Mulheres: corpos disponíveis?

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Isabela e Michele, assassinadas após o estupro, por terem reconhecido seus vizinhos — os agressores

Casos brutais de estupro voltaram à mídia. Mas ideia de que somos seres-objetos, sem desejo, continua presente no quotidiano

Toda a delícia do carnaval vem da liberdade. Nas três histórias a seguir, as mulheres foram violentamente privadas desta festa

Por Marília Moschkovich, editora de Mulher Alternativa

“Carnaval é uma delícia. Sensualidade, pegação, muita dança, folia. Mesmo eu, que nunca fui carnavalesca, me delicio em São Paulo vazia, quase abandonada e aproveito pra escutar um bom samba, que não faz mal a ninguém. Todo o clima bom do carnaval vem, porém, do fato de que fazemos o que queremos. Quando queremos. Como queremos. Se não fosse assim, não seria bom. Como não é, pra tantas mulheres assediadas, estupradas, violadas em plena festa.” (do Mulher Alternativa, leia aqui).

Na última semana, três crimes de gênero contra mulheres foram pautados pelas TVs, rádios e portais na internet. Alguns, mais do que outros, como sempre. O julgamento de Lindemberg, que sequestrou a ex-namorada e é acusado de também tê-la matado foi o mais noticiado. Era a repercussão de um fato que a televisão cobriu largamente em 2008, afinal de contas.

“Um dia, por tudo isto ou por outros fatores que já não consigo especular, ela disse ‘não’.

Dizer não não é fácil.

Muitas vezes, vindo de uma mulher, o ‘não’ sequer é levado em conta como ‘não’. Brincadeiras e piadas conhecidas por todos, reforçam a máxima de que quando uma mulher diz não, na verdade ela quer dizer sim. Cada vez que esta ideia é encorajada e considerada enquanto prática e verdade, Eloá é novamente assassinada. Quantas vezes, numa balada, nós mulheres temos de dizer ‘não’ para o mesmo homem antes de sermos finalmente entendidas e deixadas em paz? Quantas vezes as adolescentes não repetem a afirmação de terem beijado um rapaz ‘só para que ele fosse embora’? Quantas vezes mulheres aceitam transar sem camisinha por não conseguirem dizer ‘não’ e condicionarem o sexo à proteção?”

(leia o texto completo em Dizer não: o assassinato de Eloá é um crime de gênero contra todas as mulheres)

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Passou praticamente despercebido, nesse furor, um crime do pior tipo possível. No município de Queimadas, na Paraíba, o sobrinho do prefeito e alguns amigos planejaram um estupro coletivo como presente de aniversário a um amigo. Uma história de horror com requintes de crueldade. No fim das contas foram seis mulheres estupradas e, entre elas, duas assassinadas por reconhecerem os agressores – mascarados simulando um assalto (leia muitos textos bons sobre esse caso aqui.

“Confesso que é muito difícil de imaginar uma cena dessas. Na verdade, creio que a mente se fecha para os detalhes macabros, não queremos imaginar as mulheres amordaçadas e amarradas tendo suas roupas arrancadas e sendo penetradas, machucadas, humilhadas e espancadas por vários homens, um atrás do outro, a rir de seu desespero e medo e relinchando de prazer. Pois foi isso o que dez homens fizeram a mulheres que eram suas amigas e vizinhas!” (da Cecília Santos, leia aqui).

“O fato de que a sociedade trata os estupradores como psicopatas, monstros e indivíduos que não pertencem à sociedade é, no mínimo, hipócrita. Os homens que violam e violentam os corpos das mulheres estão apenas reproduzindo os padrões disseminados pela sociedade. Padrões que colocam os nossos corpos como mercadorias, objetos de desejo, sem que nós sejamos protagonistas desse desejo. (…) Então, um homem ganha de aniversário um estupro coletivo e as mesmas pessoas que corroboram com essas relações sociais distorcidas se chocam, acusam, apontam dedos, desejam a morte desses homens. Sem perceber que esses homens trataram aquelas mulheres como elas são retratadas cotidianamente, como objetos. Já passou da hora de refletirmos que a culpa é do estuprador e não da vítima, e que é também dos que perpetuam o imaginário da mulher objeto. Um imaginário doente, violento e que nos agride todos os dias.” (da Marcha das Vadias do DF, leia aqui).

“Vivemos numa sociedade que ensina mulheres e cobra delas que não sejam estupradas, ao invés de dizer aos homens: não estupre! O estupro é um crime de poder e humilhação, de violação máxima do corpo. Sabemos de tudo isso. Porém, é espantoso que dez pessoas decidam promover um estupro coletivo. Todos que sabiam e estiveram presentes participaram de um crime com grandes requintes de crueldade e misoginia.” (da Srta. Bia, leia aqui).

“Dois aspectos do caso me chamaram muita atenção: dos homens que não não participaram de forma efetiva, nada fizeram, não as defenderam, não denunciaram. A outra coisa foi que duas mulheres que também estavam na festa foram separadas das outras e não foram tocadas. Essas eram as namoradas dos dois mandantes do crime. Essas duas características aparentemente menores do crime é que revelam o tipo de misoginia perversa que se esconde dentro da sociedade. Os homens que não participaram ativamente do crime, de alguma maneira entenderam que aquilo não era nada demais. É um direito dos homens estuprarem mulheres. E as esposas dos criminosos não foram violadas pois, afinal, já eram propriedade de alguém. As outras não foram poupadas pois afinal, não existia nenhum homem que zelasse pela segurança desse ‘bem’.” (da Renata Correa, leia aqui).

“De vez em quando, especialmente quando acontecem casos de violência e crueldade quase indescritíveis contra a mulher, ressurge a frase: “toda mulher tem uma história de horror pra contar”. Acontece que eu não tenho. (…) Isso quer dizer o quê? Que sou especial? Ou que as outras mulheres inventam e se vitimizam? Não. Não. Não. Isso quer dizer que é possível. Que não são “os homens” que estupram “as mulheres”, que não há uma lei natural que determine que “isso sempre aconteceu e sempre vai acontecer”. Isso quer dizer que não é um fenômeno imutável sobre o qual devemos lamentar em voz baixa e rezar para que não aconteça com ninguém que a gente conhece. Não. Não. Não.” (da Luciana Nepomuceno, leia aqui).

Para completar a trilogia do horror, uma menina de 12 anos foi estuprada dentro de um ônibus no Rio de Janeiro, com outras passageiras dentro, cobrador e motorista. Sem precisar se esconder, sem precisar de nada além de uma arma. O agressor não fez reféns, não ameaçou ninguém exceto a criança. Entrou e saiu. Assim.

Esses três crimes tem algo em comum: são crimes de gênero contra mulheres. São resultado de uma cultura machista que objetifica a mulher. Somos um corpo, nestes termos, e não seres humanos, pessoas. Na época do sequestro e assassinato de Eloá Pimentel, a sobrevivente Nayara deu declarações comentando que, no cativeiro, Lindemberg a chamava de “Barbie”. Nada mais ilustrativo do que uma boneca pra evidenciar, novamente, esta relação.

Esta semana eu caminhava na rua e passei em frente a uma feira sendo desmontada. Muitos homens e poucas mulheres. A rua não estava vazia mas também não estava cheia. No bairro da Vila Madalena, em São Paulo. Um dos trabalhadores da feira, ao me ver passar, exclamou em (bem) alto e bom som: “Parabéns, hein, princesa, assim sim…”. Ele devia estar a uns três metros de mim, se muito. Eu já me aproximava do meu destino, uma farmácia que fica bem na frente do local onde fui assediada. Não tive dúvidas e, em silêncio, mostrei o dedo do meio pra ele com uma expressão no rosto que provavelmente denotava todo o ódio que qualquer vítima de qualquer tipo de assédio sente. Ele se surpreendeu: “Nossa, que é isso…”, disse. Eu juntei minha raiva e gritei mais alto, para a feira toda escutar: “Não estou aqui pra você ficar olhando, caralho”. Assim, com palavrão e tudo. Entrei na farmácia. Quando saí ninguém ousou nem olhar pra mim.

Sei que nem sempre é o mais sensato a fazer. Naquela circunstância, considerei que era apropriado. O risco de uma ação violenta, sei muito bem, não depende da minha reação, nem da roupa que eu uso e, aparentemente, nem da rua estar vazia ou não. Os crimes de gênero que mencionei no início do texto têm testemunhas, aconteceram na luz do dia e dois tiveram homens conhecidos como agressores. Não há nada que me convença de que eu posso provocar ou deixar de provocar um acontecimento destes. Nem vocês.

“’Não é de se espantar’, diz Cook, ‘que nós mulheres culpemos umas às outras, considerando que fomos criadas para nos culparem enquanto mulheres’. Agnew-Davies concorda e acrescenta que este foco obsessivo na vítima resulta na invisibilidade do agressor. ‘Para as mulheres é muito mais frequente sobrevivermos com a idéia de que podemos prevenir um estupro mudando nosso comportamento do que vivermos com a imprevisibilidade e admitirmos pra nós mesmas que o agressor será muito mais provavelmente alguém que aconhecemos e amamos do que um estranho’.” (de Julie Bindel, no The Guardian, leia aqui a tradução).

O assédio na rua, conhecido de todas as mulheres brasileiras (ou quase todas), não chega perto do sofrimento dos estupros e assassinatos que tomaram a mídia. Mas tem em comum com eles, no pano de fundo, a ideia corrente de que nós mulheres somos apenas corpos sem desejo próprio e, pior, disponíveis.

“Ser biscate é um privilégio” (no Biscate Social Club, leia aqui).

PS: poucos dias depois de ter escrito este texto, uma mulher foi assassinada por reagir a uma cantada na rua durante o carnaval no Rio. Tremo de indignação, como diria Che, num mundo como este.


> Edições anteriores da coluna:

 

Bispos, sexo morno e os “bem-amados”
Das duas, uma: ou o religioso que atacou ministra Eleonara projetou suas frustrações afetivas; ou deixou aflorar seus desejos políticos…
(14/2/2012)

Aos indignados da sacolinha
E se a resistência à mudança de hábitos indicar que colocamos a Ética do Consumidor acima de todas as outras?
(6/2/2012)

O emblemático Oscar de Melhor Atriz
Pergunta que não quer calar: a escolha da Academia levaria em conta algo mais, além da capacidade de interpretar?
(30/1/2012)

A Casa
Sete rolos compressores sujando as minhas e as suas mãos de sangue. A intimidade violada de milhares de famílias. No domingo, dia de “casa”
(23/1/2012)

A cena do Big Brother é um problema do Brasil
“Estupro de vulnerável” consta no Código Penal. Comum e terrível, precisa ser punido: a Globo não está acima da lei
(16/01/2012)

“Mulher Alternativa” estreia em Outras Palavras
Coluna semanal defende radicalmente a igualdade, não crê em libertação “definitiva” e aposta que feminismo combina com liberdade sexual
(9/1/2012)

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Marília Moschkovich

(@MariliaMoscou) é socióloga, militante feminista, jornalista iniciante e escritora; às segundas-feiras contribui com o Outras Palavras na coluna Mulher Alternativa. Seu blog pessoal é www.mariliamoscou.com.br/blog.

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  1. Não será fácil superar três mil anos de patriarcado, machismo e a visão da mulher como reprodutora, mercadoria ou recurso político para juntar fazendas, fazer as pazes entre reinos, ser isca para atrair consumidores… Mas é importante também, penso eu, que as próprias mulheres não se submetam a determinadas situações, mesmo aquelas tidas como profissionalmente aceitáveis dentro no modelo de exploração (corporal, principalmente) capitalista.

  2. Pingback: O MMA sem preconceitos

  3. Pingback: Planejamento familiar ou controle de natalidade?

  4. Pingback: O vagão para mulheres só anda para trás

  5. Concordo com grande parte de texto.
    Mas, pense bem, qual foi o motivo para ser tão grossa e mal educada com o sujeito que te elogiou???? Por acaso ele te ameaçou???
    Ele só fez um comentário, e vc foi muito mal educada!!!! Faltou “jogo de cintura”, vc poderia muito bem ter saído desta situação simplesmente ignorando ou tirando um sarro do sujeito. E é claro que nenhum homem depois da sua “atitude” iria sequer olhar para vc. Vc conseguiu o que queria: o desprezo deles.
    Esse é o grande erro do movimento feminista: achar que “todo” homem é um estuprador em potencial. E atitudes como a sua apenas reforçam esta “guerra dos sexos”, aumentando o ódio recíproco entre homens e mulheres.
    Pense nisso.

    Obrigado.

    • O “comentário” dele a ofendeu. Mais mulheres tem que fazer isso, talvez seja uma maneira efetiva de fazer esse tipo de assédio diminuir. Ser educadinha, fingir que não ouviu, abaixar a cabeça tentando se tornar invisível pra não ter que ouvir merda, não está funcionando.. Mulheres querem andar na rua em paz, não ser notadas por homens.
      Pense nisso.

    • É uma pena ter encontrado esse texto depois de tanto tempo, mas como ele foi divulgado em outros blogs imagino que mais pessoas possam lê-lo com o mesmo atraso. Eu não pude deixar de responder esse comentário pelo simples motivo de que pensamentos como deste Paulo são a causa de muitos de nossos problemas. Paulo, imagino que você tenha uma mãe (se não, pense numa irmã, filha, esposa, amiga querida). O que acha que ela pensaria ao receber um “elogio” desses na rua? Acredite, eu duvido que a autora do texto estivesse passando por aquela rua para ser avaliada por homens. Isso soa mais ou menos assim: “Mulher, gostaria de informá-la que, seguindo meus padrões de beleza, seu corpo me agrada. Que você tenha o prazer e a honra de saber que aprecio seu corpo e te daria o prazer de te estuprar se tiver tempo disponível pra você.”
      Me responda, como cargas d’água eu vou saber discernir que homem quer me estuprar e qual quer apenas me tratar como um pedaço de carne pendurado no balcão do açougue? Por acaso a mulher tem que andar pela rua de cabeça baixa, correndo e olhando pra trás a cada minuto pra saber se aquele bêbado que assoviou pra ela não está seguindo seus passos esperando uma oportunidade de atacar? Porque isso acontece, e infelizmente não andamos pela rua com bolas de cristal pra saber quem é o porco sádico canalha estuprador que está te esperando na rua vazia.
      Sabe por que as mulheres não gostam de cantadas? Porque elas não se importam com a sua opinião a respeito do corpo delas. Você acha que sim, e algumas mulheres podem até gostar, mas elas não são nem de longe a maioria. Se uma mulher pedir a sua opinião, fale. Se ela não pedir, guarde pra você. A única opinião que ME importa é a do meu namorado, mas infelizmente os machistas de plantão não se importam com o que me importa.
      Na boa, tente fazer uma reflexão: uma menina, marcada pelo trauma de ter sido violentada, anda pela rua ainda se recuperando da dor e do desrespeito. E TUDO o que ela não encontra é RESPEITO. Isso só serve para lembrá-la do quão insignificante ela é, que não merece nem mesmo andar pela rua livre, ela não passa de um bibelô criado para ser analisado por homens a seu bel prazer.
      É ridículo que vocês ainda defendam esse tipo de comportamento e critiquem a atitude da autora, é óbvio que o que ela queria ERA MANDAR O CARA SE FODER e estava pouco se lixando para o que ele pensava ou deixava de pensar. E eu aqui, escrevendo um texto para explicar algo assim. O cara teve uma atitude desprezível, mereceu uma resposta a altura, uma violência que passa barata apenas vai estimular o pensamento escroto desse tipo de homem que pensa com a cabeça… do pênis.

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