Beduíno, a nova provocação de Julio Bressane

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Num espaço indefinido e atemporal, um homem e uma mulher investigam o erotismo como elo entre natureza e cultura. Vale espiar dois outros filmes brasileiros — “Éden” e “Crônica da Demolição” 

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Não há tempo nem espaço para abordar todos os filmes relevantes em cartaz. Cabe então falar dos mais urgentes, isto é, daqueles que, por trafegarem na contramão do mercado, correm o risco de ser logo expelidos do circuito exibidor. Comecemos por Beduíno, o novo filme de Julio Bressane.

Bressane é o mais exigente, mas também o mais generoso de nossos cineastas. Muito mais que uma colcha de referências eruditas intimidadoras, cada filme seu é um organismo que desafia o espectador, ao colocar em sinergia ideias e signos de várias fontes (o Oriente, a Grécia, a tradição judaico-cristã, as civilizações pré-colombianas, a cultura popular-industrial) para a produção de novos sentidos.

TEXTO-MEIO

Em Beduíno, tudo começa no encontro entre um homem (Fernando Eiras) e uma mulher (Alessandra Negrini), que passam a viver as mais diversas situações, os mais diversos papéis, no que parecem ser pequenos esquetes independentes, em geral no interior do mesmo ambiente. Nesse espaço ambíguo, que combina sala de estar/jantar, alcova e biblioteca, os personagens são transportados, por efeitos de luz, som e cenografia, a diferentes contextos geográficos e humanos.

Eros e Apolo

O que se cria, portanto, é um espaço maleável e atemporal, ou mais propriamente trans-temporal, que é o território de Bressane por excelência. Trata-se de levar adiante uma investigação, uma prospecção, que caracteriza praticamente todo o seu cinema: a do erotismo como elo entre a natureza e a cultura.

No centro do filme há um diálogo que talvez ajude a iluminar não apenas suas ideias, mas também seu método. A mulher pergunta ao homem: como conter a carne violenta num corpo elegante? Ele responde que há dois meios: conformá-la no mármore ou na murta. No primeiro caso, o trabalho é mais árduo e demorado, mas o resultado “fica para sempre”. No segundo, a realização é mais fácil, mas requer reparos constantes, para que a forma não se desordene e volte ao estado selvagem.

A imagem é extraída de um sermão do Padre Antonio Vieira, que a usou para comparar a evangelização dos pagãos europeus com a catequização dos índios da América. Bressane a desloca para o contexto da cultura greco-latina, ressignificando-a. É quase como se a pergunta passasse a ser: como conciliar Eros e Apolo, a pulsão vital e a forma harmoniosa, o corpo e o espírito?

São inúmeras as maneiras pelas quais essas forças interagem, inúmeras as imagens produzidas por esse atrito. Algumas são memoráveis, como a cena em que um trenzinho de brinquedo “atravessa” o corpo nu da mulher que, de quatro, serve-lhe de túnel e topografia circundante.

Em seus meros 75 minutos, Beduíno encontra ainda um meio de revisitar e revitalizar pontos luminosos da filmografia do diretor, como Memórias de um estrangulador de loiras (1971) e A fada do Oriente (1972). O assassino protagonista do primeiro, vivido pelo inesquecível Guará Rodrigues, ganha agora toda uma biografia oculta de sábio multidisciplinar, conhecedor desde a anatomia dos pescoços até a configuração dos astros e a constituição das plantas. O imaginário é uma energia que não cessa de se auto-alimentar, e talvez seja essa a lição suprema dos filmes de Julio Bressane.

Éden no inferno

Por um feliz acaso, está em cartaz também um filme de um destacado discípulo e parceiro cinematográfico de Bressane, Bruno Safadi. Trata-se de Éden, realizado em 2013, mas que só agora chega aos cinemas.

Num primeiro olhar, é um longa-metragem mais “realista” que o restante da filmografia do jovem diretor, marcada por uma abordagem, digamos, poético-alegórica de seus temas (Meu nome é Dindi, O prefeito). Ambientado num contexto social muito concreto – um bairro pobre da Baixada Fluminense, onde a violência do crime convive com a busca de hegemonia religiosa –, o filme aparentemente se conforma a uma construção narrativa mais convencional: personagens bem construídos, enredo coerente, verossimilhança da ação, profundidade psicológica.

Conta o drama de uma jovem em estado de gravidez avançada, Karine (a extraordinária Leandra Leal), que é levada pelo irmão (Julio Andrade) à neopetencostal Igreja do Éden para tentar se reerguer depois que o namorado foi assassinado, aparentemente numa disputa de gangues. O pastor que comanda a igreja (João Miguel) convence Karine a participar de uma campanha contra a violência na região, que produz tantos “filhos sem pai”. O problema é que sua companheira de campanha, também grávida, é mulher do próprio rapaz que matou o pai do filho de Karine.

Examinando melhor a maneira como Safadi conta essa história, é possível constatar que, longe de ter abandonado seu estilo em favor de um realismo convencional, o que ele fez foi incorporar um certo realismo à sua poética, ao seu universo.

Isso se dá, a meu ver, por duas vias. Por um lado há, desde a primeira imagem – Karine deitada no fundo de uma piscina vazia, filmada com câmera alta –, uma confluência de dados (narrativos e estéticos) para o motivo da água, do elemento líquido. Na água ocorrem momentos cruciais (o sexo com o namorado, a carícia ao filho que ainda está na barriga, o batismo na igreja). Remete-se, de distintas maneiras, à condição da gravidez, essa existência precária de um ser num ambiente líquido.

Piscinas vazias sob a chuva, postadas na vertical, cobertas por telas semitransparentes, configuram estranhos totens, abrindo caminho para uma segunda apropriação dos elementos realistas pela poética do diretor: a construção de uma atmosfera sinistra a cercar essa gravidez, num diálogo sutil com o gênero do terror. Há algo de ameaçador, quase de O bebê de Rosemary ou de O iluminado, na fluidez da câmera que percorre os corredores da “paróquia” onde Karine é praticamente uma prisioneira. Toda gravidez, afinal, é um estado de suspense, e Éden talvez apenas exacerbe isso num contexto de extrema tensão. Não por acaso, o cineasta dedica o filme a seu filho.

Crônica da demolição

Sobrou pouco espaço, mas não pode passar sem registro o lançamento de um documentário interessantíssimo, Crônica da demolição, de Eduardo Ades, que parte da derrubada do célebre Palácio Monroe, em 1976, para falar das violentas transformações da paisagem urbana do Rio de Janeiro, em especial do centro da cidade, ao longo de um século.

Mesclando um rico e raro material de arquivo (registros brasileiros, norte-americanos e europeus de diversos momentos da história da cidade) com depoimentos de arquitetos, engenheiros e administradores, o filme expõe os nexos entre as concepções arquitetônicas e urbanísticas e os interesses econômicos e políticos que tornaram a cidade um verdadeiro palimpsesto, com uma nova paisagem urbana se sobrepondo à anterior a cada três ou quatro décadas. Embora singular em sua topografia e em sua história, a desfiguração arquitetônica do Rio revela muito do processo selvagem e predatório de crescimento das nossas cidades, sobretudo depois que elas se tornaram impérios do automóvel. Vale a pena conferir.

* Crônica da demolição também está em cartaz no cinema do IMS do Rio de Janeiro.

 

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.