Dos hábitos da leitura

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Viajo cheia de livos e vou abandonando-os pelo caminho: em trens, hotéis, aeroportos, cafés. Não preciso saber quem os lerá. Em minha fantasia, este desconhecido será a pessoa ideal

Por Maria Bitarello | Imagem: Winslow Homer, The New Novel (1877)

“Fora o cachorro, o livro é o melhor amigo do homem.
Dentro do cachorro é muito escuro para ler.”
Groucho Marx

Às vésperas de uma viagem internacional me pego pensando sobre os livros que levarei. Não me adaptei aos e-books, e sei que numa situação como essa eu poderia levar dezenas de tomos ocupando o espaço de uma antiga calculadora. Mas eu sou old school e levo o livrão mesmo. A meu favor, tenho o desapego do objeto “livro” uma vez concluída a leitura. O fetiche não reside em colecioná-los, embora eu tenha centenas deles. O deleite está na leitura em papel. Uma vez lido, prefiro pensar nele chegando às mãos de outra pessoa, assim como aprecio receber um livro usado. O objeto vem e vai carregado de significado e, mais que isso, de histórias.

Já que não consigo superar o livro em papel e eles são pesados em viagens, desenvolvi o hábito de abandoná-los pelo caminho. Às vezes eles são dados diretamente a alguém, mas em outras tantas são largados mesmo. Em ônibus, trens, aviões, hotéis, aeroportos, cafés. Escolho um lugar e deixo-o ali. Não preciso saber quem será o novo leitor nem quero me corresponder com ele/ela, mas a-d-o-r-o a ideia de que o volume vai cair nas mãos de um desconhecido. E, na minha fantasia, esse anônimo será a pessoa ideal. Porque tem disso com livros. Tem o livro certo, com a pessoa certa, mas sobretudo a hora certa. Na nossa vida e na do livro; quando estamos prontos um pro outro.

Pois bem, esse hábito de abandonar os livros em viagens passou a me influenciar de tal maneira que agora não só penso no que eu quero ler, mas também no que meu leitor sucessor poderá apreciar mais. E no caso de uma viagem internacional, a pergunta se torna ainda mais estimulante. Que livros, que histórias, que autores, atravessam fronteiras geográficas, culturais, econômicas, raciais, de fuso horário e sobrevivem, ao tempo e ao deslocamento?

TEXTO-MEIO

Os clássicos, é o que me digo. Olho pro Dostoievsky aqui na cabeceira da cama. Esse, não há dúvida, é clássico. Nenhum leitor de hoje, naturalmente, viveu na Rússia do século 19; e nem precisa, porque a obra atravessa os séculos. Cito Ítalo Calvino: “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”. E por que será? Suspeito que seja porque um clássico, despido de suas roupas de época, sobrevive graças a seu poder de alcance daquilo que há de mais universal: o íntimo. E nesse lugar, nesse espaço-tempo, somos todos bichinhos parecidos.

O clássico, sendo assim, deve ser aquele que consegue continuamente transportar pessoas das mais variadas pra um mundinho onde vivemos as escolhas éticas de um outro ser, um personagem, que, como eu, sente amor, inveja, honra, compaixão, medo e vergonha. Colocar-se no lugar de e viver junto as angústias de Raskolnikov, em Crime e Castigo, talvez só não seja mais revelador sobre o caráter do leitor – do seu pior e do seu melhor – do que sobre o do próprio escritor. Ler um livro desse calibre é, forçosamente, olhar-se no espelho. E sabemos que isso não é fácil. Mas escrevê-lo é despir-se em público.

Na minha família, a leitura não é só um hábito, é uma afirmação do ser. Leio, logo existo. Cresci acreditando que quem não lê não tem vida interior, não sabe ficar só, e que no fundo, no fundo há um tipo de leitura ideal pra cada um: conto, romance, quadrinhos, bíblia. A vida é muito preciosa pra não dedicarmos uma enorme porção dela à leitura. Em minhas certezas obtusas, só fui aprender muito mais tarde que o leitor voraz, essa ave rara, também é passível de críticas. Dentre as que já ouvi, escapismo da realidade, uso do livro como escudo ao convívio social, por aí vai.

Embora discorde, há verdade nisso também. De fato, fantasio em passar tardes inteiras lendo, sozinha. Minto pra fugir de compromissos sociais e ficar com um livro amado. Várias vezes. Leio em público pra evitar papo furado. Li livros inteiros durante aulas insuportáveis de química na escola. Levava, adolescente, um livro escondido na bolsa pras festas de amigos – essas onde a gente começa a beber, fumar um, dar uns amassos – e, de vez em quando, dava uma fugidinha pro quarto pra ler umas páginas. Afinal, quem tem um livro consigo nunca está entediado. Acho que hoje o celular serve a esse mesmo propósito. Diante do menor sinal de tédio, sacamos ele do bolso – só que com menos reprovação.

Não creio que a leitura seja fuga. Porque ela demanda coragem. Todas as artes proporcionam esse elixir espiritual extracorpóreo e que, ao mesmo tempo, nos aterra. Mas ao contrário das demais linguagens, a literatura – e o romance em particular – pressupõe uma convivência íntima e prolongada com uma história. Só um livro pode me acompanhar por semanas, meses até. Ainda que, com o tempo, os detalhes narrativos se esvaiam da memória, permanecerá comigo, firme e mutante, sua sensação. Quem eu era, onde estava. Dedique sua vida a ler os clássicos, pensei. Há mais aprendizado sobre a condição humana neles que em qualquer outra forma de experiência – excetuando as peças do Teatro Oficina.

Agora, com as malas prontas, concluo que mais que preguiça ou descaso, deixar meus livros pra trás, como migalhas de pão, é um ato de amor. A literatura dá sentido à vida. Ela afina a alma, alinha os chacras. Ainda nem fui pro aeroporto, mas já começo a fantasiar quem será o próximo leitor dos livros que abandonarei nessa viagem. Quem é que vai se olhar no espelho. Se será o livro certo.

TEXTO-FIM
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Maria Bitarello

Escritora, jornalista e tradutora. Mestre em Literatura Brasileira e Portuguesa pela UCLA. Só sei que foi assim (2014) é seu primeiro livro. Outros trabalhos seus estão no blog ioncemetagirl.com