Cockburn, sobre Brasil: “sou contra prisões arbitrárias”

Patrick-Cockburn

O grande repórter e analista do Oriente Médio examina as possíveis reviravoltas na região, após o golpe na Turquia. Também esclarece: jamais defendeu arbitrariedades do governo Temer

Patrick Cockburn, entrevistado por Antonio Martins

Conhecido por suas análises sobre o Oriente Médio — ao mesmo tempo profundas e não convencionais — o jornalista irlandês Patrick Cockburn parecia ter feito uma reviravolta política, aos olhos de quem lesse a entrevista que concedeu à “Folha de S.Paulo”, há dez dias. A edição do texto — publicado com destaque no jornal e no portal UOL — apresentava Cockburn como apoiador de uma medida que gera preocupação e intranquilidade crescentes, entre os que defendem os direitos humanos: a prisão por tempo indeterminado, em Campo Grande, de dez supostos “terroristas islâmicos”. Isolados num presídio de segurança máxima desde 27/6, eles não puderam, até hoje, encontrar-se com seus advogados. A Polícia Federal, que determinou as prisões, não apresentou até agora um único indício do que supostamente planejavam. Crescem os sinais de que a prisão não visa proteger população mas, ao contrário, produzir um ambiente de medo e usá-lo como pretexto para restringir as liberdades, em meio a um golpe de Estado.

Como tradutor de “A Origem do Estado Islâmico” — livro indispensável, em que Cockburn associa o surgimento do ISIS às agressões ocidentais ao Oriente Médio — fiz questão de entrevistar o autor, que mantém diálogo constante com a editora Autonomia Literária. Respondeu prontamente. Acrescentou, a sua análise aguda sobre os conflitos e a geopolítica da região, impressões relevantes sobre o que pode ocorrer após o fracasso do golpe de Estado na Turquia. Uma das observações é: todos, no país, independentemente de sua posição política, enxergam o provável envolvimento dos EUA, na intentona. Ao fim, Cockburn esclarece: em meio a uma maré crescente de atentados, defende — é claro — o direito dos Estados a interrogar quem posta, nas redes sociais, mensagens de adesão ou apoio a tais atos brutais. Mas frisa, especificamente sobre o Brasil: “não sei nada sobre a circunstância deste caso”; e “sou absolutamente contra a prisão arbitrária de qualquer pessoa”. Fique com a breve entrevista e tire suas próprias conclusões. (A.M.)

TEXTO-MEIO

Você acaba de vir da Turquia. Escreveu há dias que a reação ao golpe de Estado fracassado, articulada pelo presidente Erdogan, pode ter um imenso impacto na geopolítica regional. Isso poderia ajudar também a finalizar com a guerra na Síria e assegurar a estabilização do Iraque?

Sim, a turbulência na Turquia terá efeitos positivos e negativos sobre a guerra na Síria e no Iraque quando se trata de levá-las a um fim. Positivo é que a Turquia estará absorvida em seus próprios problemas internos e não será capaz de dar tanto apoio aos movimentos jihadistas como a al-Nusra e Ahrar al-Sham. Ela está buscando melhores relações com a Rússia por causa da piora no relacionamento com os EUA pós-golpe (porque Feithullan Gulen está nos EUA e porque o governo turco suspeita que o governo norte-americano esteja envolvido no golpe). A Turquia quer enfraquecer os curdos sírios, mas suas opções militares estão mais limitadas que antes, por conta do enfraquecimento do exercito turco. Uma maneira de enfraquecer os curdos na Síria pode ser fechar as fronteiras para a jihad e deixar Assad capturar Aleppo, para então observar o exercito sírio apertar os curdos.

Por outro lado, é provável que haja mais islamização na Turquia pós-golpe e uma atmosfera mais simpática para o Estado Islâmico (ISIS) e outros grupos jihadistas.

Em um dos seus artigos recentes, você disse que quase todo mundo na Turquia acredita que os EUA estejam por trás da tentativa de golpe. Você parece suspeitar que essa suposição está correta. Por que?

Seria estranho se a inteligência norte-americana não soubesse algo sobre o golpe e o que os seguidores de Gulen estavam fazendo. Essa é uma questão muito importante para os EUA e há tempos eles têm se posicionado para cultivar fontes dentro das forças armadas turcas – da mesma forma com o movimento do Gulen, com quem eles têm uma confortável relação de longa data. Os turcos tendem em acreditar na conspirações e nesse caso eles estão provavelmente certos.

Erdogan agiu, durante anos, como aliado estratégico de Washington. Por que os EUA não reagiram com firmeza nesta tentativa de derrubá-lo? Seu apoio não era suficiente ou seguro?

A Turquia foi um importante aliado dos EUA durante a Guerra Fria, mas a aliança perdeu fôlego desde que Erdogan tornou-se primeiro-ministro e depois presidente. Em 2003, o governo turco recusou-se a permitir os EUA de invadirem o Iraque pelo norte ou participar da invasão (embora Erdogan diga que ele pessoalmente defendia a operação). Mais importante foi o papel da Turquia em tolerar e ajudar grupos extremistas a dominar a oposição armada contra o Assad desde 2011, possivelmente sabotando os esforços dos EUA em criar uma resistência armada moderada. Os principais aliados norte-americanos na Síria são os curdos sírios, mas Erdogan deixou claro que considera-os uma ameaça maior que o ISIS. Houve também incertezas sobre a base norte-americana Incirlik na Turquia, uma vez que, há alguns dias atrás, Erdogan encontrará Putin no começo de agosto.

Turquia e Rússia anunciaram, há alguns dias atrás, o encontro entre Erdogan e Putin no começo de agosto. Como você noticiou, a intervenção russa na Síria, ano passado, começou a reverter a maré que ameaçava levar aparentemente o país ao colapso. Quais podem ser os efeitos da possível colaboração entre Rússia e Turquia para o futuro do Oriente Médio?

Uma grande questão. A Rússia diz que sua relação com o Erdogan depende das atitudes dele na Síria. Ele desistirá de pedir a renuncia de Assad, o presidente sírio, ou irá reduzir o apoio à oposição armada? Tudo é possível, mas não é provável. O menor envolvimento turco na Síria é plausível. Mas a reversão completa das alianças turcas com EUA, UE e OTAN, em direção à Rússia e Irã (a chamada “opção eurasiana”) é um passo muito mais longo, com o qual a Turquia perderia mais do que ganharia.

Neste exato momento, o governo dos EUA e seu entorno parecem divididos. O Secretário de Estado John Kerry está tentando estabelecer algum tipo de colaboração com Putin, contra o ISIS. Por outro lado, alguns “falcões”, muito presentes na campanha da Hillary Clinton, propuseram intervir diretamente na Síria, mas contra o Assad. O que essa divisão significa? Você acha que uma possível vitória da Hillary Clinton poderia radicalizar o conflito na Síria e no Oriente Médio?

Até agora, as propostas políticas de Hillary parecem ser mais “falcônicas”, de alguma forma imaginando a possibilidade de os EUA cultivarem facções anti-ISIS e anti-Assad. Obama tentou isso e não conseguiu. Hillary é mais próxima dos estabilishment de política externa em Washington, que Obama despreza (ou pelos menos afirmou isso em entrevista à Atlantic Monthly). A cooperação com a Rússia é atraente porque o país é o único com peso capaz de colocar pressão sobre Assad. Mas muitos norte-americanos não querem ampliar o poder do antigo rival da Guerra Fria. Normalmente, democratas de todos os tipos têm de provar que são durões na política externa antes das eleições (mais ainda, se o candidato for uma mulher). Isso torna mais difícil saber como Hillary agirá como presidente, particularmente com a oposição armada se enfraquecendo. Mais provavelmente agirá com a cautela com que Obama agia.

Alguns de seus leitores no Brasil ficaram surpresos com a entrevista que você concedeu semana passada para Folha de São Paulo. O jornal destacou no título sua suposta “defesa” nas prisões arbitrárias de dez pessoas, acusadas de planejar ataques terroristas durante os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Essas prisões aconteceram num contexto de golpe de Estado, que já produziu prisões políticas. Nesse caso especifico, há circunstancias estranhas: a) as pessoas detidas estão isoladas e não têm acesso a seus advogados; b) nenhuma informação sobre o que eles teriam tentado fazer – diálogos interceptados, posts na redes sociais, planejamentos, reuniões — nada foi tornado público pela polícia. Muitas pessoas acreditam, no Brasil, que as prisões estão atreladas à política de segurança das Olimpíadas, que busca criar um clima de “perigo” e, com base nisso, promover repressões contra as dissidências políticas. Você acha que nos estamos condenados a viver em um novo Estado de Emergência?

Eu sou absolutamente contra prisões arbitrárias de qualquer pessoa. Também é verdade que em certas circunstâncias os governos prendem e maltratam as pessoas para provar ao público que eles estão fazendo alguma coisa concreta contra a ameaça “terrorista”. Minha resposta simplesmente referia-se ao direito do Estado em investigar pessoas que tinham postado comentários a favor do ISIS no Facebook. Eu não sei nada sobre a circunstancia deste caso além do que estava relacionando com a pergunta que me fizeram.

TEXTO-FIM
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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras