Chéri à Paris: Carta a Vinícius

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Já em casa, de volta ao Brasil, desembrulharei cuidadosamente o pedaço de comté e hei de degustá-lo em trevas totais, pensando apenas na amada Paris

Por Daniel Cariello

Paris, 6 de janeiro de 2012.

Vinícius querido,

Estou aqui no meu escritório, que é a sala da minha casa, que dá para o jardim do pátio interno que nunca é frequentado por viv’alma.

É meio dia em ponto, e o banzo lentamente se instala em mim, prenúncio das mudanças iminentes. Passo longos minutos olhando para o nada que entra pela janela e é impossível alguém estar mais reflexivo do que eu. Nesta hora, decido escrever essa carta e mesmo que nunca a envie tenho certeza de que você irá recebê-la onde estiver e entenderá o que estou sentindo.

TEXTO-MEIO

Estamos deixando Paris pra trás, depois de quase cinco anos de uma relação tortuosa com a cidade. Paris é exigente, só aceita amor incondicional. E eu não fui capaz de dá-lo no início da minha jornada, por não enxergar meu reflexo nas águas do Sena como o via na praia de Ipanema ou no lago Paranoá. Por isso muitas vezes me tranquei em mim mesmo e não foram poucos os dias em que não pus os pés fora de casa, principalmente quando o inverno me obrigava a vestir múltiplas camadas de roupa e de isolamento. Você já passou um inverno inteirinho sonhando com o sol do nosso país? É dose, Poetinha.

Quando levantei a cabeça, descobri finalmente os encantos dessa linda moça: os parques e canais e construções e monumentos, as padarias cheias de baguetes e de croissants irresistíveis, o confit de canard que dissolve na boca seguido de um gole de um bom cahors, o metrô que costura a cidade por baixo e os ônibus e bicicletas que a revelam em sua superfície, o cremoso do vacherin fresco e o perfume do comté velho, as flores da primavera e as cores do outono, o calor do verão e a neve do inverno. Acabei aprendendo que até o inverno tem seu charme, veja só.

E aí, meu caro Vinícius, quando percebi j’étais tombé amoureux de cette dame. Paris te conquista de mansinho, sem que você perceba. Ela não tem pressa, como não têm pressa as mulheres cientes de sua própria beleza, que desfilam lentamente diante de nossas retinas. E nós não temos outra escolha a não ser contemplá-las.

É verdade que estou doido para encontrar a família e os amigos do lado de lá do Atlântico, mas sentirei saudades dos que ficam por cá e dos encontros inimagináveis que só Paris é capaz de proporcionar. Veja você que tive a sorte de conversar sobre literatura com o Verissimo, sobre cidades com o Henry-Pierre Jeudy, sobre filosofia com o Lipovetsky e voltei a calçar chuteiras para bater umas boas peladas com o Chico. Fiquei até amigo do Philippe, filho mais velho do seu companheiro eparceiro Baden, o que me fez sentir que conheci um pouco você, por tabela.

Poetinha, quando eu chegar a Brasília, vou correr no Xique-Xique e pedir uma carne de sol completa com mandioca bem molinha, feijão de corda, paçoca e muita manteiga, acompanhada de uma cerveja estupidamente gelada. Vou me dar uma boa dose de brasilidade, que afinal é o motivo principal da nossa volta para minha terra natal.

E mais tarde, em casa, irei desembrulhar cuidadosamente o pedaço de comté que certamente levarei e hei de degustá-lo morosamente, em trevas totais, pensando apenas na amada Paris.

Daniel

TEXTO-FIM
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Daniel Cariello

Daniel Cariello é publicitário e editor do blog Chéri à Paris, que relatava sua relação com a vida e a cultura francesa. Regressou ao Brasil em 2012 mas, em férias na França, retomou a produção das crônicas. Seus textos em Outras Palavras podem ser encontrados aqui.