BRICs, ruptura e continuidade

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Praticamente ignorada pela mídia tradicional, a II Cúpula dos BRICs, que começou ontem em Brasília, é de enorme interesse para quem quer investigar as contradições de nossa época. Os chefes de Estado dos quatro países mais influentes no Sul político do planeta (Brasil, China, Índia e Rússia, na ordem alfabética) encontraram-se (pela segunda vez, desde a criação do grupo) em Brasília. Antecipada em um dia (porque o presidente chinês, Hu Jintao, regressou a seu país às pressas, devido a um grande terremoto no Noroeste do país), a reunião abriu uma série de outros conclaves, que se estenderão entre esta sexta (16/4) e o fim-de-semana. Entre outras, haverá reuniões de empresários, ministros, bancos de financiamento, think-tanks (como o IPEA). Também no fim-de-semana, e ainda em Brasília, reúne-se um outro grupo novo na paisagem geopolítica mundial: o IBAS, de que participam África do Sul, Brasil e Índia.

Há dez anos, uma reunião como a de agora teria, no máximo, efeito decorativo. Mas o mundo mudou. No documento final lançado ontem, os chefes de Estado (além de Lula e Hu Jintao, Manmohan Singh, da Índia e Dmitri Medvedev, da Rússia) reivindicam expressamente mudança na composição dos órgãos dirigentes do Banco Mundial e FMI. Pedem urgência: a recomposição deve se dar antes da próxima reunião do G-20, em novembro. Defendem reforma no sistema financeiro internacional. Comprometem-se a reforçar seus mercados internos, como meio de continuar enfrentando a crise econômica — que, segundo frisam, “ainda não terminou”.

Além destas propostas de curto prazo, a reunião poderá produzir efeitos imediatos. Os bancos de investimentos dos quatro países (o BNDES e seus correlatos) constituíram um fundo que poderá reunir dezenas de bilhões de dólares e será voltado para financiar infra-estrutura, energia e produção de alimentos. Num encontro à parte, Lula pediu a Jintao que a China continue evitando, no Conselho de Segurança da ONU, as sanções que os Estados Unidos pretendem impor ao Irã. Os dois países assinaram também um protocolo de intenções para que o comércio bilateral passe a ser feito em moedas dos dois países — não mais em dólares. Definiram uma agenda de diálogo sobre políticas internacionais de direitos autorais. Ampliaram as possibilidades de empréstimos chineses à exploração, pela Petrobrás, das jazidas do pré-sal.

Num artigo publicado hoje, em O Estado de S.Paulo e outros jornais (leia aqui), Lula volta a sinalizar que ficaram para trás os tempos em que se curvava à ortodoxia financeira. “Desabaram as verdades sobre a desregulamentação dos mercados. Ruiu o ideal do Estado mínimo. A flexibilização dos direitos trabalhistas deixou de ser um mantra para combater o desemprego. Quando despencaram todas essas ortodoxias, foi a mão visível do Estado que protegeu o sistema econômico do colapso criado pela mão invisível do mercado”, diz ele.

Os fatos novos criados, e as declarações emitidas, são passos importantes para uma ordem mundial menos hierarquizada. Os BRICs reúnem 40% da população do planeta e 15% do PIB. É quase um escândalo que estivessem, até há bem pouco, à margem das decisões internacionais importantes.

Mas uma coisa é reivindicar  poder menos concentrado; outra é propor projetos distintos para o planeta. Avançada do ponto de vista geopolítico, a agenda dos governos do BRIC é de timidez chocante, do ponto de vista das alternativas. Os projetos comuns definidos reforçam — ao invés de enfrentar — alguns dos aspectos mais típicos do modo de produção e consumo sob o qual vivemos. Geração de energia a partir de combustíveis fósseis. Consumo dos recursos naturais para uma industrialização cega e poluente (China e Brasil construirão, no porto fluminense de Açu, uma siderúrgica de 10 bilhões de dólares). Reprodução dos padrões de vida desenvolvidos no Norte (segundo a consultoria CSM Worldwide, os BRICs dobraram, em cinco anos, sua presença na produção mundial de automóveis, já sendo responsáveis por 30%).

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Para a projetos alternativos ao capitalimo, continua necessário algo mais que reuniões de chefes de Estado…

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras