A cura peripatética

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Solvitur ambulando”, resolver andando. O fluxo, o caminhar. Areja, ventila, abre janelas. É antídoto à alienação, à ansiedade e a sua irmã gêmea, a letargia

Por Maria Bitarello

Desde que me mudei pra São Paulo, há mais de cinco anos, a maior dificuldade de adaptação à cidade que encontrei é a insuficiência de lugares verdes, abertos, de natureza. Mesmo sendo eu uma apreciadora cotidiana das frondosas árvores que, por razões inexplicáveis pra mim, continuam sobrevivendo com exuberância até nas partes mais concretadas da cidade. Mesmo assim. Faltam respiros em meio aos edifícios, locais não especulados imobiliariamente. Falta horizonte. Céu. Silêncio. E faço aqui de São Paulo uma metonímia, uma parte pelo todo, uma cidade representando as grandes metrópoles onde, cada uma a sua maneira regional/cultural, os desafios da vida urbana se apresentam de forma parecida.

Pela primeira vez na história da humanidade, hoje a população urbana já ultrapassa a população rural. Somos 8 bilhões de pessoas no mundo vivendo, majoritariamente, amontoadas em cidades. E eu cá do meu lado, com nada mais que a intuição e a experiência de já ter vivido em algumas megalópoles, acredito que esse tipo de existência nos apresenta, fora os desafios evidentes de convívio e decência mínima pra acomodar as diferenças, armadilhas à saúde psíquica e espiritual que não devem ser subestimadas.

Se pensarmos bem, faz muito pouco tempo, falando em termos evolutivos, que temos uma vida tão “segura” do ponto de vista de nossa sobrevivência; uma vida onde comida, água e abrigo estão ao alcance imediato. As barreiras impostas pelo capitalismo fazem dessa afirmação uma inverdade, naturalmente, mas acompanhe o raciocínio pensando menos em acesso econômico e mais em tempo e energia dedicados a essas necessidades. Somos uma espécie que andava, caçava, cultivava e que hoje só compra e aperta play. E não estou fazendo aqui um elogio ao bom selvagem, uma ode nostálgica à era pré-tecnológica. Sou muitíssimo grata à penicilina, ao flúor, à cafeteira, ao banho de água quente e ao aplicativo do Banco do Brasil. Apenas constato que, com todas as facilidades da vida contemporânea, algo primitivo em nós parece não ter mudado tão rápido assim, e o sedentarismo adquirido graças à engenhosidade de nosso cérebro nos deixou (mais) neuróticos. Talvez por não sabermos o que fazer com a energia que sobra. E devemos olhar pra isso, reparar. Pra não virar doença.

E aí entra de tudo. De dor de garganta a crise renal, mas sobretudo ansiedade, depressão, pânico, sentimentos às vezes inexplicáveis que nos assolam em números cada vez mais altos e que, acredito mesmo, poderiam ser apaziguados ou mesmo extintos se a gente fosse pro mato com mais frequência. É meio evidente que não estamos lidando bem com o confinamento em apartamentos, a cabeça voltada pra baixo olhando o celular, o fone no ouvido blindando o mundo, a ausência de contato com os processos mais primários da natureza – como a mudança de estações. Aos poucos, estamos enlouquecendo como indivíduos e como espécie.

TEXTO-MEIO

Num estágio avançado, essas patologias que aqui estou especulando são geradas por estagnação energética e alienação do natural passam da ansiedade (que vejo como energia que tem até potencial criador, mas que uma vez encapsulada começa a se voltar contra seu criador, ou seja, você) à letargia. Ou seja, excesso de energia acumulada, misticamente, vira falta de energia. Por autocombustão, sei lá, uma implosão da alma. Aí o que temos são pessoas sempre cansadas, sempre desanimadas, sem entusiasmo, dormindo mal. E uma pessoa exausta não pode ser uma pessoa feliz.

Solvitur ambulando. A expressão em latim quer dizer “resolver andando”. E o “andando” aqui pode significar fluxo, não estagnação, mas também caminhar. Movimento é sossego. Eu acredito muito nessa expressão. Na cura peripatética. Andar areja, ventila, abre janelas na cabecinha pra fumaça sair. Se possível for, andar no mato. A natureza não é cerebral nem neurótica. Ela apenas é. Como é o caminhar. E isso, só isso, já coloca tudo em perspectiva. Porque nós somos parte desse tudão. Não há como se separar dele. E é precisamente a ilusão dessa separação a fonte de nossa maior aflição. Solvitur ambulando.

TEXTO-FIM

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Maria Bitarello

Escritora, jornalista e tradutora. Mestre em Literatura Brasileira e Portuguesa pela UCLA. Só sei que foi assim (2014) é seu primeiro livro. Outros trabalhos seus estão no blog ioncemetagirl.com