Bahrain: “Matem todos!”

Por Pepe Escobar, do Asia Times Online (em 19/02) | Tradução: Coletivo VilaVudu

O rei do Bahrain, Hamad al-Khalifa, tem sangue nas mãos: os mercenários de suas forças de segurança – paquistaneses, indianos, sírios e jordanianos – atacaram, sem qualquer aviso, manifestantes que dormiam pacificamente às 3h da manhã na rotatória da Pérola, a versão local, nesse pequeno país do Golfo, da praça Tahrir do Cairo.

Pelo menos cinco morreram no ataque brutal – entre os quais uma criança – e houve mais de 2.000 feridos, vários com ferimentos de bala e dois em estado crítico. A polícia antitumulto atirou contra médicos e paramédicos e impediu que ambulâncias e doadores de sangue chegasse à Rotatória da Pérola. Um médico do hospital Salmaniya disse à al-Jazeera disse que há um caminhão-frigorífico estacionado ao lado do hospital, que ele teme que tenha sido usado pelo exército para remover cadáveres não contabilizados.

Maryama Alkawaka do Centro Bahrain de Direitos Humanos estava lá: “Foi violentíssimo. [A polícia] atacou sem mercê.” Uma avalanche de tuítes de bahrainis denunciou o ataque “ao estilo de Israel” e a abordagem atirar-para-matar. E muitos denunciaram a al-Jazeera por não ter mantido a transmissão ao vivo por satélite que fizeram do Cairo, e por ter sugerido claramente que os eventos no Bahrein não passariam de protestos de xiitas. A Rotatória da Pérola está agora cercada, com cerca de 100 tanques em cada entrada. O centro de Manama está deserto, como cidade fantasma.

A oposição xiita descreveu o ataque como “ação terrorista”. Reem Khalifa, editor-chefe do jornal al-Wasat, da oposição, disse que “As forças do regime massacraram uma multidão que dormia nas barracas. Nada haviam feito além de “cantar juntos, com gritos de “nem sunitas nem xiitas: Bahraini [nascidos no Bahrain]” – o que jamais se vira antes, no Bahrain, e é o que mais enfurece o governo. Sempre tentaram dividir o povo (…). Agora, começaram a divulgar mentiras sobre mim e outros jornalistas, que apenas tentamos mostrar o que está acontecendo.”

Khalifa teve a coragem de levantar-se e confrontar publicamente o ministro de Relações Estrangeiras do Bahrain numa conferência de imprensa, e desmentiu-o, quando o ministro disse que “lamentava” as mortes e repetiu que os manifestantes seriam grupos sectários e que estariam armados.

O Conselho de Cooperação do Golfo – o escandalosamente rico clube de reinos locais que controlam mais de 1 trilhão de dólares de reservas estrangeiras e quase 50% de todas as reservas já testadas de petróleo ainda no subsolo do planeta – lançou (e o que mais lançariam?!) um manifesto de apoio ao governo do Bahrain.

TEXTO-MEIO

Matem todos (não esqueçam as luvas de veludo)

Washington deu algum sinal de algum tipo de incômodo, apesar dos mortos e feridos? Basta ler e ouvir o que disseram. A secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton manifestou “profunda consternação” [ing. “deep concern”], segundo o Departamento de Estado e “conclamou à moderação” [ing. “urged restraint”]. O Pentágono disse que o Bahrain é “importante parceiro” [ing. “important partner”]; depois, o secretário de Defesa Robert Gates telefonou ao príncipe coroado do Bahrain, príncipe Salman – para confirmar que tudo continuava certinho com a 5ª Frota dos EUA e os 2.250 norte-americanos que vivem no complexo militar isolado em 24 hectares no centro de Manama.

Até o New York Times foi obrigado a reconhecer que o presidente dos EUA Barack Obama ainda está devendo “crítica pública severa aos governantes do Bahrain, do tipo que acabou por ter de fazer contra o presidente Hosni Mubarak do Egito – ou do tipo que sempre faz contra os mulás do Irã”. Mas não vai dar. Afinal, o rei ‘atirei-contra-meu-próprio-povo’ do Bahrain é só mais um dos suspeitos de sempre, “pilar da arquitetura da segurança dos EUA no Oriente Médio” e “firme aliado de Washington na luta contra a teocracia xiita no Irã”.

Nessas circunstâncias estratégicas, difícil é desmentir o cientista político e blogueiro libanês da página “The Angry Arab” As’ad AbuKhalil, que diz: “Os EUA tiveram de apoiar a repressão violenta no Bahrain, para acalmar a Arábia Saudita e outros tiranos árabes, furiosos por Obama não ter defendido Mubarak até o último homem”.

Não por acaso, o príncipe da Arábia Saudita Talal Bin Abdulaziz – pai do bilionário que o Ocidente adora, príncipe Al Waleed bin Talal – disse à BBC que há risco de os protestos no Bahrain contaminarem a Arábia Saudita.

Nunca será demais repetir que no Bahrain trata-se sempre de Irã versus Arábia Saudita (ver “Bahrain: tudo sobre a Rotatória da Pérola”, Pepe Escobar, 18/2/2011, em português em http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/02/bahrain-tudo-sobre-rotatoria-da-perola.html).

A base naval dos EUA em Manama é cão de guarda do Golfo Persa. Além disso, 15% da população da Arábia Saudita é xiita, vivendo nas províncias orientais, lá, lá, onde o petróleo está. Por isso, se torna muito difícil para os bahrainis – xiitas e sunitas – afrontar a dinastia al-Khalifa sunita reinante, porque a Casa de Saud imediatamente acionaria todos os seus apoiadores logísticos e militares.

Não bastasse, a Arábia Saudita tem forte controle sobre o petróleo do Bahrain, que vem do campo partilhado de Abu Saafa, explorado pela Aramco saudita e refinado também por refinadora do Bahrain.

O Bahrain não nada em petróleo, longe disso. Segundo números do FMI, em 2010 a Arábia Saudita produziu em torno de 8,5 milhões de barris de petróleo/dia; os Emirados Árabes Unidos, 2,4 milhões de barris; o Kuwait, 2,3 milhões de barris; e o Bahrain apenas 200 mil barris.

Segundo a agência Moody, o governo do Bahrain precisa, para manter o orçamento equilibrado, que o preço do petróleo fique em torno de $80 o barril, “um dos mais altos pontos ‘de equilíbrio orçamentário’ de toda a região”, como diz o Financial Times. Um relatório da Barclays Capital faz mais, em termos de contorcionismo corporativo: “O anúncio dos protestos de rua, de concessões que o governo fez à custa da deterioração da posição fiscal e as crescentes tensões políticas criaram pano de fundo que visivelmente levou os investidores a considerar o Bahrain com precauções cada vez maiores.”

Assim sendo, se os manifestantes querem atingir o al-Khalifa no ponto onde dói, devem mirar o setor do setor business do petróleo/financeiro. Será extraordinário combate morro acima contra uma polícia política brutal, constituída de mercenários – sobretudo de consultores militares jordanianos (“o mestre de torturas” da [polícia secreta egípcia] Mukhabarat é um jordaniano) e agora também contando com “socorro” de tanques e soldados sauditas. Além disso, a polícia antitumultos e as forças especiais não falam o dialeto local, e, no caso dos baloques do Paquistão, não falam nem árabe.

O prospecto é sinistro. Informações de cocheira em Manama falam de divisão na família real. O temido Khalid bin Ahmed, sectário, responsável pela política de naturalização dos sunitas “importados” para alterar o equilíbrio demográfico e diluir ainda mais os direitos de voto da população xiita autóctone, estaria de um lado; e o rei e o príncipe coroado Salman (camaradinha de Gates) estaria do lado oposto. O rei pode estar perdendo o controle da situação. E nesse caso, a Arábia Saudita estaria obrando para que bin Ahmed tome o trono e converta em príncipe coroado Nasir Bin Hamed, um dos filhos do rei.

É hora de atravessar a ponte

O que os xiitas do Bahrain podem certamente obter é inspirar os xiitas da Arábia Saudita para uma longa luta por maior igualdade social, econômica e religiosa. É excesso de otimismo apostar em que a Casa de Saud se autorreformará – pelo menos enquanto controlar a extraordinária riqueza do petróleo e seu vasto aparelho repressivo, mais do que suficientes para ou comprar ou intimidar qualquer modalidade de discordância.

Mesmo assim, pode haver razões que levem a sonham com a Arábia Saudita seguir os ventos do novo Egito. A idade média do trio reinante na Casa de Saud é 83 anos. Da população autóctone do país (18,5 milhões), 47% está abaixo dos 18 anos. Uma concepção medieval de Islã e a estrondosa corrupção já estão sob crescente vigilância pelo YouTube, Facebook e Twitter.

A classe média está encolhendo. 40% da população vive atualmente abaixo da linha da miséria, com praticamente nenhum acesso a educação, e já é inimpregável (90% de todos os empregados são sunitas “importados”). A simples travessia do mar até Manama já é suficiente para meter ideias na cabeça do povo.

Mais uma vez: será luta morro acima, extraordinariamente difícil – em país sem partidos políticos nem sindicatos nem organizações de estudantes; onde todos os tipos de greves e protesto são ilegais; e onde o rei nomeia até os membros do conselho da Shura.

Seja como for, o jornal Arab News já alertou que aqueles ventos de liberdade que sopram do norte da África podem chegar à Arábia Saudita. E podem agitar os desempregados jovens – insustentáveis 40% da população. Não há dúvida: a grande revolta árabe de 2011 só terá cumprido sua missão histórica, quando abalar os pilares da Casa de Saud. Jovens sauditas sunitas e xiitas, nada tendes a perder, exceto o medo.

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Pepe Escobar

Jornalista brasileiro, correspondente internacional desde 1985, morou em Paris, Los Angeles, Milão, Singapura, Bangkok e Hong Kong. Escreve sobre Asia central e Oriente Médio para as revistas Asia Times Online, Al Jazeera, The Nation e The Huffington Post.