A Primavera Catalã ousa desobedecer

170928-Barcelona

De navios estrangeiros, descem soldados espanhois para impedir o referendo. A internet está sob censura. Mas a população resiste, abraça-se nas ruas e cultiva cravos — para lembrar Portugal de 1974

Por Flávio Carvalho

Se tu puxas A Estaca forte por aqui e eu puxo A Estaca forte, por lá,
seguramente ela vai cair; cairá e nós poderemos nos libertar

L’Estaca, de Lluís Llach, músico perseguido pela ditadura franquista,
atualmente deputado independentista catalão

Pense num militante de extrema esquerda no Brasil. Sabes que ele não se dá muito bem com a Polícia. Agora imagine aqui em Barcelona um policial chorando enquanto os manifestantes cantam o hino nacional. Nesse momento, um militante de extrema esquerda, catalão, abraça o policial que chora, emocionado. Por outro lado, na cidade de Zaragoza, centenas de neonazistas espanhóis atacam violentamente um carro da TV pública catalã, enquanto as câmeras filmam a Guardia Civil, a polícia política de Mariano Rajoy, Presidente da Espanha e do PP, aplaudindo os violentos neonazistas e nada fazendo para defender os jornalistas catalães que pagam o seu salário.

Pois a esse ponto chegamos, a poucos dias do Referendo perseguido, que fez com que dezenas de eurodeputados, de dezoito países europeus diferentes, perguntassem aos dirigentes da União Europeia o que estão esperando para fazer algo que impeça os limites de violência que se estão ultrapassando na Espanha. Não esqueçamos que é essa mesma União Europeia, dirigida por políticos conservadores, de direita, que envergonhou o mundo na crise dos refugiados (ainda em andamento). Desta vez pode ser diferente. Não se trata de um problema dos países árabes, pois agora a crise é no interior da Europa Ocidental.

TEXTO-MEIO

Enquanto isso, a reação do governo espanhol é mais repressiva: em navios de luxo, cruzeiros italianos pintados com desenhos animados (empresas locais se negaram a isso), a polícia espanhola desembarcou em Barcelona e está declarando sua guerra particular contra os cidadãos e contra as instituições de uma boa parte do seu próprio país. Franco fez o mesmo, décadas atrás. E desencadeou a guerra civil mais duradoura da história do mundo ocidental. Fuzilou o presidente eleito da Catalunha, no castelo militar de Montjuic, mesmo lugar onde se concentram a cada 12 de Outubro, os neonazistas, protegidos por um cordão policial. 12 de outubro é o Dia da Raça, tal como proclamado na ditadura: o dia que Colombo começou a impor, em nome dos Reis da Espanha, a “raça espanhola” sobre os indígenas das Américas. Agora imaginem como será, este ano, em toda a Espanha, o 12 de outubro, que se hoje chama o Dia da Hispanidade!

Quando meus amigos indecisos me perguntam se me tornei nacionalista, sempre digo que a grande fábrica de independentistas é o Partido Popular (PP, de direita, no poder), porque isso lhe dá votos em Madri. Logo, insisto que nunca serei nacionalista. E os esclareço que votarei no Referendo exatamente contra o pior nacionalismo que já vi na minha vida: o violento nacionalismo espanhol, herdado diretamente do franquismo, sem necessidade de intermediários. Sua última expressão foi enviar pra tomar o comando da polícia catalã (nunca o assumem, por não terem coragem de enfrentar a cada vez mais crítica opinião pública internacional), o irmão do ex Presidente do Tribunal Constitucional, ambos reprovados (sim, o PP perdeu estas votações no parlamento espanhol) pela máxima instância política.

Referências a Hitler, aqui não faltam. Nem no resto da Europa. Os resultados das eleições alemãs acabam de devolver ao seu parlamento um partido de extrema direita. É a primeira vez, depois da morte de Hitler, que o neonazismo entra no poderoso parlamento alemão. Os próximos passos da diplomacia espanhola são tão significativos que falam por si mesmos: Rajoy visitou Trump ontem. Esta semana fez novamente referência a sua visita a Temer…

Jovens informáticos (que clonaram centenas de páginas na Internet quando Rajoy fechava as webs públicas, criadas pelo governo catalão) estão ameaçados pela justiça, assim como o Presidente da Catalunha e do Parlamento catalão, diretores de jornais, líderes estudantis, sindicalistas, políticos eleitos e diretores de escolas, ameaçados às penas de prisão e multas milionárias. Sermões inteiros em missas catalãs estão sendo reproduzidos na Internet pela veemência com que os padres católicos estão defendendo os direitos humanos. Impressores pela democracia é o nome (traduzido) de uma página da Internet criada pela recentemente criada associação de empresários de indústrias gráficas. Estão dispostos a imprimir, de graça, diariamente, milhões de cédulas eleitorais para o Referendo, depois que a polícia espanhola apreendeu mais de dez milhões de cédulas e urnas.

Numa referência à pacífica Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura de Salazar, em Portugal, já não se encontram cravos para comprar nos mercados floristas da Catalunha. Os anunciantes de previsão do tempo na rádio hoje foram substituídos por floricultores que ensinavam o povo sobre como plantar e cuidar destas plantas, os pés-de-cravos, a tempo de serem colhidos nesta Primavera Catalã, em pleno começo de outono europeu. Resistência pacífica é a ordem popular nas ruas. Os vizinhos do pueblo onde eu moro imprimiram eles mesmos cartazes em casa e saíram pra colar nos postes, com seus filhos, domingo, em festa: “sem desobediência não haverá independência”, neles estava escrito.

TEXTO-FIM
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