EUA: vitória em resistência heroica?

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Indígenas lideram resistência de meses contra oleoduto que ameaça seu território. Obama interrompe a obra — mas, o que fará Trump, acionista de uma das empresas responsáveis pelo empreendimento?

Por Matt Peterson e Malek Rasamny*, da #IndianWinter | Tradução: Inês Castilho

Depois de sete meses no corpo a corpo contra a construção de um oleoduto, vivendo acampados num clima enregelante, os “Protetores da Água” da Ocupação de Standing Rock, no estado de Dakota do Norte, EUA, estão comemorando uma vitória. Em 4 de dezembro, a Casa Branca emitiu nota comunicando a decisão de buscar uma rota alternativa para concluir a obra, já quase pronta. Ao menos por ora, os guerreiros e guerreiras Sioux e seus parentes e ativistas ali acampados conseguiram impedir que o Dakota Access Pipeline passasse perto de seu território, sobre terras sagradas e sob as águas do rio Missouri, que alimentam a vida ali.

A tubulação, de 1.888 quilômetros de extensão e 76 centímetros de diâmetro, cruza quatro estados. Para os indígenas, é a “serpente negra” de que falavam os anciãos da Grande Nação Sioux: uma cobra preta que, se atravessasse o seu território, traria a morte. Pelo projeto inicial, passaria mais ao norte, perto da capital do estado, Bismarck. Mas pelo risco que significa ao abastecimento de água, sua rota foi desviada para o sul, ao lado da reserva.

O oleoduto custou 3,7 bilhões de dólares (12,5 bilhões de reais) para transportar 500 mil barris de petróleo bruto/dia dos campos no oeste de Dakota do Norte até um terminal em Illinois, no centro-oeste americano. Além do risco de desastre ecológico, ambientalistas se opõem a mais investimento na energia suja do petróleo e à extração por fracking, ou fraturamento hidráulico  – de impacto devastador para o meio ambiente.

Começava então um movimento que reuniu, em torno de estratégias de resistência, preces e cerimoniais, os nativos Sioux da reserva de Standing Rock e nativos americanos de outras 280 nações — além de ambientalistas e ativistas. A ocupação foi invizibilizada pela velha mídia, mas recebeu cobertura da mídia alternativa, em especial do Democracy Now. Sua cofundadora, a repórter investigativa Amy Goodman, chegou a enfrentar pedido de prisão por estar em Dakota do Norte cobrindo o movimento. 

TEXTO-MEIO

Mais de 5 mil pessoas passaram a viver ali, em acampamentos, alguns recriando laços familiares e tribais. Uma ocupação que lembra os nossos acampamentos de Sem-Teto, de Sem-Terra, pelo uso de tecnologias de resistência, de solidariedade e vida coletiva – mas muito mais pobres. Haveria uma troca possível aí, com esses guerreiros e guerreiras, que receberam visitas de solidariedade até de palestinos.

Houve nesse tempo momentos de repressão que lembra a brasileira, destropicalizada. Uma manifestação reprimida com jatos d’água em temperaturas polares causou hipotermia em várias pessoas e levou 17 ao hospital. Em outra, quase 200 pessoas foram presas. O arsenal deslocado contra pessoas desarmadas foi de guerra.

Mas a vitória que está sendo comemorada ainda pode ser revertida. O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, já se pronunciou a favor da rota atual. Ele é proprietário de ações da Energy Transfer Partners, construtora da obra – o que, garante, não influencia absolutamente sua opinião. Não bastasse, e seus conselheiros propõem agora a privatização de todas as reservas dos nativos americanos.

A seguir, a história da Ocupação até as vésperas de sua provisória vitória. Milhares de protetores da água continuam em Standing Rock, enfrentando baixíssimas temperaturas e as autoridades, que os querem fora da área. A Energy Transfer Partners reclama que o atraso do projeto já lhe custou 450 milhões de dólares. (Inês Castilho)

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A ocupação de Standing Rock é um movimento baseado em presença. Ao ocupar o espaço e o tempo da empresa de gás Energy Transfer Partners, do Grupo de Engenheiros do Exército do Condado de Morton, no estado de Dakota do Norte dos Estados Unidos da América – a Reserva Indígena de Standing Rock veio a encarnar a maior mostra de resistência dos EUA, desde, ao menos, os levantes de Ferguson de 2014.

Como Ferguson, e, antes, a ocupação de Wounded Knee em 1973, o próprio lugar tornou-se uma assinatura do movimento: diga “Standing Rock” e o que vem à mente são acampamentos, bloqueios, empates feitos para evitar a construção do oleoduto Dakota Access Pipeline através do rio Missouri.

Uma nova história

O acampamento que agora estende-se por milhares de tendas, chamando a atenção de milhões de pessoas em todo o mundo, começou de forma bastante modesta. O Camping Sacred Stone (Acampamento Pedra Sagrada) começou no dia 1º de abril como uma vigília de oração de jovens da Reserva Indígena de Standing Rock, em razão da iminência do início da construção do oleoduto Dakota Access Pipeline. Há quase dois anos a tribo já estava envolvida numa ação judicial contra a construção do oleoduto.

Esse primeiro acampamento está localizado na própria reserva, perto do cruzamento dos rios Missouri e Cannonball. O encontro dos dois rios costumava criar um redemoinho que produziu uma pedra com um formato único, da qual o Acampamento Pedra Sagrada extrai seu nome. Mais tarde, nos anos 1940, o Corpo de Engenheiros do Exército alterou o curso do rio, inundando uma porção da reserva e assim destruindo o redemoinho e a pedra. Durante a primavera e o verão, o Camping Sacred Stone foi tanto um lugar de prece constante quanto uma plataforma de lançamento para uma série de ações simbólicas orientadas a deter o início da construção.

No fim de julho, à medida que os primeiros sinais da construção tornavam-se visíveis, a tribo de Standing Rock convidou formalmente o Oceti Sakowin – os sete conselhos de fogo dos povos Lakota, Dakota e Nakota – e em particular os guerreiros da união Oglala Lakota da Reserva Indígena Pine Ridge, para juntar-se ao levante. Muitos vieram a Standing Rock com suas famílias extensas, diretamente das cerimônias anuais de Sundance, onde já estavam acampados por mais de um mês.

A essa altura, a tribo Standing Rock e o Oceti Sakowin chamaram também outras nações indígenas e aliados não indígenas para juntar-se a eles no acampamento, em solidariedade. Conforme os apoiadores começaram a inundar Sacred Stone, eles iniciaram ali perto o Camping Rosebud, também na reserva, mas já à beira da Rodovia 1806. À medida que ainda mais gente chegava, um camping “transbordante” foi então criado do outro lado do rio Cannonball, que logo tornou-se domicílio para milhares, transformando-se no principal Acampamento Oceti Sakowin. Fica localizado fora da reserva, oficialmente na terra do Corpo de Engenheiros do Exército, e portanto é uma ocupação ilegal e uma ação direta em si mesma. Esse acampamento tornou-se um desafio às numerosas violações de tratados que limitaram a somente suas reservas, com gestão federal, a soberania dos povos Lakota.

A essa altura, ações diretas tornaram-se um fato quase diário: os protetores da água atravessavam a pequena distância que ia do Camping Oceti Sakowin até os lugares onde a construção estava ativa, e a derrubavam. Usando táticas herdadas do movimento ambiental, os protetores da água começaram a promover “travamentos”, acorrentando-se aos equipamentos de construção para impedir que fossem usados.

Este verão testemunhou vários eventos históricos. Os Crows, assim como outras nações indígenas que foram inimigas históricas dos Lakota, chegaram em procissão para oferecer paz e juntar-se à luta contra o oleoduto. Logo, cerca de 300 tribos reconhecidas pela Federação já haviam enviado delegações e declarado formalmente sua solidariedade. No início de setembro, a população do acampamento chegou a seu ponto alto, com aproximadamente 5 mil pessoas.

Foi a essa altura que as tensões crescentes chegaram a um pico, empurrando Standing Rock para o centro da mídia nacional. A empresa Dakota Access Pipeline (DAPL) contratou uma empresa de segurança privada para montar guarda nos locais de construção e prevenir ocupações. Como finalmente o longo processo judicial aproximava-se de uma decisão, a tribo Standing Rock apresentou documentação sobre a existência de sítios arqueológicos, incluindo cemitérios ancestrais, ao longo da rota proposta para o gasoduto. No dia seguinte, 3 de setembro, trabalhadores da construção demoliram uma área do antigo cemitério descrito nesses documentos judiciais.

Naquela tarde, centenas de pessoas marchavam ao longo da rodovia para fincar as bandeiras de suas nações na rota proposta para o oleoduto quando se viram diante da profanação. Um grupo de mulheres derrubou a cerca em torno da construção e centenas correram para bloquear os tratores. Conforme os trabalhadores da construção civil recuavam, os protetores de água foram confrontados por uma força de segurança privada e atacados com spray de pimenta, socos, pauladas e mordidas de cães. À medida que as imagens começaram a circular, lembrando o movimento dos direitos civis da década de 1960, bem como as guerras contra os indígenas do século 19, todos os olhos voltaram-se para Standing Rock.

Na semana que se seguiu, o governador de Dakota do Norte declarou estado de emergência e solicitou a presença da Guarda Nacional, que começou a montar postos de controle militarizados na rodovia, desde a capital do estado, Bismarck, até Standing Rock. Um juiz deu finalmente a sentença ao processo, de anos, decidindo contra a interdição da construção. Horas depois, vários braços do governo federal, inclusive o Corpo de Engenheiros do Exército, divulgaram uma declaração pedindo a interdição da construção numa área de 64 km do rio. Um acampamento menor, conhecido como Sacred Ground, foi montado na área desse recente confronto, ao longo de ambos os lados da Rodovia 1806, monitorando as equipes de construção e mantendo vigilância nos locais de sepultamento expostos, que seriam atravessados pelo oleoduto.

Para manter-se alerta, o acampamento inovou continuamente suas táticas. Com a construção agora acontecendo muito além de onde se encontrava, eles começaram a fazer ações de trancamento nesses lugares, que ficaram remotos. Em razão da distância, do segredo no planejamento e das habilidades requeridas, só um grupo pequeno e especializado do acampamento podia participar dessas ações. Depois que uma delas acabou numa prisão em massa, passou-se quase uma quinzena sem ações. Para retomar a participação massiva das primeiras ações, passaram a organizar caravanas de dezenas de carros, caminhões e ônibus, com várias centenas de pessoas dentro deles, para fechar canteiros de obras ativos, a uma hora de carro dos acampamentos.

Do final de setembro ao final de outubro, essas caravanas de bloqueio tornaram-se uma ação quase diária. Os trabalhadores da DAPL abandonavam a construção assim que os manifestantes chegavam, quando não o faziam antes. Esses protestos orbitavam em torno de cerimônias e preces envolvendo o plantio de milho sagrado ou de árvores de salgueiro. Eram ações organizadas com mão firme, formalmente lideradas pelos anciãos das tribos, mas também com grande participação de jovens e velhos, homens e mulheres. Os jovens eram os primeiros a chegar ao local e às vezes danificavam e pichavam com spray o equipamento de construção, antes que os anciãos chegassem para comandar a cerimônia. Como a polícia passou a responder de forma mais militarizada e as prisões em massa começaram novamente, as caravanas passaram a rodar devagar pelos locais de construção – levando os trabalhadores a abandonar o lugar, mas sem correr o risco de ser presos.

A despeito das constantes interrupções do trabalho, ali pelo final de outubro a DAPL aproximava-se novamente do rio Missouri e a construção, agora, estava quase concluída. Citando os tratados de Fort Laramie, o Oceti Sakowin declarou “domínio iminente” http://legal-dictionary.thefreedictionary.com/eminent+domain e ocupou uma faixa da rota do oleoduto. Localizado em terreno de propriedade oficial da DAPL, o Camp Frontline transformou-se, de um pequeno posto avançado, num acampamento de centenas. Barricadas foram colocadas na Rodovia 1806, e por cerca de uma semana a expulsão do Camp Frontline parecia iminente. Conforme as tensões se avolumaram, os protetores da água concordaram em desfazer suas barricadas, mas continuaram a manter um check point ao longo da rodovia.

No dia 27 de outubro, o Departamento de Polícia do Condado de Morton, junto com a Guarda Nacional e os departamentos de polícia de cinco outros estados, avançaram para despejar o Camping Frontline. Numa demonstração de força, chegaram em veículos armados com um canhão de som LRAD [Long Range Acoustic Device] e equipamento antimotim. Para bloquear a entrada da polícia no camping, as pessoas abandonavam seus próprios carros no meio da rua, cortavam os pneus e removiam as placas. Outros trancavam-se em caminhões. Barricadas foram levantadas e incendiadas nas rodovias 1806 e 134. Quando o camping foi finalmente invadido, novas barricadas foram armadas no cruzamento das duas rodovias e numa ponte mais ao sul. Em meio ao caos, equipamentos da construção e vários veículos da polícia foram queimados.

Nas semanas que se seguiram, houve vários confrontos dramáticos entre os protetores da água e a tropa de choque, que atacava com gás lacrimogênio e balas de borracha, enquanto a construção se aproximava mais e mais do rio.

Movimento e presença

A ocupação de Standing Rock é um movimento baseado em presença. Ao criar, nas terras tradicionais Oceti Sakowin, uma vida comunitária nova baseada na recusa, ele desafia a evolução histórica que nos trouxe até aqui: a Compra de Louisiana de 1803; a violação dos Tratados de Fort Laramie de 1851 e 1868; a incorporação do Território Dakota em 1861; a incorporação de Dakota do Norte à União em 1889; e a formalização de Standing Rock numa reserva apartada da Grande Nação Sioux.

Com a ocupação e o movimento no seu entorno, essas histórias podem ser reveladas para o estudo contemporâneo e, mais importante, para contestação. A luta pela soberania dessas terras se desenrolará de um jeito nas disputas jurídicas, que envolvem vários departamentos do condado e da polícia estadual, a Guarda Nacional e empresas de segurança privada, contratadas para defender as ditas propriedades públicas e privadas que estão sendo escavadas para construir o DAPL. No final de setembro, o presidente de Standing Rock, Dave Archambault II, chegou até mesmo a levar a questão para Genebra, e dirigir-se ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas sobre os abusos e violações que ocorriam nas terras dos tratados. Esses esforços e contra-respostas indicam o complexo nó de forças e jurisdições locais, estaduais, federais, privadas e internacionais, em que os povos indígenas encontram-se ao argumentar e defender sua soberania.

Embora o movimento em Standing Rock inspire-se em sua própria linhagem e experiência particular de luta, ele compartilha vários aspectos dos levantes globais recentes. O desenvolvimento de infraestruturas tem se tornado objeto e local de luta, frequentemente; acampamento e bloqueio tornaram-se táticas primordiais, num arsenal de possíveis respostas. Os antagonistas tendem a ser definidos como supérfluos para as necessidades do capital, mas dependentes do mercado para sua própria reprodução. O acampamento e o bloqueio criam assim uma ruptura na experiência normatizada da vida cotidiana, e a experiência de estar dentro de um camping torna-se um laboratório para experimentar novas formas de viver juntos.

Movimentos sociais do passado, tanto não-nativos quanto nativos, eram frequentemente enraizados numa comunidade ou território particular – um tecido social denso no qual viveu-se a vida inteira – reproduzindo-se através de um conjunto de instituições culturais, espirituais, políticas e familiares. Eles conseguiam apresentar um mundo coerente, dentro dele e contra aquele a que se opunham. Isso possibilitou que tradições de luta fossem passadas através de gerações, e criou uma certa obrigação moral de participar. Propiciou também uma visão coerente de outro tipo de vida e de um mundo para além do capitalismo. A história do último meio século é a história do desmantelamento da possibilidade desses mundos. A força da ocupação de Standing Rock é a capacidade de recordar, ao mesmo tempo em que constrói seu próprio potencial como uma comunidade-em-luta.

Embora as ações de protesto contra a construção do gasoduto tenham se tornado cada vez mais visíveis pela mídia, permaneceram menos visíveis as conexões e contextos geracionais, espirituais e territoriais que animam esse movimento. O que cria as fundações para que Standing Rock possa existir são os laços contínuos dos Oceti Sakowin e a potência de sua visão de mundo. É isso que possibilita a consistência, duração e persistência que têm mantido a ocupação acontecendo durante sete meses.

A política demonstrada dentro da ocupação de Standing Rock não é baseada em decisões, mas em comprometimento. Na sociedade liberal representativa, as decisões são tomadas por poucos, afetam muitos, e sua legitimidade vem com a expectativa tácita de que seus resultados serão aceitos e estabelecidos. Compromissos, contudo, precisam ser cumpridos por todos. Um movimento como Standing Rock, centrado em duração, depende do compromisso de todos os presentes durante dias, semanas, meses. Isso, por si só, garante sua forma comunal: o movimento existe enquanto aqueles compromissos existirem, e para manter as pessoas aglutinadas confiam no espírito dos próprios acampados.

Ao contrário de uma mobilização política, em que as pessoas são simplesmente chamadas a agir em conjunto, em Standing Rock os participantes têm também de viver juntos. E não somente por alguns dias ou mesmo semanas, mas chegando agora a sete meses. Os próprios campings – já que Standing Rock é feito não de um, mas de vários minicampings separados e autônomos – tiveram de encontrar modos de viver e lutar juntos. A natureza prolongada do movimento necessita que a reprodução diária dos habitantes, material e espiritual, informe o conteúdo e a estratégia da própria luta.

Protetores da água

Podem-se distinguir três categorias entre os habitantes da ocupação de Standing Rock. No centro estão as pessoas de Oceti Sakowin, ou seja, quem vem diretamente da Reserva Indígena de Standing Rock, bem como das reservas próximas que um dia integraram a Grande Nação Sioux e incluem a Cheyenne River, Pine Ridge, Rosebud, Crow Creek, Lower Brule etc. Para eles é de importância fundamental a especificidade da terra em si – suas montanhas, cavernas, vales e rios –, e cada uma traz um propósito e significado histórico e contemporâneo específico. A ocupação de Standing Rock, dizem, é a primeira reunião de conselho ampliado do Oceti Sakowin desde as guerras Sioux, mais de 100 anos atrás.

Uma segunda categoria de participação e solidariedade são os povos indígenas de Turtle Island, ou North America, que enviaram delegações e representantes de todo o continente – no que tornou-se a maior reunião de pessoas e tribos indígenas desde a colonização. Essa mostra de solidariedade e comprometimento material é um ponto central da ocupação, com a alameda principal pontillhada por centenas de bandeiras de nações indígenas que lá estiveram em visita. Bandeiras são usadas por todos os acampamentos para demarcar espaço, prestar um tributo e dar representatividade visual àqueles que estão encarnando o tecido dessa nova comunidade. À medida que a tática do movimento mudou, no fim de setembro, para ações de caravana para bloquear a construção, os participantes foram encorajados a trazer suas preces, tambores e bandeiras como um tributo à vitalidade dessa solidariedade intertribal dentro do movimento #NoDAPL. Isso, por si mesmo, poderia desenvolver consistência e impulso contínuos ao movimento, para além da ocupação e desse oleoduto em particular.

Um terceiro nível de participação seria o da solidariedade de todos os ativistas não-nativos que viajaram a Standing Rock para oferecer seu apoio. Tipicamente, eles foram inspirados a opor-se ao oleoduto pela preocupação com o ambiente, e aqui poderiam estar incluidos desde New Agers e hippies até ativistas da mídia independente e anarquistas. Mais amplamente, têm aparecido em Standing Rock pessoas de lugares tão distantes quanto a Amazônia, o Ártico e a Palestina. Tem sido dito que Standing Rock é a maior reunião de pessoas nativas e não-nativas de todos os tempos, unidas por uma causa comum – um dos fatores do sucesso e longevidade do movimento –, priorizando a abertura para o encontro e a solidariedade.

O que é extraordinário sobre a Ocupação de Standing Rock é que ela não é uma mobilização política típica de Nova Iorque, Washington ou alguma outra grande metrópole norte-americana, com populações já presentes. Está acontecendo no quarto estado menos populoso, a uma hora de distância da capital, Bismarck, cuja população é de 61 mil pessoas. Standing Rock fica a quase 1.500 quilômetros de Chicago, 2.400 quilômetros de Los Angeles e quase 2.600 km – ou 30 horas de carro – de Nova Iorque, o que significa que as milhares de pessoas que circularam pela ocupação nesses últimos meses provavelmente viajaram grandes e custosas distâncias para reunir-se ao movimento.

Mapeando o local

Espalhados ao longo da Rodovia 1806 estão os quatro acampamentos separados que integram a ocupação: Sacred Stone, Rosebud, Oceti Sakowin e Sacred Ground. Esses campings são a moradia de 1 mil a 3 mil pessoas, chegando a 5 mil no início de setembro.

Oceti Sakowin, o camping principal e o maior, de longe, é semelhante a uma pequena cidade, com uma grade de estradas de terra, bairros e infraestrutura rudimentar. A principal via pública que leva ao camping, a partir da rodovia, está coalhada de bandeiras das cerca de trezentas nações indígenas que ali estiveram para prestar solidariedade. No coração do camping está o fogo sagrado, que recebe uma procissão contínua de cerimônias, danças, performances, discursos e pronunciamentos, e uma cozinha comunal massiva que oferece refeições diárias.

O camping abriga agora uma escola fundamental, uma estação de rádio pirata, um centro de mídia independente, uma estação de energia solar para carregar telefones e equipamentos, uma força de segurança voluntária organizada pelo Movimento Indígena Americano, uma estação de primeiros socorros, tendas que oferecem massagens, medicina fitoterápica e chás de ervas, um campo para jogar lacrosse, https://pt.wikipedia.org/wiki/Lacrosse várias dúzias de tendas que distribuem comida, material de camping e roupas, e dúzias de banheiros químicos, depósitos de lixo e tanques de água. Há cerca de uma dúzia de saunas e meia dúzia de estábulos de cavalos pelo acampamento. Há um sistema de mensageiros com base nos cavalos, e a certa altura foi instalada uma pista de corrida. Tem um grupo de doulas para parto natural, que até agora facilitou pelo menos um nascimento. Há um sistema de caminhões que distribuem lenha para fogueira e outros suprimentos através dos campings menores. Há também uma pequena frota de canoas e barcos a motor.

O próprio Camping Oceti Sakowin é composto por uma dúzia de campings, que podem ser de uma delegação tribal, familiar ou baseada em afinidade, cada qual construído em torno de uma fogueira e uma cozinha comunitária. Esses campings-dentro-do-camping são autônomos e autorreprodutivos, e vieram a recriar a pura essência dos assentamentos humanos. Os contornos entre eles são borrados, compondo uma moradia ou uma vila dentro do acampamento maior: alguém poderia entender as barracas como quartos individuais e a fogueira como uma área comum, naquilo que é essencialmente um lar unitário; ou que as próprias tendas são casas e a fogueira, uma pequena praça da aldeia.

O Camping Red Warrior, conhecido pela participação ativa de seus integrantes e pelo planejamento de muitas ações diretas do movimento, é um acampamento dentro do Oceti Sakowin montado ao longo do Rio Cannonball e de costas para ele. Tem sua própria cerca em torno de si, sua própria segurança, fogueira, tendas de suprimentos, cozinha comunitária, refeições diárias, área de alimentação e de convivência em grandes tendas do exército, uma biblioteca, laboratório de serigrafia, máquinas de costura, e uma tenda observatório para monitorar e mapear a construção. Adjacente ao Red Warrior está o minicamping Haudenosaunee, para os povos da Confederação de Seis Nações dos territórios assim chamados Quebec, Ontário e Nova Iorque, com seus próprios fogos, comida, suprimentos etc. Por perto está também o Camping Two Spirits. Esses minicampings proliferam através de Oceti Sakowin e Standing Rock, manifestando a multiplicidade dentro do movimento.

Assim, do ponto de vista espacial e organizacional, não há na Ocupação Standing Rock um só acampamento, uma só assembleia, um só fogo ou refeição, ou administração ou organismo de decisão – e isso poderia ser visto como uma de suas forças. A reunião histórica e sem precedentes de pessoas que compõe Standing Rock encontrou um modo de viver e lutar juntos, ao reconhecer e respeitar as diferenças e necessidades que cada um traz para o momento.

Laços familiares e geracionais

Uma das características distintivas da Ocupação de Standing Rock é sua base familiar e a interconexão geracional que constituem os acampamentos e o próprio movimento. Não é de modo algum incomum ver, por exemplo, um minicamping ancorado por uma matriarca em seus sessenta anos, frequentemente com a experiência direta do Movimento Indígena Americano (AIM, na sigla em inglês) dos anos 1970. Ela pode estar acampando com os filhos de seus quarenta anos, o equivalente no AIM aos “cubs” [filhotes], crescidos numa família radical, voltada a organizar-se politicamente para a recuperação de modos de vida e educação tradicionais.

Essa geração, nascida no fim dos anos 1960 e nos 70, é frequentemente de líderes respeitadas dentro do movimento, e seus filhos, sobrinhas e sobrinhos de 20 a 30 anos, são guerreiros ativos ou voluntários das linhas de frente dos protestos. Assim, seus jovens filhos ou netos podem ser vistos brincando e correndo pelos acampamentos, ou agora frequentando a escola que foi criada para quem se mudou com suas crianças para esses campings, em tempo integral. Isso completa quatro gerações, e é claro que dentro de cada um desses acampamentos estão presentes famílias e relações extensas, “tiospaye” no idioma Lakota, que frequentemente se referem uns aos outros, respeitosa e intimamente, como irmã, primo, tia e avó. Essas ligações familiares estão enraizadas numa compreensão mais ampla, individual e social, de si dentro de uma estrutura de clã, comunidade e nação. Isso significa que, dentro da cultura da Ocupação de Standing Rock há conjuntos de relações e obrigações fora da lógica redutora da cidadania, que passou a significar uma igualdade vazia de indivíduos a quem faltam laços mais amplos, histórias e responsabilidades compartilhadas.

Os Lakota falam frequentemente das “sete gerações”, significando um enquadramento para pensar em si mesmo num continuum daqueles que vieram antes, bem como os que ainda estão por vir. Esse poderia ser você, três gerações antes e três gerações adiante. Ou você e os netos de seus netos, isto é, aqueles que você nunca verá, necessariamente. De modo que cada ação ou decisão tomada por você, pelo seu tiospaye ou sua nação poderia ser avaliada pelo modo como se relaciona, não só consigo mesmo ou com o presente, como numa sociedade liberal, mas com cada uma dessas gerações. Quando tal visão ética e histórica é aplicada a um território, a questão passa a ser não só sobre a proteção da Grande Nação Sioux ou do Rio Missouri hoje, mas pensar no que seria necessário para manter suas potencialidades pelas sete gerações, para os netos dos seus netos.

Os Lakota têm também falado com frequência sobre a profecia da serpente negra, que virá trazendo com ela uma destruição incompreensível. Recentemente isso foi interpretado como sendo a proposta do oleoduto Keystone Pipeline, também planejado para atravessar o território Oceti Sakowin, antes que um amplo movimento de protesto levasse Obama a rejeitar a fase final de sua construção, em novembro de 2015. Desde então a profecia tem sido interpretada como tendo relação com toda e qualquer proposta de oleoduto, como escreveu Iyuskin American Horse de Standing Rock no The Guardian, em agosto:

Nossos anciãos nos disseram que se a zuzeca sape, a serpente negra, atravessar nossa terra, nosso mundo vai acabar. Zuzeca veio – na forma do Dakota Access Pipeline – e então precisamos lutar… Nós não protestamos, nós protegemos. Estamos defendendo pacificamente nossa terra e nossos modos de vida. Estamos juntos em oração, e lutando pelo que é certo. Estamos fazendo história aqui. Convidamos você a juntar-se a nós contra a serpente negra.

Muitas pessoas, dentro da Ocupação de Standing Rock e particularmente do Camping Red Warrior, passaram a denominar-se “Black Snake Killas” (“Matadores da Serpente Negra”), imprimindo esse slogan com stencil em suas jaquetas de camuflagem. Ele tornou-se um grito de guerra consistente dentro do movimento.

Preces como método de protesto

A ideia da oração como modo de ser é uma característica fundamental da ocupação e da comunidade por ela criada. Vic Camp, um Oglala Lakota de Pine Ridge e um dos líderes dos protestos, explicou a diferença entre viver numa tenda e viver numa residência privada. Vivendo numa casa particular, um “container de lata”, como ele chamou, você pode agir de um modo horrível, egoísta e destrutivo, mas vivendo dentro de uma comunidade, rodeado de crianças, idosos e outros, você se sente obrigado a conduzir-se de modo diferente, mantendo a si mesmo e aos outros num nível superior. Isso faz de Standing Rock o prenúncio de um outro modo de ser, bem como o eco de um estilo tradicional de vida que os Lakota mantinham vivendo entre famílias extensas, em acampamentos de tendas nômades, ampliados, antes da colonização.

Ideia semelhante foi articulada por Clyde Bellecourt, cofundador do Movimento Indígena Americano, uma noite diante do fogo principal do Acampamento de Oceti Sakowin, quando ele disse que estar no camping, por si só, não era apenas uma reunião de ativistas e manifestantes, mas uma força de oração, e a oração era, ela mesma, uma maneira de ser. Num contexto nativo que, infelizmente, tornou-se conhecido por suas altas taxas de alcoolismo, abuso de drogas, suicídio e violência doméstica, conseguir reunir milhares de pessoas para criar um território de prece e resistência seguro, autônomo, auto-organizado, livre de droga e álcool, é uma das contribuições mais potentes politicamente.

Dentro da ocupação a prece é uma forma de pontuar o tempo refletindo constantemente nas próprias ações e gestos, com alguma forma de reconhecimento. Como ressaltamos no camping, “Se deseja fumar um cigarro, não fume simplesmente e fique com a bunda na cadeira enquanto alguém faz a limpeza, mas pense em cada cigarro como uma oferenda de tabaco, como já foi, no passado, sagrado para nós, como uma oração.” Uma das orientações para quem se credencia como mídia para fotografar em Standing Rock é não filmar nenhuma cerimônia que esteja acontecendo, mas essa concepção de prece desafia, por si mesma, a noção de que ela seja assim tão claramente identificável e reconhecível, quando qualquer gesto, encontro, conversa poderia ser invocado com esse propósito e intencionalidade, de modo a tornar-se imperceptível.

Assim como esse texto, a construção do Dakota Access Pipeline em Dakota do Norte está quase no fim. Os acampamentos e impasses continuam, enquanto o Corpo de Engenheiros do Exército e o presidente Obama retardam uma decisão – seja de interditar, seja de aprovar a construção.

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* Matt Peterson e Malek Rasamny trabalham no The Native and the Refugee (Os Nativos e os Refugiados), um projeto multimídia que traça o perfil de territórios como as reservas Indígenas e os campos de refugiados palestinos. Shyam Khanna é um pesquisador independente, escrito e ciclista mensageiro com base no Brooklyn, Nova Iorque. Vanessa Teran é uma artista multimídia do Equador, morando atualmente no Brooklyn, NYC. Usando fotografia e escultura, seu trabalho está voltado para conflitos, identidades e pertencimento fronteiriços.

 

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Matt Peterson e Malek Rasamny

Matt Peterson e Malek Rasamny trabalham no The Native and the Refugee (Os Nativos e os Refugiados), um projeto multimídia que traça o perfil de territórios como as reservas Indígenas e os campos de refugiados palestinos. Vanessa Teran é uma artista multimídia do Equador, morando atualmente no Brooklyn, NYC. Usando fotografia e escultura, seu trabalho está voltado para conflitos, identidades e pertencimento fronteiriços.

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