Belchior, um de nós

170501-Belchior

Para cantar sua aldeia, colocava-se fora dela. Queria enxergá-la – não pintá-la como “exótica”. E interpelava-nos não porque fosse diferente, mas por ser igual

Por Fran Alavina

Apenas um rapaz latino-americano (…)”.

É uma regra estética das mais antigas aquela que afirma: “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Esta regra tão recomendada foi e é muito seguida, ainda mais na ocasião em que as identidades (pessoais, de grupo, regionais e culturais) se tornam produtos de consumo, às vezes do consumo mais ostensivo: o consumo de si e dos outros. Todavia, o seguimento desta regra, em geral, implica um distanciamento entre aquele que canta e a sua aldeia. Uma separação, como se o poeta que fala de sua aldeia, ao fazer isso, tivesse que se colocar fora dela, observando-a como um objeto externo e deslocado, portanto enfraquecendo o liame afetivo que sustenta a própria regra.

TEXTO-MEIO

Deste caso há inumeráveis exemplos, daqueles que usaram sua “aldeia” como simples meio de alcançar a “universalidade”, o sucesso. Daí a “adaptação” da secular regra: “falar da própria aldeia, mas apenas se isto fizer com que falem de mim”. Ou seja: para evitar cair em um ridículo provincianismo, pode-se mesmo deixar que a “aldeia” apareça como algo “exótico” – o singularmente extravagante – para ao fim, ser possível generalizar: “tudo é divino, tudo é maravilhoso”. Não por outro motivo, ao usar este verso no começo da canção “Apenas um rapaz latino-americano”, ao fim da mesma canção, Belchior o nega sem subterfúgios: “Mas sei que nada é divino / Nada é maravilhoso / Nada é secreto / Nada é misterioso, não!”.

Tais versos, conforme já se apontou mais de uma vez, não são apenas uma oposição aos princípios estéticos da Tropicália e seus efeitos. Trata-se de algo mais profundo, de fazer ver as ciladas de um cantar sobre a própria “aldeia” que buscando certa coisa, termina por afirmar seu contrário: buscando uma identidade comum, termina por encalhar nas praias de uma singularidade isolada como se uma ilha sem arquipélago fosse; singularidade hipostasiada, pois compreendida, sentida e cantada como sagrada, maravilhosa. O que era a união entre o poeta e sua aldeia torna-se o motivo de sua separação.

Ademais, a adoção de uma regra que termina em seu contrário possui um duplo aspecto, tem outra face: não falar da própria “aldeia”, mas falar apenas de si mesmo. Cantar as dores e alegrias de um “eu” desterritorializado, um “eu” apartado de sua gente, no qual o único liame entre quem “canta” e quem “ouve” são as circunstâncias afetivas: a dor sempre dói, aqui ou ali; neste ou naquele. Circunstâncias afetivas que formam o núcleo de um cotidiano raso, que serve apenas de cenário para um “personagem” que sente-se bastar a si mesmo: ainda que impregnado de contradições, de fendas que sempre fazem ver o “fora”, que apontam para além de si. A apologia da profundidade do “eu” implicaria a aceitação resignada de um mundo plano que seguiria um curso ininterrupto e inalterável.

Neste caso, parece ser possível abraçar tudo que não faz parte de nossa própria “aldeia”. Surge assim o apóstata estético de sua própria gente, aquele que se queda estrangeiro dentro de sua realidade mais imanente. Opera neste caso o cínico princípio do mundo globalizado: se qualquer coisa pode constituir a identidade de qualquer um, nada é único. Mas essa identidade capaz de absolver tudo termina por anular a si mesma, pois não tem nada de si, nada de propriamente seu para expressar. Belchior sabia desta outra face da regra secular, por isso era preciso afirmar, e dizer a palo seco que: “Desesperadamente eu grito em Português: // Tenho 25 anos de sonho, de sangue / E de América do sul / Por força deste destino / Um Tango argentino / Me vai bem melhor que um blues”.

Belchior evitou estas duas faces da mesma regra com um princípio: “Nenhuma regra ter / É nunca fazer nada que o mestre mandar / Sempre desobedecer / Nunca reverenciar”. Estas palavras do compositor cearense são e soam bem mais que a advertência expressa de um princípio estético, pois se trata mesmo de um modo de resistir a qualquer tipo de dominação: estética, intelectual, afetiva ou política. Não ter mestre para mandar e Nunca reverenciar constituem o princípio que desfaz o pior tipo de dominação e servidão: a servidão voluntária. Contra as perversões do isolamento de um ou de alguns, a força do comum que deve ser sempre expressa, pois o sinal nunca está fechado apenas para um, mas sempre “está fechado para nós”; o novo não é uma dádiva solitária do destino, mas uma ação conjunta: “(…) precisamos todos rejuvenescer”!

Em 1976 quando Belchior escreveu estes versos, como hoje, por todos os lados tentam nos esgarçar: separarmo-nos de nós mesmos e nos apartamos dos outros. Porém, é no momento que poderia ser o ápice das separações – a morte de um – que fala mais alto o comum. O comum que faz de Belchior um de nós. Ele permanece não por ter almejado ser atemporal, mas por ter encarado as contradições de se estar em um tempo determinado, datado: vivemos e compartilhamos com nossos contemporâneos as mesmas vicissitudes. Talvez este seja o liame poético, que também é o político fio da meada do cancioneiro de um compositor tão agudo que é capaz de cortar como faca na carne…

Hoje, no último exílio de Belchior, que é paradoxalmente sua volta, seus princípios estéticos se fazem carne, batem nas contrações de um coração selvagem e dolente. Os que sentem com profundidade sua partida não possuem com ele apenas o liame do mero fã, isto é, daqueles que verticalmente se identificam com alguém. Belchior não era um de nós apenas por falar de nós, cantar nosso jeito, nossos sonhos, desejos, distopias e contradições, mas porque falando de si mesmo, falava de nós: a nós se dirigia para nos interpelar, não porque fosse diferente, mas por ser igual. Uma identificação que rompe os personalismos vazios, sem perder aquilo que tem de singular. Por isso, pode-se afirmar com propriedade que Belchior não morreu, que nunca morre quem é um de nós! Um homem do interior, um cearense, um brasileiro da periferia, um rapaz latino americano, um resistente que conosco afirma: “ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”.

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Fran Alavina

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da USP. Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela Universidade Federal de Ouro Preto, UFOP.