A Crise do Homem e o atendimento do SUS

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Imagina um lugar de aprendizagem sobre corpo, alimentação alternativa, ervas medicinais, banhos, sexualidade, massagens. Isso, sim, seria um Posto de Saúde

Por Fabiane M. Borges*

Esse texto é uma tentativa de falar sobre os problemas referentes aos postos de atendimentos primários e ambulatoriais de saúde a partir da perspectiva de um personagem conceitual. Ele é homem, meia idade, pobre, vive em uma comunidade qualquer e está atravessando uma profunda crise existencial, correndo risco de surto ou de adoecimento psíquico grave. Ele tem que decidir se entra ou não em tratamento de saúde seguindo os atendimentos e encaminhamentos desses postos.

A partir da perspectiva desse personagem, a autora levanta algumas questões históricas, conceituais e críticas relacionadas a biopolítica, indústria farmacêutica e tratamento psiquiátrico oferecido pelo Sistema Único de Saúde. O personagem não contempla todas as masculinidades existentes, de certa forma é um personagem caricato, mas sua sensibilidade atravessa todas esses gêneros múltiplos, que em algum momento da vida sentem-se sem saída e precisam de ajuda. O texto pretende sensibilizar atendentes e gestores dos postos de saúde sobre a necessidade de ampliar o conceito de saúde e de loucura assim como fortalecer as redes que operam com saúde mental de forma estendida.

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A Crise do Homem

Ele anda cansado, sua honra de homem, contraída em alguma cultura predominante e ineficiente, tem mostrado evidentes traços de derrota. Sente-se caído, usurpado, desvalorizado. Os sonhos de subir na vida, de ter família, de ser chefe de alguma coisa têm sucumbido, a violência, a paranoia, a mesa do bar, o canto da droga, o sexo pago, conquistado ou roubado, têm sido as únicas coisas que lhe garantem estar vivo. Tem gente lhe perseguindo, lhe mostrando os dentes, lhe atravessando a mente com raios vetorizados, tem ouvido ruídos demais. A angústia se esconde atrás das palavras, e parece que ele não cabe no mundo. O mundo é grande demais, ou a vida parece somente insatisfatória. Sua potência de vida está longe de si. Passa pelo ambulatório, às vezes até pensa em lá chegar para pedir ao médico de plantão um remédio para dor na alma. Já sabe o que vai acontecer. Vai ter fila para marcar horário para um outro dia, e depois de esperar vai ser encaminhado para um psiquiatra, e depois de esperar mais, ele vai ver o psiquiatra e este vai lhe dar remédios para loucos, vai lhe deixar meio abobado, meio broxa, passivo… Mesmo sem entender exatamente o que esses remédios fazem, desconfia que faz parte de um jogo contra sua virilidade. Vão lhe proibir de beber álcool, vão criticar seu uso exagerado de tabaco, vão lhe atender rápido demais por causa da fila atrás de si, e não vão compreender todas as coisas que teve que vencer para chegar até ali. Se sentirá um número, um dado social, um ser controlado pela lógica das perguntas. Vão lhe perguntar onde é a dor, ele vai ter medo de falar da dor, porque é escondida demais, vão pensar que é mulher, vão lhe internar, vão lhe deixar naquelas casa de doidos improdutivas, mexendo com papel machê o dia inteiro.

Não! Não sou um número, nem um louco, nem um desesperado por drogas de graça!! Não vou entrar. Vai no bar e ali consegue rir da cara do homem mais louco que ele próprio, que acaba de ser expulso. Seu corpo está cansado da sua repetição, mas não vê muita saída. Falar em casa já é difícil. Está um tanto destruído. Até pensa em se matar, mas parece que vai pro inferno se fizer isso. Aqueles postos de saúde deveriam ser postos de saúde, mas são postos de doença e fila, doença e espera, tudo é espera, e onde eu faço caber minha urgência?

Ele precisa de ajuda, ele sabe, talvez na igreja, “daí eu me sinto mais singular, porque Deus tem olhos para todos os seus filhos”. Mas já foi vítima do pastor novo que lhe diz que é endemoniado, Em nome de Jesus, SAI!!! O pastor bate com a bíblia em sua cabeça e o barulho produz um eco que lhe segue. Está cada vez mais sozinho, improdutivo, não consegue sustentar nenhuma das suas expectativas. Aqueles pontos de saúde deveriam ser lugares de saúde, pensa de novo. Chegar ali poderia ser uma fonte de vida, de humanidade, “deveria me sentir valorizado, ouvido, atendido, respeitado, deveria sair mais forte, acreditando em alguma mudança de paradigma, capaz de inventar outra vida”.

Como chegou no fundo do poço? Logo ouve a voz que lhe fala: “o poço não tem fundo”, daí pede outro trago de cachaça, “pendura aí”! Pendurar a conta da cachaça tem sido cada vez mais difícil, falta dinheiro, argumento, companhia. Parece ter sido reduzido a um pensamento obsessivo, prepotente, que tem a função de lhe destruir peremptoriamente. Já deixou de ser homem há algum tempo, pelo menos esse ideal de homem que seu pai dizia: homem não chora! Homem trabalha! Homem sustenta a família! Homem é forte! Homem tem amigos! Homem é chefe do lar! Homem é homem! Nada disso parecia existir! Parecia tudo ao contrário. Sentia-se vulnerável, sensível demais, chorão, incapaz de sustentar-se, sustentar os filhos e a esposa, na verdade ex-esposa, isso tudo não fazia mais parte do seu mundo. Você não é um homem, você é um rato, dizia sua cabeça estridente num megafone.

Teve seus momentos de glória durante um tempo. Fez filhos, teve algum dinheiro pra botar comida em casa, era até considerado no trabalho, mas houve inundações em todos os níveis no seu mundo de vidro, estilhaçado agora por toda uma modernidade que ele não acompanha. A velocidade do mundo lhe parece rápida de mais. Mesmo que quisesse dar conta de tantas novidades que se apresentam diante dele, não tinha mais tempo, sua vida estava esvaindo pelas mãos, não há mais tempo, concordavam, ele, a cachaça e a cabeça comandante.

Sua confusão era sua ou do mundo? Isso não entendiam no posto de atendimento, de que a confusão também era do mundo. Eles segmentavam seu sofrimento, o deixavam claustrofóbico, tinha certeza que não era só sua toda essa confusão! O mundo lhe falava todo o tempo: não existe aqui lugar para você. O mundo estava em complô contra ele, mas ninguém via isso. Achavam que era um incapaz por si só, que nada além dele mesmo o fazia um fracassado. Loser. Fracassado. Incapaz. Loser, fracassado, incapaz… Isso era dor do mundo, não era só dele! Ele era o corpo que expressava a dor do mundo, o bode expiatório da sociedade.

Biopoder e Farmacopornografia

Muitos autores já sabiam disso, que tratar a loucura como se fosse problema somente do sujeito e não do circuito social, econômico, cultural em que ele está inserido, não acrescenta muito resultado no processo de “cura”. Para esses pensadores, a loucura funciona também como uma possessão de forças do fora que se manifestam em alguns sujeitos com mais radicalidade que em outros, devido a algumas sensibilidades ou zonas de vulnerabilidades que uns tem em mais quantidade que outros.

Esses sujeitos em processo de enlouquecimento representam uma ameaça à estrutura social, e quando eles mostram sinais de ruptura com os modos de produção, consumo e preservação dos valores da sociedade, ele será admoestado pacífica ou violentamente. Pacificamente seria o caso de ser medicado a ponto de se tornar obediente, adaptado, aderente ao projeto de Estado, de família e aos planos econômicos produzidos sobre ele, a isso podemos chamar de indústria da produção de conformidade, ou projeto de pacificação. O sujeito se torna dependente dos serviços psiquiátricos e tenta, na medida do possível não apresentar problemas. A admoestação violenta são os casos mais graves, onde o sujeito será internado, dopado, retirado do circuito social, despossuído da sua cidadania e dos seus direitos, entrará em estado de suspensão indeterminada, seja em clínicas, hospitais, prisões ou mesmo em casa, através de administração medicamentosa forte, privação, imobilidade forçada.

O projeto de inclusão desse sujeito nos planos da sociedade suscita um questionamento que Peter Pál Pelbárt colocou em seu artigo “Manicômio Mental – A Outra Face da Clausura1”:

“Ao borrarmos essa fronteira simbólica e concreta entre a sociedade e seus loucos não estaremos, sob pretexto de acolher a diferença, simplesmente abolindo-a? Não estaremos com um carinhoso abraço de urso, conjurando o perigo que os loucos representam? Não estaremos, através de uma tecnologia soft, baseada na brandura e na diluição, domesticando a fera que os habita e nos livrando da estranheza que eles transmitem? Para dizê-lo de modo ainda mais incisivo, será que a libertação do louco não corresponde, no fundo, a uma estratégia política de homogeneização do social?”

Cabe dizer aqui que de modo nenhum pode-se ignorar o sofrimento onde alguns sujeitos são lançados nesse processo de adoecimento psíquico. Esse sofrimento existe, e é agravado por sentimentos de baixa estima, exclusão, inadaptação, rejeição, auto-comiseração, ansiedade, sentimentos de inferioridade e impotência. Certamente precisam ser ajudados, compreendidos em sua dor. Mas é importante levar em conta que essa ajuda não deve se pautar na estratificação da doença a ponto de tornar o doente o único culpado pelo seu adoecimento, nem deve se pautar no projeto de readaptação a qualquer custo, a fim de devolver o sujeito para o seu contexto sócio / econômico de forma resignada, fazendo-o retornar exatamente para o mesmo contexto que o adoece.

O jogo de forças que se estabelece aqui tem a ver com as diferentes interpretações e perspectivas sobre a doença mental. Se por um lado ela é vista como uma falha da razão, uma falta de inteligência, uma fraqueza de caráter, que é o que justifica o tratamento baseado na indústria da produção de conformidade ou projeto de pacificação, por outro lado tem-se visões mais ontológicas, existenciais, que veem no louco uma diferença radical, uma alteridade fundamental, o outro da humanidade, o extra, o do outro lado do pensamento. E é a a partir dessa perspectiva, que se coloca a pergunta de Pálbert, a tentativa de “humanizar” o louco, ou seja, adaptá-lo, diminuir sua resistência, sacrificar sua diferença, não tem como pano de fundo o ideal de homogenização social, onde o desarrazoamento é proibido e até punido?

O movimento da antipsiquiatria, reforma psiquiátrica e movimento antimanicomial basearam-se na ideia da loucura como expressão de singularidade e de diferença, para pautar suas discussões, e as lutas a partir dessa perspectiva contra os donos de hospícios, asilos de alienados e indústria farmacêutica e psiquiátrica foram muito difíceis. As tensões se agravaram quando o fim dos manicômios se tornaram projetos de Leis. Foram preciso muitos relatórios, documentários, cartas, movimento de resistência, apoio da sociedade para que se acabassem com os regimes prisionais em que os loucos eram submetidos. Baseados nas experiências positivas como as que Franco Basaglia produziu na Itália, foi possível no Brasil inserir no contexto da “loucura”, outros projetos mais humanos, libertários e respeitosos. Em nosso país, somente nos anos 1990 o regime carcerário deu lugar ao tratamento da saúde mental em termos mais abertos. De certa forma, ainda faz muito pouco tempo, e esses modelos continuam em constante risco. O risco de retornarem os regimes carcerários para o cuidado da loucura está sempre iminente, e por isso é válido retomar essa discussão constantemente.

Aqui cabe a resposta de Félix Guattari no texto “Antipsiquiatria e Antipsicanálise2” à seguinte pergunta: “Então a instituição psiquiátrica não desapareceu, senão para reaparecer mais sorrateiramente?” Ao que ele responde: “Sim, miniaturizada. Aliás o que me espanta é que todas as grandes formações repressivas, a escola, o exército, que eram antes constituídas por conjuntos institucionais formando um só bloco, tendem agora a ser pulverizadas, e espalhadas por toda parte. (…) Em breve, cada um será para si mesmo sua própria ferramenta repressiva.

O que Guattari está alertando, levando em conta que o texto foi publicado em 1977, é que o quadro que se mostrava era o de crescimento dos modos de controle a partir de mecanismos mais sutis do que a instituição de confinamento, e que o fim dos manicômios não representava necessariamente o fim do controle médico-psiquiátrico ou da industria farmacêutica sobre o doente, mas ao contrário, representava seu fortalecimento nas raízes da sociedade, não mais setorizado, mas como um dos fundamentos da sociedade. Nesse sentido, o fim dos manicômios não significou a liberdade da loucura, mas a patologização sistemática de todos os seres humanos, a vitória dos medicamentos e da medicina sobre a humanidade como pilar do controle social, ou seja, um dos quadros do biopoder, que é o poder sobre a vida em seus regimes mais microbiológicos e subjetivos.

Beatriz Preciado denomina o biopoder de “Era Farmacopornográfica”, que é a gestão política e técnica do corpo e da subjetividade através da invasão microcelular, que tem como finalidade criar sujeitos em estado de gozo artificial, com sensibilidades atrofiadas, equilibrados em suas sensações e capazes de suportar os revezes da vida pós moderna, em todos os riscos que promove e toda a obediência que necessita. Ela cita exemplos dessa pornografia da farmácia denunciando desde as intervenções estéticas, as administrações hormonais, o controle da sexualidade através de pílulas, remédios para potência e excitação, até a produção massiva da subjetividade humana através da indústria farmacêutica-psiquiátrica. Esse período apresenta subjetividades dominadas por substâncias que controlam os metabolismos e conduzem as ações humanas. “Assim falaremos de sujeitos Prozac, sujeitos Cannabis, sujeitos Ritalina, sujeitos Cortisonas, sujeitos Silicones, sujeitos Viagras, etc3”. Nessa nova industria de produção de subjetividade o que se produz são corpos dóceis, menos resistentes às metodologias de dominação, à fabricação de valores e construtores de desejos de consumo.

Quando nosso personagem conceitual resiste a entrar no Posto de Saúde, mesmo que talvez esteja inconsciente de todas essas questões pautadas acima, existe enquanto intuição o temor de ser “castrado” quimicamente e transformado em um zumbi medicado, que não representará mais um problema dentro da sociedade, mas tampouco será mais ele mesmo. Ele teme principalmente ser abandonado por si mesmo e virar uma espécie de robô des-subjetivado. De um homem passará a ser um ente dependente das forças médicas e farmacopornográficas.

Os moradores de rua apresentam esse quadro reincidente. Homens que desistem de tentar sustentar a vida de homens e sucumbem ao desespero, ao álcool, às drogas, ao surto. Motoristas de ônibus, bancários, vendedores, serventes, pessoas que trabalham o dia inteiro em trabalhos que se repetem e não lhes permitem ter uma experiência de vida mais emocionante ou alinhada as suas potências e desejos. Homens que não aguentam manter seu cotidiano e sofrem psiquicamente sem muita perspectiva de mudança. O homem surta, vai para o psiquiatra, toma remédio, fica brocha, briga com a mulher, se deprime, vai para a cachaça, é expulso de casa, fica sem ter onde morar, perde a referência, vai morar na rua e mendigar, se torna um morto-vivo, um homem trapo, um mal estar para a sociedade, um bode expiatório onde todas as ameaças de fracasso encontram um alvo. Nosso personagem também sente-se ameaçado pelo signo máximo da decadência que é se tornar um morador de rua louco, e sabe das possibilidades concretas da sua queda.

Por insistência da parca família que sobra, vai para a fila do ambulatório, de novo. Medicado, levado para uma CAPS, começou a participar de workshops e projetos de reinserção social, que eram fracos demais para funcionar com ele, e sem relação com sua história pregressa ou com uma cartografia das suas potências.

Atendimento e o Humaniza SUS

Os postos de saúde deveriam ser postos de SAÚDE, não postos de doença e espera. É preciso ampliar a visão sobre saúde, fazê-la tornar-se parte da vida das pessoas em tempo integral. Imagina um posto de saúde perto da sua casa que funcionasse como um lugar de aprendizagem sobre saúde, alimentação, culinária alternativa, ervas medicinais, banhos, cursos sobre sexualidade, massagens, onde a comunidade local fosse chamada também para compartilhar seus conhecimentos, onde passassem filmes sobre loucura, prevenção à doenças, desmistificação dos remédios, onde o cardápio de serviços de saúde fossem acessíveis, onde as pessoas saíssem com a sensação que aprenderam algo novo sobre corpo, saúde e políticas de saúde cada vez que aparecem lá, desde criança. Onde elas se sentissem participantes. Isso seria um POSTO de SAÚDE.

Essa ideia de SAÚDE existe nos projetos do “Humaniza SUS”, que prevê autonomia e protagonismo dos sujeitos, o estabelecimento de vínculos solidários entre usuários, atendentes e gestores e a defesa incondicional de uma vida digna de ser vivida, onde as capacidades individuais são afirmadas e valorizadas.

Esse projeto é quase perfeito, não fossem as demandas que todos os sujeitos implicados no processo têm diariamente, e sem conseguir dar vazão para elas, acabam por executarem ações pontuais, burocratizando as várias etapas de acolhimento, triagem, encaminhamento, não conseguindo tratar os sujeitos como participantes de fato de todo esse processo, e mal conseguindo garantir suas próprias demandas de saúde.

“Desdobra-se daí a questão do acesso aos serviços que, de modo geral, é organizado burocraticamente a partir das filas por ordem de chegada, sem avaliação do potencial de risco, agravo ou grau de sofrimento. Este funcionamento demonstra a lógica perversa na qual grande parte dos serviços de saúde vem se apoiando para o desenvolvimento do trabalho cotidiano. Lógica essa, que tem produzido falta de estímulo dos profissionais, menor qualidade da capacitação técnica pela não inserção do conjunto de profissionais ligados à assistência, e não inclusão dos saberes que os usuários têm sobre sua saúde, seu corpo e seu grau de sofrimento. Acrescenta a isso a não integração de diferentes setores e projetos e a não articulação com a rede de serviços no sistema de encaminhamento de usuários a serviços especializados, tornando o processo de trabalho solitário e fragmentado”4.

Fragmentado, disperso, envolvido na máquina burocrática e morosa do aparelho de Estado, sem controle sobre nenhum dos processos, nem sobre seu próprio sofrimento, desvalorizado no seus saberes e nas suas potências o nosso personagem tem duas saídas. Ou burocratiza sua relação com tudo isso, diminuindo sua expectativa sobre uma mudança de vida efetiva e internalizando a instituição, ou desiste por cansaço, entregando-se à queda inevitável.

Parecer Final

Do que estamos falando? Estamos falando dos sistemas de doma e do que são feitos os projetos de saúde. De como ele chega na população masculina, pensando aqui em todos tipos diferentes de masculinidades possíveis. Não podemos ser ingênuos em dois pontos fundamentais: 1) que o saber médico quer deter o conhecimento sobre tudo que se refere a saúde; 2) que a indústria farmacêutica quer dizimar as singularidades destoantes do sistema.

Diante dessas duas premissas é interessante avaliarmos os procedimentos dos postos de saúde, dos espaços de tratamento da saúde mental e verificar se no fundo não se está trabalhando para o fortalecimento das duas instituições mais poderosas relacionadas à Saúde, que é a medicina e a farmacologia, enquanto que a SAÚDE mesmo, é posta em segundo plano. Isso posto, pensemos em quais outras alternativas esses serviços podem reivindicar.

A anti-psiquiatria italiana, as experiências do La-Borde na França, algumas ações nas CAPS no Brasil, assim como inúmeros outros trabalhos, como Museu do Inconsciente ou Companhia Teatral Weinzz têm demonstrado que é possível fazer trabalhos mais profundos sobre Saúde Mental, do que somente atendimento, contenção química e passatempo. Porém é notório também que esses trabalhos dificilmente conseguiriam se tornar Programas de Saúde Pública alastrados por todo o território nacional, em função de suas especialidades e contextos locais. De modo que não nos restam saídas fáceis, nem imposição de modelos absolutos de prevenção, encaminhamento e tratamento. Resta-nos insistir em questões já levantadas pelo Humaniza SUS, que devem ser fortalecidas. A isso acrescenta-se mais algumas possibilidades:

1) Para municípios, estados e federação: Levar para os postos de atendimento básico e ambulatórios mais discussões, seminários, trocas de experiências, premiações de projetos, financiamento de trabalhos inovadores, fortalecimento das redes de saúde ou outras envolvidas com constantes atividades, intersetorialidade, debates permanentes com a sociedade civil, apresentação de soluções em pequena e grande escala com valorização por parte do governo às novas iniciativas, descentralizar a ideia de saúde somente da medicina e da industria farmacêutica ampliando o conceito de saúde e fortalecendo os programas de prevenção.

2) Mudança estrutural nos modos de atendimento primário e ambulatórios: engajamento do trabalhador nos processos dos usuários, valorização dos seus saberes e potenciais, busca de empatia e compreensão das suas queixas, compartilhamento de conhecimentos, multidisciplinaridade, intersetorialidade, cardápio de tratamentos em constante estado de ampliação, produções festivas e culturais nos postos voltados para prevenção e saúde, aprofundamento da relação dos postos com as comunidades, atendimento nas residências, exibição de cinema sobre saúde, loucura, doenças, cursos de formação em atividades relacionadas a cuidado e conhecimentos de saúde, trabalhos em grupo, facilidade de encaminhamento, rapidez no atendimento, eficiência nas respostas, formação constante para os atendentes e gestores, participação dos usuários nos projetos internos dos postos, criação de acessibilidade aos conhecimentos sobre tudo que diz respeito a saúde.

*Fabiane M. Borges é Doutora em Psicologia Clínica – Núcleo de Subjetividade PUC/São Paulo. Autora e organizadora de quatro livros, psicóloga de grupos, trabalhou com saúde mental e moradores de rua no Rio Grande do Sul, São Paulo e Brasilia, foi consultora do Programa de Prevenção às DST/Aids do Ministério da Saúde. Texto escrito para o Caderno de Atenção Básica sobre Saúde do Homem do Ministério da Saúde 06/2013 (não aceito para publicação pelo departamento de Saúde do Homem por seu caráter poético).

1Cfe. Peter Pál Pelbárt. Nº 2 Saúde e Loucura. Ed. Hucitec. 1990/São Paulo. Brasil. Cap. Manicômio Mental – A Outra Face da Clausura.

2Cfe. Félix Guattari. A Revolução Molecular. Editora Brasiliense. 1987/São Paulo – Brasil. Cap. Antipsiquiatria e Antipsicanálise

3Cfe. Beatriz Preciado. Testo Yonqui. Ed. ESPASA. Espanha.2008. Cap. “La Era Farmacopornográfica”.

4“Ministério da Saúde. Acolhimento com Avaliação e Classificação de Risco – UM PARADIGMA ÉTICO-ESTÉTICO NO FAZER EM SAÚDE – Série B Textos Básicos de Saúde. Brasilia/2004 – http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/acolhimento.pdf

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Fabiane M. Borges

Fabiane M. Borges é psicóloga ensaísta e artista, desenvolve pesquisa sobre arte urbana, performance, movimentos sociais, esquizoanálise, saúde mental. Dedicou sua tese de doutorado a assuntos relativos à cultura espacial, satélites, foguetes, comunicação e programas de apropriação orbital (open source) a partir do ponto de vista de pequenas e médias empresas e hacklabs (faça você mesmo e cultura maker). Faz atendimento terapêutico e tem uma empresa de consultoria com Adriana Veloso (Cosmos Consultoria). Publicou os livros: Domínios do Demasiado (Ed. Hucitec. SP. 2010), Breviário de Pornografia Esquizotrans (Ed. Ex.Libris), Ideias Perigozas (Ed. Des. centro. 2010), Peixe Morto (Org. Ed. Imotirô. 2011). Mantém o site: http://catahistorias.wordpress.com