A Grécia flerta com uma nova esquerda

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Numa Europa em crise, surge alternativa ao declínio dos socialismos que marcaram séculos 19 e 20. Que explica possível vitória eleitoral da Syriza, neste domingo?

Por Antonio Martins


Sobre o tema: Leia a atualização deste artigo, com os resultados das eleições e sua análise
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Na última quinta-feira, 14 de junho, os partidos que disputam o governo e o destino da Grécia fizeram seus últimos comícios e apostas. Hoje, cerca de 6,5 milhões de eleitores poderão produzir uma novidade absoluta. Pela primeira vez, a Syriza, uma coalizão identificada com a cultura política da horizontalidade e das redes – expressa nos Fóruns Sociais Mundiais – tem chances de vencer uma eleição nacional. Ao fazê-lo, poderá colocar em teste visões de democracia, sociedade, cultura, economia e relação com a natureza que encantam os críticos do capitalismo, mas nunca puderam ser levadas à prática, exceto nas condições muito particulares de pequenas comunidades.

A oportunidade foi aberta por duas situações excepcionais: a do país e a da própria Syriza. Nos últimos dois anos, a Grécia revelou-se o elo mais frágil de um bloco político e econômico – a União Europeia – que abandonou suas utopias, rendeu-se às políticas mais concentradoras de riqueza e está se convertendo no possível deflagrador de uma nova crise mundial. Em Atenas, teme-se agora que a falta de divisas provoque o desabastecimento de remédios, petróleo e comida. Bancos, companhias de seguros internacionais e até o onipresente Carrefour deixam o país. Muitas indústrias já não contam com matérias-primas para produzir. É o último ato de um peça de horrores, cujo script já incluiu privatizações em massa, desemprego de 22% (mais de 50% entre os jovens), redução das aposentadorias e do salário-mínimo (-22%), desmonte dos serviços públicos – mas sempre preservou os privilégios da oligarquia financeira responsável pela crise...

Em consequência, o sistema político entrou em colapso. Os dois partidos políticos (de centro-esquerda e centro-direita) que, como em tantos países, dominava a cena institucional [ler Immanuel Wallerstein, em Outras Palavras] foram castigados pelo eleitorado. Numa primeira tentativa de renovar o Parlamento, ocorrida em 6 de maio, Pasok e Nova Democracia, que costumavam reunir em conjunto quase 80% do eleitorado, caíram para 36%. Não conseguiram nem a maioria parlamentar necessária para formar novo governo, nem o apoio de outras forças políticas – o que deflagrou a nova eleição do próximo domingo. Nenhum partido quis aproximar-se dos que provocaram a ruína nacional.

Mas o desgaste profundo da política e dos partidos tradicionais não é uma exclusividade grega. Em todo o mundo, as sociedades vivem o desencanto com a velha democracia, reduzida ao que José Saramago chamou certa vez de um ritual, uma “missa laica”. Excluída a América do Sul, este declínio não foi capaz de produzir, em nenhum país, uma renovação substantiva.

A Europa, em especial, tem assistido ao que muitos veem como “sequestro da democracia”. O desencanto dos cidadãos, e mesmo revoltas de enorme potencial (como na Espanha) esvaem-se na falta de alternativas para uma mudança de rumos. Ni políticos, ni banqueros, insistiam os cartazes na Puerta del Sol madrilenha. Mas embora indesejados, ambos personagens sentem-se seguros e seguem governando de igual maneira, porque não enxergam ameaça real a seu poder.

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Muitos motivos ajudam a explicar por que na Grécia pode ser diferente. Um deles certamente é a formação da Syriza, forma abreviada, em grego, de “Coalizão da Esquerda Radical”. Constituída em 2006, teve 4,6% (checar) dos votos nas eleições parlamentares de 2009. Avançou para 16,7% (checar) no pleito inconclusivo de 6 de maio último. Na virada do mês, as últimas pesquisas de intenção de voto autorizadas davam-lhe (por estreita margem) a liderança entre o eleitorado, com 30% de apoio popular. Ainda mais incomuns que seu rápido crescimento são sua origem e transmutação.

 

Viva Marx! Mas abaixo a ortodoxia!
Coalizão grega surgiu do Partido Comunista, porém abandonou
dogmas e abraçou a nova cultura política das redes e horizontalidade

 Duas características distinguem das demais a pequena sala ocupada por Alexis Tsipras, jovem (38) líder da Syriza, no escritório modesto da coalizão, situado no centro de Atenas. Uma demão recente de tinta foi aplicada nas paredes para disfarçar as rachaduras, depois que as entrevistas tornaram-se constantes. Mas permaneceu um grande poster com o retrato clássico do Che Guevara, enevoado pela fumaça de seu próprio charuto. O Che certifica as origens do Syriza. Tsipras, um engenheiro carismático que prefere o argumento à eloquência, expressa seu presente. A sintonia rara entre estes dois símbolos explica, em boa medida, o projeto original da Syriza e sua emergência, na Grécia em chamas.

A trajetória rara que a Coalizão da Esquerda Radical percorreu, do marxismo ortodoxo ao ponto em que se encontra, é narrada pelo jornalista Paul Mason – também autor do livro Why it’s kicking off everywhere [leia nossa resenha], provavelmente a mais completa reportagem e análise sobre as rebeliões ques sacudiram o mundo em 2011. Para compreender o que a Syriza é hoje, ele seguiu suas origens até o final dos anos 1980, quando os dois partidos comunistas da Grécia (um, alinhado à União Soviética; outro, de tendência “eurocomunista”, menos dogmática) formaram uma aliança com objetivo eleitoral. Chamava-se Synaspismós, ou Coalizão da Esquerda e do Progresso. Chegou a alcançar resultados expressivos, em parte porque os marxistas gregos marxistas mantiveram, por décadas, o prestígio obtido ao liderarem a resistência à ocupação nazista, durante a II Guerra Mundial. Em 1989, atraiu 13,1% dos votos, nas eleições parlamentares de 1989, elegeu 28 parlamentares e compôs a aliança no governo.

Mas a coalizão foi atropelada pela história. Quando a União Soviética desintegrou-se, naquele mesmo ano, as duas agremiações comunistas buscaram rumos opostos. O partido ortodoxo (KKE, ou Partido Comunista Grego) deixou a Synaspismós, concentrou-se em seus redutos mais tradicionais (operários e servidores públicos) e promoveu um expurgo interno, no qual cerca de 45% de seus membros foram afastados. Tsipras, então membro da Juventude Comunista, estava entre eles.

Privada de sua base, a outra ala abriu-se progressivamente. Três passos foram decisivos nesta guinada gradual. Primeiro, o Synapsismós acolheu militantes políticos de outras tendências: social-democratas de esquerda, mas também grupos de esquerda radical e ambientalistas. Depois, envolveu-se com o movimento altermundista – então nascente. Nesta etapa, que vai do início de 2001 a 2004, ele participa do grande protesto europeu contra o G-8 (em Genova, Itália) e apoia os Fóruns Sociais Europeus (em especial da quarta edição, em Atenas-2006). Altera seu próprio nome, passando a denominar-se Coalizão dos Movimentos de Esquerda e Ambientalistas (a sigla foi mantida). Também forma a Syriza (em 2004), para abrigar outros grupos ambientalistas e libertários que não desejavam integrar-se ao partido original.

Tsipras assume a liderança da Syriza neste período – que é marcado, também, por conflitos internos. A tensão entre a hierarquia partidária e a dinâmica horizontal dos movimentos sociais conduz ao afastamento de correntes políticas e à atração de outras. O apoio dos eleitores à coalizão oscila (para detalhes, consulte a Wikipedia). Mas acabam prevalecendo posições que somam radicalidade política e horizontalidade.

Esta combinação permitirá que a Syriza deixe de ser apenas um agrupamento de intelectuais críticos e jovens bem-intencionados e desponte como uma opção para as maiorias, na tempestade que se abate sobre o país a partir de 2008. O sistema político tradicional entra em colapso, pois suas duas colunas desmoronam (Pasok, de centro-esquerda, e Nova Democracia, de centro-direita – desacreditam-se por completo diante da sociedade, ao se submeterem aos pacotes de corte de direitos sociais impostos pela troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI).

No vasto cardápio de opções que os eleitores gregos têm diante de si (31 partidos disputaram as eleições de 6 de maio), dois fatores levaram a Syriza a sobressair. Primeiro, seu forte envolvimento nas lutas sociais contra as políticas da troika. Em 2008, quando os jovens, sem perspectivas de futuro, iniciam uma longa série de manifestações de rua (em alguns casos duramente reprimidas pela polícia) a coalizão está com eles – inclusive nos momentos em que o Partido Comunista e suas bases mais tradicionais vacilam. Mais tarde, como relata o militante socialista Panos Petrou, num artigo para a revista norte-americana Z-Net, a Syriza irá envolver-se na organização de assembleias e comitês de bairro e em ações como a recusa ao pagamento das novas tarifas de serviços públicos e impostos estabelecidos pelo governo.

Manter-se intransigente em favor das maiorias empobrecidas foi um ingrediente essencial para a ascensão da Syriza – mas não o único. O mergulho da coalizão nas iniciativas da nova cultura política temperou seu radicalismo com sais contemporâneos. A Syriza rejeita a humilhação da Grécia, mas não é nacionalista: está em sintonia com movimentos de toda a Europa e se enxerga como altermundista. Combate a oligarquia financeira e as elites políticas gregas, mas não quer estabelecer o governo de uma classe sobre as outras: está ligada tanto aos trabalhadores quanto aos jovens, imigrantes, feministas, ambientalistas. Como coalizão política, disputa o poder de Estado: prefeituras, postos no Parlamento, agora o governo do país. Mas formou-se na crítica ao centralismo dos antigos partidos comunistas e aprofundou esta opção no contato com os Fóruns Sociais, para os quais a polica vai muito além das instituições. Condena o autoritarismo da União Europeia e as políticas impostas pela troika – mas defende a articulação das sociedades no Velho Continente, e rejeita abandonar o euro.

Em suma, embora denomine-se Coalizão da Esquerda Radical, a Syriza ultrapassou em muito os limites estreitos do que se chama convencionalmente de “ultra-esquerda”. Graças a isso, tornou-se capaz de dialogar com toda a sociedade e aspirar a ser maioria na Grécia. Mas esta atualização de identidade e programa é, também, o que transformará sua eventual vitória, neste domingo, num fato de enorme relevância para a Europa e de repercussões em todo o mundo.

 

De pé, ó povos da Europa
Para derrotar ditadura financeira, a Syriza aposta nas sociedades europeias –
e na armadilha que credores armaram para si mesmos

Considerado um dos dois diários econômicos mais influentes do planeta, o Financial Times, de Londres,ofereceu a seus leitores, em 12 de junho, um artigo surpreendente. Primeiro, pela autoria: as legendárias páginas de cor salmão do jornal foram abertas para por Alexis Tsipras, líder da Syriza. Segundo, pelo conteúdo. O homem que poderá dirigir o governo de Atenas a partir da próxima semana, e que é visto parte da mídia como principal ameaça à moeda europeia abriu seu texto com uma frase categórica: “Que não haja dúvida alguma: meu movimento, o Syriza, está comprometido a manter a Grécia na eurozona”.

Esta posição é sincera e foi indispensável para que Tsipras e a Coalizão da Esquerda Radical pudessem ter esperança de vencer as eleições de domingo. Todas as sondagens de opinião pública demonstram que pelo menos 80% dos gregos rejeitam o nacionalismo anti-europeu de organizações como o Partido Comunista. Mas a postura também expressa uma estratégia de governo, para o caso de vitória eleitoral. A Syriza parece saber que, nesta hipótese, não poderá limitar-se às fronteiras nacionais. Sozinha, a Grécia já não é capaz de emergir da crise em que afundou. Tsipras precisa mobilizar amplos setores das sociedades europeias pela reversão das políticas impostas pela troika. Pode parecer estranho, mas este objetivo, aparentemente muito mais ambicioso e difícil, está a seu alcance.

Numa entrevista concedida ao excelente New Left Project, Michalis Spordalakis, professor de Ciência Política da Universidade de Atenas ajuda a compreender poque. A situação atual da Grécia, explica ele, é ainda mais grave que a que levou a Argentina a decretar, na virada do século, a maior moratória da história do capitalismo.

As diferenças estão na economia e na política. Embora vivessem anos de crise social, os argentinos tinham, em seu território extenso e em seu setor agrícola com larga tradição exportadora, um claro potencial para gerar dólares. A Grécia, não: uma das consequências de uma ruptura abrupta com o sistema financeiro internacional seria a interrupção do suprimento de bens essenciais – entre eles, petróleo e medicamentos. Na Argentina, além disso, a desvalorização da moeda nacional foi apoiada por setores do empresariado que desejavam livrar-se da concorrência externa. Na Grécia, onde isso não se repetiria, “a declaração unilateral de moratória representaria um tremento tiro no pé para a esquerda”, avalia Spordalakis.

Mas se a Grécia depende do sistema financeiro internacional para manter-se viva, a recíproca parece ser em grande parte verdadeira. Nas últimas semanas, estão se multiplicando, nas publicações internacionais que vão além do superficial, artigos alertando para os riscos a que a economia da Europa estaria exposta, em caso de um desacoplamento grego. Em 11/5, a revista The Economist especulou sobre o contágio que se produziria, quase instantaneamente, sobre Portugal, Espanha e Itália – onde o tamanho das economias produzirá desdobramentos potencialmente muito mais graves. Duas semanas depois, a mesma revista advertiu os líderes europeus (e em especial a chanceler alemã, Angela Merkel) para a necessidade de abandonarem as políticas atuais, totalmente baseadas em redução de investimentos públicos.

Em 15/5, o Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman lembrou, em sua coluna no New York Times, que os problemas gregos são, basicamente, desdobramentos da cegueira da troika. O título de seu comentário, “Apocalipse muito breve” [Apocalypse Fairly Soon] dispensa comentários adicionais sobre o que prevê, caso a atual postura se mantenha. Nesta sexta-feira (15/6), Matthew Craft, um analista financeira da agência Associate Press chega a prever, ato por ato, os desdobramentos de uma crise financeira iniciada na Grécisa – e como ela atingiria os EUA e o resto do mundo.

Toda a visão programática de Alexis Tsipras e do Syriza parece balizar-se nestes dois parâmetros: a Grécia não se salvará sozinha; porém, a Europa não poderá descartar os gregos, se quiser reconstruir-se perante o mundo e si mesma. A eles, a coalizão apresentou, em 3/6, as bases de seu programa econômico. Está claramente baseado num grande compromisso: anular o chamado Memorando, documento que consolidou, em fevereiro deste ano, a submissão do país à troika. Relativamente longo, bem-estruturado e abrangente, compromete-se com a reposição do salário-minimo (anulando o corte de 22%) e a extensão do seguro-desemprego.

Para garantir os direitos sociais e relançar a produção, sugere elevar a despesa do Estado para o mesmo patamar médio da Europa: entre 43% e 46% do PIB. Pede algo simples, para alcançar tal objetivo: que a elite grega passe a pagar impostos. Como em tantos outros países, as isenções fiscais gregas insultam a ética e o bom-senso. Os proprietários de navios não pagam tributos; o Memorando manteve seus privilégios, enquanto elevava o imposto equivalente que onera alimentos e tarifas dos serviços públicos…

A Grécia quer substituir o fracassado Memorando por um “plano nacional para reconstrução e crescimento”, frisa Alexis Tsipras no artigo que produziu para o Financial Times. Com o mandato que espera obter das urnas, no domingo, ele também promete “tomar providência imediatas para acabar com os mecanismos políticos corruptos e ineficientes, que destruíram nossa economia nas últimas décadas”. Embora com luvas de pelica, são dois tapas na cara da oligarquia financeira europeia – que estabeleceu sólidas alianças com a corrompida elite política grega e que queria exigir, a todo o custo, aplicação do Memorando.

Mas é quando se dirige a outras plateias que Tsipras expõe com clareza a dimensão continental de seu projeto. Em meados de maio, ele fez um giro pela França e Alemanha, as duas vigas-mestras da União Europeia. Em Paris, visitou a Assembleia Nacional e falou em seguida a dezenas de jornalistas. “Acreditamos que em 17 de junho, na Grécia, as forças da esperança vencerão o medo (…) Queremos mudar as coisas para emitir, bem clara, uma mensagem de esperança a toda a Europa (..) E para buscar, com todos os povos europeus, uma refundação da Europa – outra Europa que, dessa vez, será criada sob princípios de solidariedade e coesão social”.

Falta examinar uma terceira dimensão da possível vitória do Syriza no domingo. Que ela representaria para a cultura política da horizontalidade e da autonomia, que está sendo acalentada, há cerca de duas décadas, em movimentos como o zapatismo, os Fóruns Sociais Mundiais e a série de rebeliões que pipocam mundo a partir de 2011? E mais: que pontes este resultado surpreendente permitia estabelecer entre a nova cultura e a esquerda formada diretamente na tradução dos séculos passados?

Slavoj Zizek e Alexis Tsipras

Seremos todos gregos, agora?
Como eventual vitória da Syriza colocaria a nova cultura política do altermundismo frente ao desafio do poder

Há algumas semanas, quando enxergou pela primeira vez a possibilidade de uma vitória eleitoral da Syriza, o filósofo e psicanalista Slavoj Zizek considerou-a um fato de importância extraordinária, por dois motivos. Seria um desafio à ditadura dos mercados e ao declínio da democracia — um processo em que as sociedades perderam poder de escolha real, já que cada um é livre para escolher, desde que faça a escolha ‘certa’. Por isso, quando se faz a escolha ‘errada’ está é tratada como desvio; e o establishment imediatamente exige que se repita o processo ‘democrático’, para que o erro seja reparado.

Além disso – e talvez mais importante – a formação de um governo liderado pelo Syriza, num país arrasado, iria se converter num imenso desafio não apenas para a coalizão, mas para todos os que se atrevem a enxergar um mundo pós-capitalista. Os gregos “terão de mostrar-se capazes de montar e cumprir uma formidável combinação de princípios e pragmatismo; de compromisso democrático e presteza para intervir com firmeza onde seja preciso”, frisou Zizek. E acrescentou: “para que tenham uma mínima chance de sucesso, precisarão de toda a solidariedade dos povos europeus; não só de respeito e tratamento decente pelos demais países europeus, mas, também, de ideias mais criativas – como a de um ‘turismo solidário’ nesse verão, que já propuseram”.

A perspectiva vislumbrada por Zizek – apoiar um governo, envolver-se na própria criação de suas políticas – é provocadora para os movimentos de contestação ao capitalismo, que se espalharam pelo mundo em 2011, partir da Primavera Árabe. Na Espanha, Grécia, Israel, Chile, Estados Unidos – e também no Quebec (Canadá), em 2012, a perspectiva que tem prevalecido nas imensas manifestações em que protesta contra os valores do sistema, é a negação da política institucional. No nos representam, slogan dirigido genericamente a todos os partidos, é uma frase bastante frequente. Além de denunciarem a desigualdade, a opressão exercida pela finanças sobre toda a sociedade e o desmonte dos serviços públicos, os manifestantes fazem escárnio da “representação” política. Adotam uma perspectiva semelhante à da imagem cunhada por José Saramago. Se a democracia reduziu-se a uma encenação dissimuladora, qual o sentido de participar do jogo?

No entanto, talvez Zizek tenha identificado a necessidade de um passo adiante. A crise do capitalismo está conduzindo o planeta para um território cada vez mais marcado por incertezas. Ele oferece riscos enormes, e também imensas oportunidades. Mas é preciso agir rápido: a história não espera processos de decisão intermináveis, como os que marcavam as assembleias de espanholas de acampados. Na Europa, por exemplo, um dos fenômenos mais presentes dos últimos tempos é o ressurgimento da xenofobia, da ultra-direita e do próprio nazismo.

Nestas condições, bastará a denúncia? Não valerá a pena oferecer alguma perspectiva de poder institucional, para a vasta parcela da opinião pública que rejeita as opções hoje adotadas por políticos e banqueiros? Os fatos mais recentes revelam que já começou, principalmente nos países mais atingidos pela crise, um movimento neste sentido.

Ele é muito recente, porém muito claro. Expressou-se com clareza, em outros países europeus, no mesmo 6 de maio em que a Syriza despontou na Grécia. Chamadas às urnas, em eleições de diferentes níveis, as sociedades da França, Alemanha e Itália expressaram claramente duas tendências. Primeiro, rejeição às políticas de ataque aos direitos sociais e serviços públicos. Simultaneamente, adesão a alternativas políticas até há pouco inusitadas. Na França, além de derrotarem Nicolas Sarkozy (que formava, com a alemã Angela Merkel, o pivô em favor das políticas neoliberais na Europa), os eleitores ressuscitaram o orgulho comunista, ao darem mais de 10% de votos à Frente de Esquerda. Na Alemanha, onde Merkel foi flagrantemente derrotadas, o Partido Pirata ultrapassou pela terceira vez a marca dos 5% dos votos num dos Estados federados (Schleswig Holstein), e chegou ao parlamento local. Na Itália, onde as eleições são municipais, a surpresa foi a aparição do Movimento Cinco Estrelas, que, liderado pelo ator Beppe Grillo, faz uma crítica radical (e irreverente) às políticas de “austeridade” e aos partidos tradicionais.

Graças à profundidade da crise econômica, social e política da Grécia, mas também a sua própria formação e transformação peculiar, é possível que caiba à Syriza a aventura de testar o que pode fazer, no governo, um partido identificado com o pós-capitalismo. É o que talvez possamos ver, nas próximas horas

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Antonio Martins

Antonio Martins é Editor do Outras Palavras