Assim Portugal desafia a troika

 

Centenas de milhares condenam, nas ruas, corte de direitos. Novidade: manifestações combinam protagonismo da sociedade civil com objetivos políticos claros

Por Antonio Jimenez Barca, no El País | Tradução: Antonio Martins


MAIS:
No Esquerda.net, galeria de fotos das manifestações em 40 cidades portuguesas

Algo mudou em Portugal nos últimos dez dias: as pessoas tomaram as ruas e o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, paladino neoliberal da austeridade a machadadas, encontra-se cada vez mais só, isolado e encurralado. No último sábado, uma avalanche humana formidável e imprevista lançou-se às ruas de 40 cidades portuguesas, para protestar contra as novas medidas de cortes de investimentos públicos e pelos últimos 15 meses, em que o país é, na prática, governado pela troika [Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional]

TEXTO-MEIO

Convocados por um punhado de associações civis, a partir de um slogan simples (“Que se lixe a troika, queremos nossas vidas”), organizados pelo Facebook, sem participação de partidos ou sindicatos, os participantes tomaram soberanamente a avenida da República (500 mil pessoas em Lisboa, segundo os organizadores) para gritar basta ao governo. Houve alguns distúrbios diante da Assembleia Nacional e a sede do FMI. Um garoto de 21 anos tentou imolar-se em Aveiro.

Mas as marchas foram, sobretudo, autênticas marés de aposentados, desempregados, mães, funcionários, famílias, policiais à paisana, carteiros, médicos, pequenos comerciantes, jovens cabeludos, neo-hippies, empresários, velhos lutadores contra a ditadura de Salazar. Saíram de casa à tarde e puseram-se a gritar, juntos, que não aguentam mais, que têm a sensação de estar sendo expulsos de seu próprio país.

A imprensa portuguesa ecoava ontem a enorme demonstração de força e indignação dos cidadãos comuns. Comparava a marcha, por suas dimensões e significado, com as manifestações históricas de abril e maio de 1974, que se seguiram à Revolução dos Cravos e construíram a democracia em Portugal.

Enquanto isso, o primeiro ministro recebe não só o repúdio das multidões na rua, mas as críticas de muitos setores desde que anunciou na TV, em 7 de setembro, uma redução geral de salários, sob pretexto de ampliar a contribuição dos trabalhadores à Seguridade Social. E não foi só. Também antecipou, naquele dia, que as empresas, ao contrário, contribuirão menos – uma medida que, segundo ele, visa amenizar as demissões e melhorar a competitividade.

A partir de então, jornais de diversas tendências, políticos de esquerda e de direita, ex-ministros, ex-presidentes, integrantes de seu próprio partido, empresários famosos, sindicalistas, especialistas em economia e até mesmos bispos criticaram a medida. Qualificaram Passos Coelho como um sinistro Robin Hood às avessas, ocupado em tirar dos pobres o pouco que têm para recompensar aos ricos. As aparições públicas dos ministros, e do próprio Passos Coelho, convertem-se em pequenas manifestações de grupos de cidadãos indignados, que lançam ovos ou tomates, cercam carros oficiais ou simplesmente desenham cartazes em que se lê um insulto que ganha cada vez mais popularidade: gatunos, ladrões.

Passos Coelho foi acusado pessoalmente de provocar a crise em duas ocasiões. A primeira, numa mensagem pessoal no Facebook, esmagada por mais de 50 mil comentários, a maioria diretamente insultantes. A segunda, há quatro dias, numa entrevista à TV em que tentou convencer seus compatriotas – sem muito sucesso, a julgar pelas manifestações de sábado e os editoriais da própria mídia – sobre as razões e os benefícios desta transferência de fundos dos trabalhadores para as empresas.

A coalizão governamental (o PSD conservador, de Passos Coelho, governa com a ajuda parlamentar do CDS, democrata-cristão) está se dividindo. Paulo Portas, líder do segundo partido e ministro de Relações Externas, manteve desde o anúncio dos cortes salariais um silêncio suspeito e muito comentado. No domingo, apenas, assegurou que tinha opinião contrária à do primeiro-ministro e garantiu que só não bloqueou a decisão para não azedar as negociações com a troika.

Os sindicatos já falam de greves gerais. O sempre instável (embora existente) consenso no Partido Socialista português – algo muito exaltado pela troika – rompeu-se em pedaços. Antonio José Seguro, líder do partido, anunciou que votará contra o orçamento, e qualificou o governo como “fator desestabilizador”. As próprias fileiras de Passos Coelho estão desestabilizadas. A ex-ministra e presidente do PSD, Manuela Ferreria Leite, contrária às opções do atual governo, fez uma espécie de apelo ao motim, estimulado os deputados da maioria a “votar com sua consciência”.

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Antonio Jimenez Barca

Antonio Jiménez Barca é um jornalista e escritor espanhol. Correspondente do diário El País em Paris, está no momento instalado em Lisboa. Escreveu dois romances, "Deudas pendientes" (El Tercer Nombre, 2006) e "La botella del náufrago" (RBA, 2011).

Latest posts by Antonio Jimenez Barca (see all)