Cartas da Guanabara: Vai dar praia

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“Domingo sem sol no Rio é uma tragédia. É um pesadelo. É pior do que acordar e descobrir que está em São Paulo. Não, pior não é. Ih, olha ali, tem um pedacinho do céu aparecendo”

Por Daniel Cariello | Imagem: Marcos Teixeira Estrella

Vai dar praia! É domingo, todo mundo vai chegar lá: o Cabelo, a Ritinha, o Jão, o Tatu, a delícia da Mari, o Biscoito, a Vanessa, a Cris, ai, a Cris. Vou abrir a janela pro sol bater e já ir entrando no clima. Merda, não tem sol, tudo nublado, Cristo coberto, não vai dar praia. Não é possível. Domingo sem sol no Rio é uma tragédia. É um pesadelo. É pior do que acordar e descobrir que está em São Paulo. Não, pior não é. Ih, olha ali, tem um pedacinho do céu aparecendo. Vai dar praia, com certeza. Não vou nem precisar colocar sunga porque já dormi com ela. Vou bater um açaí com três bananas, não, quatro, e ralar pro Coqueirão. Um pingo? Dois? Que é isso, vai chover? Não fode. Caraca, não vai dar praia. Ô, São Pedro, mané, segura essa água aí, é domingo, proibido chover no Rio. Alô, Cabelo, tá cabuloso o tempo por aqui, como tá pra esse lado? Acha que vai abrir? Dá praia? Show. Daqui a pouco tô caindo praí. Ducha rápida, tirar essa cara de sono. Escolher a roupa. Camiseta branca, bermuda verde, Havaianas brancas. Formô. Alô? Fala, Cabelo, tô saindo. O quê? Chuva sinistra? Pô, maluco, fala que tá de sacanagem. Tá não? Putz, avisa se mudar. Caceta. Não é possível. Vou ver a previsão do tempo. Chuva. Em outro site. Chuva. Mais um. Possibilidade de chuva. Confio mais nesse. Vai dar praia, com certeza. Só preciso de um pouco de paciência. Vou pensar em outra coisa. Em quê? Em ovos, isso. Não, ovo estrelado lembra sol, que lembra praia. No Sílvio Santos. Isso, foca no Sílvio. Não rola. Sílvio Santos lembra SBT, que lembra Chapolim, que lembra México, que lembra Copa do Mundo, que lembra futebol, que lembra futevôlei, que lembra praia, que não vai dar hoje. Vou ligar pra outro. Tatu, tu tá indo pra praia? Tá? Também tô, então. O quê? Recife? Não tá no Rio? Pô, Tatu, tá de brincadeira. Alô? Ritinha? Jão? Biscoito? Ninguém vai? Bando de molenga. Todo mundo com medo de uns pinguinhos de nada. Eu vou assim mesmo, sozinho. Tasquiupa, toró é foda. Aí também não rola. Vou ligar a TV e esperar passar. Não acredito, tem sol em Santos e não tem aqui. Cabelo, desce. Bora pra Santos, lá deu praia. Isso, perto de São Paulo. Só não conta pra ninguém. Tô chegando em quinze.

TEXTO-FIM
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Daniel Cariello

Daniel Cariello é colaborador de Outras Palavras e, antes, do Diplô Brasil, desde 2008. Já lançou dois livros de crônicas, Chéri à Paris (2013) e Cidade dos Sonhos (2015), ambos best sellers na Amazon. Foi cronista de Veja Brasília e Meia Um. Este texto faz parte de seu novo projeto, Cartas da Guanabara, com crônicas cariocas. É editor do selo literário Longe.

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