Cinema de serra e de pampa

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O filme da minha vida

“O filme da minha vida” revela um Selton Melo talentoso e criativo, porém resvalando para o sentimental. Em “O Rifle”, Davi Pretto constroi personagem rude, seco e em confronto com capitalismo moderno

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

De 3 a 16 de agosto, a Sessão Vitrine Petrobras apresenta Rifle, de Davi Pretto, no cinema do IMS Rio.

Entram em cartaz dois bons filmes brasileiros, coincidentemente ambos filmados no Rio Grande do Sul, mas contrastantes em tudo mais. Um deles, O filme da minha vida, de Selton Mello, tem potencial para atingir um grande público. O outro, Rifle, de Davi Pretto, é um projeto comercialmente mais modesto, mas não menos ambicioso na estética e no alcance sociopolítico.

Comecemos pelo primeiro. Selton Mello já mostrou que tem talento como diretor (como ator, nem se fala). Aqui, em seu terceiro longa-metragem, ele confirma suas qualidades e mostra uma notável segurança e um esboço de marca autoral, não isenta de problemas e limitações, como veremos mais adiante.

O filme transplanta para um vilarejo da serra gaúcha a trama básica do romance Um pai de cinema, do chileno Antonio Skármeta: um rapaz, Tony Terranova (Johnny Massaro), filho de francês com brasileira, vai estudar na cidade grande e quando volta, já professor de francês, cruza na estação com o pai (Vincent Cassel), que toma o mesmo trem para ir embora, “de volta para sua terra”.

Acompanhamos então o drama desse moço na fase de transição da adolescência à idade adulta: a atração por duas lindas irmãs (Bruna Linzmeyer e Bia Arantes); a amizade com um criador de porcos (Selton Mello) que funciona como um pai substituto; a angústia pela falta de notícias do pai verdadeiro.

TEXTO-MEIO

Memória afetiva

Haverá inúmeras reviravoltas, surpresas e complicações nesse enredo. O que importa aqui é observar o modo como essa narrativa se desenrola, o mundo que ela desvela ao espectador. A localização temporal, início dos anos 1960, propicia um olhar nostálgico à vida de província, banhada por uma quase onipresente contraluz dourada que confere ao seres e objetos uma aura sentimental. O território em que tudo se passa é o da memória afetiva.

Há um tanto de Truffaut (no encantamento de Tony pelas duas irmãs) e outro tanto de Fellini (no humor maroto do grupo de alunos da escola e sua relação com o sexo), há o arrebatamento romântico das canções francesas (Charles Aznavour, Françoise Hardy), há os voos poéticos que literalmente tiram o protagonista do chão. Por momentos, temos a impressão de estar diante de um filme francês.

A par dessa operação de desenraizamento, porém, o diretor insere pontualmente referências à cultura popular-industrial brasileira que lhe são caras (como se viu em seu longa anterior, O palhaço): radionovela, bordão de “reclame” do Rhum Creosotado, Sergio Reis cantando “Coração de papel”, expressões saborosas como “faquearam o bode” e, não menos importante, a escalação de Rolando Boldrin no papel de um maquinista de trem.

Crítica e nostalgia

É curioso que, no meio desse compósito europeu-brasileiro, apareça reiteradamente um filme americano por excelência: o faroeste Rio vermelho, de Howard Hawks. Um diálogo subterrâneo se estabelece entre o épico de Hawks e a história de Tony Terranova: ambos têm em seu centro uma relação problemática de pai e filho, ainda que no western se trate de um filho adotivo.

Em mais uma volta no parafuso das referências, lembremos que em A última sessão de cinema (1972), outra evocação crítico-nostálgica da vida de província, Rio vermelho era o último filme exibido no cineminha local antes de seu fechamento. O drama de Peter Bogdanovich era mais crítico do que nostálgico, o de Selton Mello é mais nostálgico do que crítico.

Nos caminhos que se bifurcam no início e no final de O filme da minha vida há um desejo-quase-certeza de que tudo vai dar certo, uma preocupação de que a viagem do espectador seja o tempo todo prazerosa, embalada por música doce e imagens enfaticamente “poéticas” (com direito ao virtuosismo de Walter Carvalho).

Essa edulcoração da vida, ou de sua representação, que em O palhaço de certo modo se justificava pelo próprio tema da obra, é um trunfo e ao mesmo tempo um risco que Selton Mello deverá manter sob controle se não quiser se tornar um realizador de filmes sentimentais e, no limite, “água com açúcar”. Um pouco menos de música, de câmera lenta, de contraluz e de locução em off com voz rouca (uma característica do ator Selton Mello transferida a seu protagonista) talvez desse um pouco mais de vigor e pungência a esse belo cinema.

Rifle e o espaço ameaçado

Uma proposta estética quase oposta é a de Rifle. À doçura do filme de Selton Mello, o primeiro longa-metragem de Davi Pretto contrapõe aspereza. Ao transbordamento melódico, silêncios perturbadores. À profusão romanesca, escassez de acontecimentos dramáticos. Aos astros famosos, atores não-profissionais, ou melhor, não-atores, gente do próprio ambiente filmado.

A situação é a seguinte: Dione (Dione Avila de Oliveira), jovem capataz de uma pequena fazenda do pampa gaúcho, observa com amargura o esvaziamento e descaracterização da região, com o avanço dos grandes produtores de soja e da agricultura mecanizada sobre a pecuária e as propriedades menores. Ele namora a filha do patrão e se inquieta com a possibilidade de a família partir para a cidade, onde ele já viveu e com a qual se desiludiu. Sobre o seu passado só sabemos isso – e que serviu o exército, provavelmente na artilharia.

Em torno desse personagem taciturno, impenetrável, de poucas palavras e expressão imutável, e da paisagem horizontal em que ele se move, Pretto constrói uma narrativa essencialmente cinematográfica, elíptica, que não deixa claro o que se passa no plano da imaginação de Dione e o que se passa na “realidade”.

Rifle se desenvolve entre o frescor documental do dia a dia na lida do campo e o drama lacunar que somos convocados a completar preenchendo os espaços em branco. Assim como pouco sabemos sobre a vida pregressa do protagonista, também ignoramos o que ele fará em seguida, e a tensão brota da violência surda que pode explodir a qualquer momento (e que eventualmente explode).

Faroeste crepuscular

No meio dos agradecimentos constantes dos créditos finais consta o nome de John Ford. Mais do que uma piada interna, soa como um tributo sincero ao mestre norte-americano, com sua poética dos grandes espaços, sua empatia pelo homem rude do campo deslocado pelo avanço do capitalismo moderno. Rifle tem algo de faroeste crepuscular, até no seu formato scope, explorando a imensidão da planície.

Um movimento reiterado ao longo do filme é o de um automóvel, moto ou caminhão rasgando horizontalmente a extensão deserta. É esse corte, essa intrusão, que Dione quer barrar com seu rifle. Personagem estranho, enigmático, um rosto ímpar, expressivo como poucos. Sem literatura, teatro ou sociologia. Cinema em estado puro.

TEXTO-FIM
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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.