A nova tática das Pussy Riots

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Fora da prisão, elas continuam achando que Putin é maior problema de seu país. Mas reconhecem: há cada vez menos manifestações contra ele

Amelia Gentleman entrevista Nadya Tolokonnikova | Tradução Pedro Lucas Dulci

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Nadya Tolokonnikova passou 18 meses na prisão após os protestos da banda Pussy Riot contra Vladimir Putin. Ela é celebrada em todo o Ocidente; contudo, agora só quer se concentrar na verdadeira obra de reforma na Rússia.

Se Nadya Tolokonnikova quisesse abandonar os protestos e fugir da Rússia para uma vida tranquila de exílio no Ocidente, isso não seria tão surpreendente. Apesar de ter sido libertada por anistia presidencial em dezembro passado, depois de cumprir 18 meses de prisão por participar de um protesto punk anti-Putin, a integrante do Pussy Riot permanece sob a estrita vigilância do Estado russo. Naturalmente, seus e-mails são monitorados, entretanto, o mais perturbador ainda foi a sua descoberta recente que os agentes de segurança do Estado descobriram um café que ela visita regularmente e instalaram ali aparelhos de escuta. Ela foi açoitada pela polícia em Sochi e teve tinta verde jogada em seus olhos por policiais à paisana em uma loja do Mcdonalds.

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Muitos de seus amigos e companheiros de protestos decidiram deixar a Rússia, em uma nova onda de partidas que ela descreve como “a emigração da desilusão”. Nos dois anos e meio desde que a Pussy Riot, com suas calças justas e máscaras coloridas, invadiram a Catedral de Moscou “Cristo, o Salvador” para cantar sua oração punk (Virgem Maria, mãe de Deus, expulse Putin! Virgem Maria, mãe de Deus, expulse-o, te pedimos!), a exuberância otimista da cena de protesto anti-Putin na Rússia, em sua maioria, está fadada a desaparecer.

Tolokonnikova, 24, não parou de protestar e não está contemplando o exílio, antes, no atual momento, seu protesto se transformou em algo mais silencioso e mais estreito. Em vez de dedicar-se à derrubada do regime de Putin, ela criou um projeto de reforma prisional e lançou uma agência de notícias na internet, a Mediazona.

Conversamos via Skype, no início desta manhã. Ela se mostrou inicialmente relutante em pressionar o botão para ativar a câmera, explicando que acabara de se levantar e não estava pronta para ser vista. Enfim, ela concorda. Seu rosto é pálido e sem falhas, o cabelo tem pontas verdes e está puxado para trás. Catapultada para a fama mundial durante os meses de julgamentos televisionados, ela é imediatamente reconhecível. Ela anda em torno do apartamento carregando seu laptop, tentando encontrar o melhor sinal, cumprimentando vários membros não identificados do Pussy Riot e simpatizantes que pairam no fundo.

Recentemente, ela encontrou com seus heróis Patti Smith e Noam Chomsky, falando no Instituto Harvard de Política. Ela é homenageada por sua bravura, e recebe tratamento rock star em todos os lugares em que vai, mas diz que está sempre ansiosa para voltar a Moscou, para voltar ao trabalho. Ela ri do fato de os agentes do Serviço de Segurança Federal (FSB) tentarem espionar o seu café favorito, e diz, com o eufemismo irônico que flui da maioria de seus comentários, “é óbvio que não é muito agradável. Isso faz você perceber que as condições que enfrentaram na prisão na verdade não são tão diferentes das condições que estamos confrontados com agora que estamos livres”.

Embora Pussy Riot, enquanto um movimento, esteja ainda “absolutamente vivo”, Tolokonnikova e os seus companheiros de grupo ficaram de sobreaviso em razão dos acontecimentos na Ucrânia. “Nós não estamos planejando nada no momento, porque está muito difícil protestar contra a causa principal na ordem do dia aqui na Rússia, principalmente com nossas performances carnavalescas. As Pussy Riots existem como um grupo de reação a eventos políticos, mas se tornaria um pouco cínica se passasse a comentar a guerra, onde as pessoas estão morrendo todos os dias, colocando máscaras coloridas e lançando-se em uma performance cheia de ironia. O movimento não se sente adequado. Isso não significa que não vamos agir novamente no futuro”.

A última ação das Pussy Riots foi em Sochi em fevereiro passado, quando guardas cossacos moveram-se e começaram a chicotear e bater em artistas. “Antes das Olimpíadas [de Inverno], a forma Pussy Riot de protestar era muito apropriada”, disse ela, “porque os Jogos Olímpicos foram um evento que você tinha que rir. Foram os Jogos Olímpicos mais caros, e uma grande parte do dinheiro – de acordo com várias investigações – acabou nos bolsos dos funcionários, justamente no momento em que as coisas não estavam indo tão bem com a economia russa”.

Ao invés de protestar assim, ela e Alyokhina, que também passou 18 meses trabalhando em uma outra prisão, lançaram recentemente Zona Prava (Zona Justiça), uma instituição de campanha para a caridade que visa melhorar as condições nas prisões da Rússia. Elas esperavam começar a trabalhar enquanto estavam ainda na prisão, mas “os campos de trabalho acabaram sendo lugares muito difíceis”, diz ela.

Esse também é um exemplo de eufemismo. Um ano atrás, em uma carta aberta da prisão das mulheres, Tolokonnikova descreveu as “condições análogas à de um escravo”, onde os prisioneiros eram forçados a trabalhar 16 horas por dia costurando uniformes da polícia. “Na melhor das hipóteses, temos quatro horas de sono. Nós temos um dia de folga a cada um mês e meio. Trabalhamos quase todos os domingos. Prisioneiros ‘voluntariamente’ apresentavam-se para trabalhar no fim de semana. Na verdade, não há nada de ‘voluntário’ sobre isso.” Ela descreve como uma prisioneira costureira despiu-a e a obrigou a costurar nua, como também (antes de ela chegar) prisioneiras bateram em outro detento até a morte. Ela escreve sobre uma prisioneira que teve um congelamento tão grave que seus dedos das mãos e um dos pés tiveram que ser amputados.

“Os condenados estão sempre à beira de enlouquecer, gritando um com o outro, brigando por coisas pequenas. Recentemente, uma jovem foi esfaqueada na cabeça com um par de tesouras, porque ela não entregou duas calças no tempo certo. Outra tentou cortar seu próprio estômago abrindo-o com uma serra”, escreveu ela.

Quando ela descobriu que estava sendo enviada para Mordovia, um campo de trabalho totalmente feminino, suas companheiras na prisão preventiva reagiram como se tivesse sido entregue a uma sentença de morte. “Eu achava que era tudo um exagero – mas quando cheguei lá, era muito pior do que eu esperava”.

Se as horas de trabalho eram longas para os prisioneiros, elas também foram muito longas para os guardas, que ocasionalmente desapareciam para pausas não programadas para tomar chá. Era justamente quando Tolokonnikova escrevia suas cartas, com pedaços de papel que ela tinha escondido debaixo de seu cinto. Um de seus correspondentes foi o filósofo radical Slavoj Žižek, e um livro de suas correspondências acaba de ser publicado com o título Comradely Greetings [Saudações camaradas].

É um volume estranhamente abstrato, censurado às vezes pela presença de um censor, despojado de detalhes sobre a vida na prisão, e preocupado com a análise teórica do trabalho sério de protesto de Tolokonnikova. Os dois discutem quão peculiar foi o fato do Pussy Riot ter encontrado esse apoio imediato no Ocidente, dado que as integrantes do grupo expressaram preocupações sobre o capitalismo global junto de suas críticas a Putin.

“Todos os corações batiam por você, enquanto você foi percebida como apenas outra versão do protesto democrático liberal contra o Estado autoritário. No momento em que se tornou claro que você rejeitou o capitalismo global, tornou-se muito mais ambígua”, Žižek escreve.

Tolokonnikova não quer falar muito sobre as cartas; ela as escreveu há 18 meses, e diz que já se esqueceu do que estava escrito nelas. Mas ela diz que é grata pelo apoio que recebeu do Ocidente, desde a Madonna até a Hillary Clinton. Realmente não importa se as razões de oposição a Putin diferem, diz ela. “Eu me sinto muito positiva sobre a forma como Madonna e pessoas como ela nos ajudam”, diz Tolokonnikova, que recentemente foi criticada por outros membros do coletivo Pussy Riot por aparecer no palco com Madonna (sua aparência era “altamente contraditória com os princípios de Pussy Riot”, uma vez que “nossos únicos palcos para performances ilegais são em lugares inesperados”). “Nossa posição é que, quando Katy Perry nos envia bons desejos, isso é ótimo. Talvez ela não saiba nada sobre os direitos humanos – contudo, não há nenhuma razão para pensar que por trás de uma menina de boa aparência existe uma idiota”, acrescenta.

Tolokonnikova conheceu Clinton por apenas um segundo, mas se tivessem tido uma oportunidade adequada para conversarem, ela teria definido sua crença de que os EUA têm de assumir alguma responsabilidade internacional sobre o comportamento de Putin, e que os EUA precisam controlar “sua política externa agressiva”. “É ruim em si mesmo. Mas também é ruim para nós, na Rússia, porque cada vez que Putin faz uma intervenção em assuntos externos, ele aponta para o comportamento dos EUA ao longo da última década”, diz ela.

A oposição de Tolokonnikova a Putin permanece primordial. Ela acredita que a decisão de processá-la junto a dois outros membros do Pussy Riot veio pessoalmente dele, e não foi provocada pela ação na Igreja Cristo, o Salvador, mas por sua fúria em uma performance anterior na Praça Vermelha, onde cantou música inspirada pelos grupos de punk Sham 69 e Angelic Upstarts: “Putin está se mijando!”

“Provavelmente, ninguém teria notado o nosso protesto se o próprio Putin não o tivesse destacado para o mundo inteiro”, diz ela. “Parecia muito estúpido para ele, e é por isso que acho que foi uma reação pessoal – e um conselheiro político jamais teria sugerido essa resposta. Ele perdeu todo o contato com o mundo; está convencido de que ele vai continuar no poder, e está certo de que pode fazer o que preferir”.

Ela ainda frequenta ocasionalmente o protesto anti-Putin, mas existem menos deles agora. A decisão de bloquear os Pussy Rioters jogou um balde de água fria nos movimento de oposição, da mesma forma que a detenção do líder da oposição Alexei Navalny e os seus apoiadores.

Tolokonnikova foi separada de Gera, sua filha de quatro anos de idade, enquanto estava na prisão. Ela responde, um pouco enjoada deste tema, mostrando que os presos políticos do sexo masculino “em regra não têm que responder esse tipo de pergunta”, mas mesmo assim ainda explica que sua filha estava bem preparada. O pai de Gera, o marido de Tolokonnikova, Petya Verzilov, que em 2010, como parte do coletivo artístico Voina (Guerra), ajudou a pintar um falo sobre uma ponte levadiça em frente à sede do FSB [Serviço de Segurança Federal], também passou algum tempo em centros de detenção.

“Eu expliquei a Gera: ‘existe essa pessoa chamada Putin, que não gosta quando as pessoas protestam contra ele, e de vez em quando ele coloca as pessoas na prisão por causa disso’. Naturalmente, ela não gostava muito da ideia que nós precisássemos ser presos, mas ela entendeu”, diz ela. Desde que foi libertada, Tolokonnikova continuou a educação política de sua filha de quatro anos. “Ela joga tênis e brinca com as crianças da idade dela, mas ao mesmo tempo ela sabe quem é [o autoritário presidente bielorrusso Alexander] Lukashenko, bem como quem é Stalin. Nós conversamos sobre isso”.

Sua decisão de se concentrar em um objetivo mais restrito, tal como o da reforma do sistema prisional, não é motivada pelo medo de uma nova detenção, diz ela, apontando para a ação 26 de fevereiro, em Sochi. É mais sobre decidir em como ela pode ser mais útil. O objetivo final continua sendo o fim da era Putin. “Sempre que falamos de reforma do sistema prisional, percebemos que só podemos alcançar [qualquer coisa] quando Putin deixar o poder – por isso o nosso objetivo básico permanece inalterado”, diz ela. “Queremos conseguir isso, vamos conseguir, de alguma forma ou de outra. Nas manifestações de que podemos participar, estamos participando – a questão é que não há muitos delas no momento”.

A mudança para o jornalismo – o site Mediazona acompanha processos judiciais, relatórios sobre prisões, mas também orienta politicamente de forma mais ampla – em um país onde a jornalista Anna Politkovskaya é apenas uma dos muitos jornalistas assassinados desde que Putin chegou ao poder em 1999, é anunciada por Tolokonnikova sem muitos alardes. Ela ainda viaja sozinha no metrô de Moscou, sem nenhum segurança. “Provavelmente não é seguro”, diz ela. “Mas, cercar-se de guarda-costas é caro, e esse dinheiro poderia ser muito mais utilmente gasto nas causas em que estamos trabalhando”.

“Eu acho que Pussy Riot é uma vocação profissional muito mais insegura, ão acho que nós tornamos a nossa situação mais perigosa. Acho que não temos mais nada a perder”.

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