A Casa

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Sete rolos compressores sujando as minhas e as suas mãos de sangue. A intimidade violada de milhares de famílias. No domingo, dia de “casa”

Por Marília Moschkovich, editora de Mulher Alternativa

Um.

Era eu uma mulher branca. Na família muitos diplomas – além do meu. Escola particular, universidade elitizada, “de ponta” diriam alguns. Pós-graduação, a bolsa mais cobiçada. Pagava mal mas pagava bem. Olhar de pesquisadora sobre nós mesmos, a elite. Eis que entra a moça negra. Ela, de olhos doloridos, nos conta: o dia em que um rolo compressor passou por sua casa. Literalmente. A corrente de pessoas na rua, a favela, o bairro. As coisas das pessoas. As vidas das pessoas. A pressa em esvaziar. Eu vira na TV, passara longe do bairro no dia, esquecera-me do assunto. Ela, jamais.

Dois.

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A antropóloga Janet Carsten em “After Kinship” diz que a “casa” é onde as relações são produzidas na repetição de pequenas rotinas rituais. Comer junto. Ir dormir. Ver tevê. “Casa” não é só o espaço físico, mas a própria rede de relações, símbolos e outras apropriações do cotidiano das atividades íntimas. Quando a visão de mundo construída na “casa” coincide com o senso comum dominante disseminado em outros espaços sociais específicos, produz-se a sensação de que tudo é natural, dado, imutável. “Deus quis”, dirão alguns.

Três.

Eu em minha casa. É domingo. Aniversário na família, pequena ressaca. Típico: domingo é dia de casa.

Sete.

Sete rolos compressores sujando as minhas e as suas mãos de sangue. As geladeiras – comer junto – e fogões – comer junto – chuveiros – banhar-se – camas – ir dormir – e as televisões. Os rituais cotidianos, íntimos. A intimidade violada de milhares de famílias. No domingo, dia de “casa”.

Dez mil.

Para os moradores de Pinheirinho, domingo foi dia de luto. De luta. Porque todos temos direito à casa. Menos eles.

Edições anteriores da coluna:

“Mulher Alternativa” estreia em Outras Palavras
Coluna semanal defende radicalmente a igualdade, não crê em libertação “definitiva” e aposta que feminismo combina com liberdade sexual
(9/1/2012)

A cena do Big Brother é um problema do Brasil
“Estupro de vulnerável” consta no Código Penal. Comum e terrível, precisa ser punido: a Globo não está acima da lei
(16/01/2012)

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Marília Moschkovich

(@MariliaMoscou) é socióloga, militante feminista, jornalista iniciante e escritora; às segundas-feiras contribui com o Outras Palavras na coluna Mulher Alternativa. Seu blog pessoal é www.mariliamoscou.com.br/blog.