Coreias: do conflito a uma possível confederação

Eleições no Sul podem desencadear processo de entendimento que criaria grande polo geopolítico – e reforçaria emergência das “periferias”

Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Daniela Frabasile

A Coreia voltou ao palco mundial como um ponto central da cena geopolítica nessa década. Ela irá afetar de maneira importante o futuro da China, do Japão, dos Estados Unidos e talvez também da Rússia também. Porém, paradoxalmente, seu futuro depende principalmente dela mesma.

A Coreia é um caso raro – um país com uma história muito longa como entidade política e cultural, com vários graus de unidade como um reino único. Nos tempos modernos, era um estado independente até que o Japão transformou-a num protetorado em 1905, e depois anexou-a, em 1910. A derrota japonesa na II Guerra acabou com seu domínio sobre a Coreia. Nos últimos dias da guerra, tropas norte-americanas e russas entraram no país, encontrando-se no paralelo 38. Dois estados surgiram, a República Popular Democrática da Coreia (ou Coreia do Norte) e a República da Coreia (Coreia do Sul).

Em 1950, as duas Coreias envolveram-se numa guerra. Como ela começou ainda é assunto de controvérsia. Os Estados Unidos, aproveitando a ausência da União Soviética no Conselho de Segurança, foram capazes de mobilizar a ONU em apoio militar Pa Coreia do Sul. Tropas de 16 países foram enviadas ao país, sob o guarda-chuva das Nações Unidas, apesar de os soldados norte-americanos constituírem mais de 80% do total. Logo depois, as tropas chinesas entraram na Coreia do Norte para defendê-la contra os exércitos dos Estados Unidos/ONU. A Guerra da Coreia tornou-se então também (e principalmente), uma guerra entre China e Estados Unidos.

TEXTO-MEIO

Em 1953, o conflito estava em um beco sem saída, e os dois lados assinaram uma trégua, em uma fronteira que quase coincidia com o paralelo 38. Em suma, a guerra terminou em empate. Tecnicamente, nunca terminou. Não há tratado de paz, mas também não há guerra, apesar de ainda existir uma grande hostilidade e escaramuças, de tempos em tempos. Em 1957, os Estados Unidos romperam uma cláusula do acordo de trégua e introduziram armas nucleares na Coreia do Sul, sob protestos dos norte-coreanos.

Em 2003, depois do colapso da União Soviética, a Coreia do Norte retirou-se do Tratado de Não-Proliferação Nuclear e buscou conversações bilaterais com os Estados Unidos, em um tratado de não-agressão. Os Estados Unidos recusaram as conversações bilaterais, mas propuseram conversações entre seis países, que incluiriam também Coreia do Sul, Japão, China e Rússia. Em 2006, a Coreia do Norte anunciou um teste nuclear, e em 2009 comunicou que havia produzido uma arma nuclear. Nos últimos dias, alguns intelectuais sul-coreanos designaram a situação com um neologismo. Eles dizem que a Península Coreana está em um estado de “impacificação” [peacelessness].

O objetivos dos Estados Unidos em levar a Coreia do Norte a rechaçararmas nucleares não foi alcançado. Por outro lado, este país tem sofrido, há muito tempo, escassez aguda de alimentos, parcialmente explicada pela insistência do regime em priorizar os gastos militares.

O nacionalismo coreano é extremamente forte, e tanto o sul quanto o norte afirmam buscar uma reunificação. Mas em que termos? O nível de suspeita mútua é alto. E a atitude da Coreia do Sul frente a essa perspectiva divide profundamente os sul-coreanos.

Em 1961, o sul-coreano Park Chung-hee liderou um golpe de estado militar e governou como ditador até 1979, quando foi assassinado. Park acreditava que a reunificação era apenas possível e desejável se envolvesse a queda do regime norte-coreano. Em 1980, estudantes lideraram uma revolta criticando os Estados Unidos e pedindo a democratização do regime. O movimento foi brutalmente reprimido.

Depois disso, forças conservadoras dominaram a política sul-coreana até que um partido de centro-esquerda, liderado pelo dissidente Kim Dae-jung, ganhou as eleições, em 1997. Ele inaugurou a chamada Sunshine Policy. O nome se refere a uma fábula de Esopo, segundo a qual é mais fácil fazer uma pessoa tirar seu casaco se o dia está insolarado do que quando há ventania. A política teve como foco procurar formas concretas de cooperar com a Coreia do Norte e repudiar qualquer tentativa de absorver o país vizinho. Kim ganhou o Prêmio Nobel da paz em 2000 por sua política, continuada por seu sucessor, Roh Moo-hyun, que governou entre 2003 e 2008.

Em 2008, os conservadores ganharam novamente a presidência, em parte porque a abertura à Coreia do Norte não obteve sucesso e em parte por causa de escândalos que afetaram o governo de Roh. O novo presidente, Lee Myung-bak, repudia ferozmente a Sunshine Policy, e adotou uma política hostil, ainda mais que a dos Estados Unidos.

Hoje parece claro que nem a China, nem os Estados Unidos, nem Japão ou até mesmo a Rússia atuam em favor da reunificação. Todos preferem as coisas como estão. Ainda assim, as forças favoráveis a reunificar as Coreias ao longo da próxima década parecem mais fortes.

Há dois fatores nessa nova situação. Um é a aproximação da eleição na Coreia do Sul, marcadas para 19 de dezembro. Os conservadores promovem a filha de Park Chung-hee, Park Geun-hye, que tem insistido na defesa total da política de seu pai.

As forças de centro-esquerda estão atualmente divididas entre dois candidatos. Moon Jae-in é o candidato do partido de centro-esquerda e defende a renovação da abertura à Coreia do Norte. Também concorre um candidato independente, Ahn Cheol-soo, que se apresenta como um candidato anti-político, apelando para aqueles que estão descontentes com os dois partidos. Porém, seu programa é virtualmente idêntico ao de Moon Jae-in.

As pesquisas mostram que se os dois candidatos de centro-esquerda permanecerem na corrida, o candidato conservador ganhará. Entretanto, as pesquisas também mostram que se um dos dois se retirar em favor do outro, as forças de centro-esquerda provavelmente vencerão. A probabilidade de um se retirar é alta. A grande questão é quem fará isso.

Se as forças de centro-esquerda ganharem, qual será a resposta da Coreia do Norte? Ninguém sabe. Mas todos perceberam que as movimentações iniciais do novo líder, Kim Jong-um, parecem ser diferentes da política de seu pai, Kim, Jong-il. Ele parece estar mais preocupado em assegurar um aumento da renda real para o norte-coreano comum, e mais aberto a mudanças. Pode acolher um pouco de sol vindo do sul.

Se as forças de centro-esquerda ganharem no sul e o novo líder no norte for de fato mais aberto, o mundo pode assistir, na próxima década, ao surgimento de algo como uma confederação suave entre norte e do sul – ignorando o medo real da China e dos Estados Unidos.

Uma Coreia reunida terá um impacto enorme na geopolítica do nordeste asiático, e na própria geopolítica mundial. Possivelmente, servirá de moderadora entre a China e o Japão, e pode viabilizar o surgimento de uma estrutura comum entre os três estado. Pode resultar na transformação da Coreia do Sul, Japão e Taiwan em potências nucleares.

Além disso, uma Coreia unificada irá se somar ao reposicionamento do Egito e à posição geopolítica cada vez mais forte do Brasil, para consolidar a redistribuição de poder geopolítico no mundo inteiro. E, permitam-me a repetição, isso está nas mãos dos próprios coreanos.


*Immanuel Wallerstein é um dos intelectuais de maior projeção internacional na atualidade. Seus estudos e análises abrangem temas sociólogicos, históricos, políticos, econômicos e das relações internacionais. É professor na Universidade de Yale e autor de dezenas de livros. Mantém um site. Seus textos traduzidos publicados por Outras Palavras podem ser lidos aqui

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Immanuel Wallerstein

Immanuel Wallerstein é um dos intelectuais de maior projeção internacional na atualidade. Seus estudos e análises abrangem temas sociólogicos, históricos, políticos, econômicos e das relações internacionais. É professor na Universidade de Yale e autor de dezenas de livros. Mantém um site onde publica seus textos (http://www.iwallerstein.com/).