão que fica deste 25 de abril (comemorado em dois níveis diferentes, o oficialesco e o verdadeiro, nas ruas) é que o processo político português tende a acelerar-se. Ou o governo toma uma posição menos arrogante e tenta um diálogo com a sociedade organizada, cedendo em algumas medidas que castigam fortemente o poder aquisitivo, o emprego e os serviços sociais; ou corre o risco de uma convulsão social. Tenho usado a palavra “perplexidade” para definir o estado de espírito que se percebe nas conversas com cidadãos e cidadãs de vários níveis e setores sociais. Mas ela não abrange todo o sentimento das pessoas: a perplexidade paralisa, mas o que se vê é uma tensão latente. Parece que a população está passando da fase da dúvida e do medo para um sentimento de urgência em fazer algo. Ainda é incipiente, mas, se compartilhada pelas massas, essa sensação pode derivar em incontrolada rebelião, de um momento para outro.

Há tempo para os burocratas de Bruxelas — que falam em nome da União Europeia e do FMI — refletirem sobre os riscos de uma explosão social em Portugal. Caso os socialistas vençam as eleições na França, como indicam as pesquisas até o momento, muita coisa vai mudar, e a ortodoxia financista perderá uma batalha: os países mais endividados e sacrificados vão sentir-se mais fortes para exigirem auditorias, recusarem pagamentos extorsivos e repudiarem medidas ainda mais recessivas. Portugal pode ser um ponto de inflexão nas práticas neoliberais repetidas, e que em lugar algum resultaram em benefício para os países. Veja-se a Irlanda, a Grécia, a Islândia, e outros que fizeram seus “deveres de casa” com todo rigor e continuam pendurados. O discurso do aperto do cinto está cansando e quem sabe Portugal seja o primeiro a rompê-lo. Com mais ou menos trauma.

 

> Edições anteriores da coluna:

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TEXTO-FIM
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Antonio Barbosa Filho

Jornalista e escritor, autor de A Bolívia de Evo Morales e A Imprensa x Lula – golpe ou sangramento? (All Print Editora). Em viagem pela Europa, acompanha as consequências da crise financeira pós-2008 e da onda corte de direitos sociais (‘políticas de austeridade’) iniciada em 2010