As outras revoluções do século 21

Em Cuba, um setor crescente da juventude volta-se a temas como diversidade sexual e ambiente — e vê neste ativismo um antídoto conta a apatia. Por Jorge Luis Baños, na Envolverde-IPS

“SIM à diversidade sexual”, “NÃO aos transgênicos”, “Viva a @”. Afastados da apatia política de muitos de seus contemporâneos, alguns setores da juventude cubana mudam radicalmente os lemas, optam pela participação ativa e impulsionam “novas revoluções dentro da Revolução”. A “revolução racial, a revolução LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transexuais) e a revolução ecológica são as que cultivaram o caminho com maior persistência e cuja eclosão pode estar em nossas mãos. O termo ‘minorias’ deveria carecer de sentido neste mundo e sobretudo neste país”, disse o biólogo Isbel Díaz.Criador do El Guardabosque, um boletim eletrônico pela preservação das árvores, Díaz observa entre os jovens que o cercam “desejos muito marcados de liberdade, no sentido mais amplo da palavra: liberdade de expressão, sexual, ideológica, de movimento, de ação e de consumo”. “A agonia que provoca ter alcançado um alto nível cultural e de instrução em um ambiente constantemente limitado é algo do qual todos desejamos nos livrar”, afirmou este homem de 35 anos que todos os dias demonstra a teoria de que a juventude não é uma idade, mas “uma atitude, um estado de ânimo”

Pessoas como Díaz não são a maioria. Estudos feitos pelo estatal Centro de Pesquisas Psicológicas e Sociológicas (CIPS) concluíram que as aspirações sociopolíticas mantêm um peso importante em alguns setores juvenis, mas não são uma tendência majoritária. Se nos anos 1980 muitos jovens colocavam objetivos sociopolíticos específicos como sua terceira prioridade, após superação e família, a situação mudou com a crise econômica da década de 1990. Estas aspirações passaram para quinto lugar e se centram em grandes objetivos como desejar que a “Revolução consiga estabilidade”.

Desde a década passada, os interesses juvenis voltaram a variar e o tema sociopolítico continua perdendo peso e se diversificando na escala de aspirações, inclusive entre pessoas que mantêm práticas políticas sistemáticas, sendo membro de organizações estudantis ou da União de Jovens Comunistas (UJC). “As pessoas se centram em suas precariedades diárias e se esquecem do futuro. Sinto muitos jovens despreocupados com o país. Ainda assim, há bastante gente envolvida em projetos comunitários”, disse à IPS Ivet Ávila, uma realizadora que trabalha com crianças em uma oficina de criação de desenhos animados.

Esta tendência não ocorre apenas em Cuba. “De uma geração jovem dos anos 1960, que no mundo fez reivindicações e envolveu-se na transformação da sociedade, fomos passando para gerações que cada vez foram desentendendo mais”, disse à IPS María Isabel Domínguez, diretora do CIPS. Para ela, esta mudança não ocorreu pela prioridade dada aos interesses pessoais a práticas sociais muito centradas na cultura e na interação via novas tecnologias, mas também pelo descrédito que alcançaram entre a juventude mundial as formas tradicionais de se fazer política.

“O fato de a juventude cubana manter seus níveis de participação política e compromissos com práticas mais tradicionais de funcionar, também fala de uma credibilidade dessas instituições e organizações além de seu desejo de mudá-las, modificá-las e ajustá-las mais às características de seu momento”, assegurou Domínguez. Em todo caso –  acrescenta – a sociedade cubana precisa de “ajustes permanentes” que, de alguma maneira, “a livre” de maneiras “já aprendidas de fazer, fórmulas entronizadas como permanentes e imutáveis” que tendem a dar um tratamento homogêneo a “grupos sociais que são diversos e cada vez mais diversos”.

Diante de um processo de “atualização” do modelo capitalista em Cuba, especialistas e ativistas da sociedade civil concordam com a necessidade de transformar as maneiras com as quais durante décadas se concebeu a participação, e criar mecanismos que garantam a expressão e a iniciativa da cidadania, sem a necessidade de esperar “orientações de cima”. “Devemos buscar uma participação dos jovens em muitos espaços, de uma maneira mais autônoma. Não se trata de criar os projetos a partir dos adultos e das instituições, mas de os jovens expressarem suas opiniões, necessidades e expectativas”, disse à IPS Ana Isabel Peñate, pesquisadora do Centro de Estudos da Juventude (CESJ).

Por sua vez, Natividad Guerrero, diretora do CESJ, defendeu a necessidade de as gerações mais velhas compartilharem com os jovens, em lugar de simplesmente lhes “cederem o lugar”. Se o “adulto não mudar sua atitude de querer dominar tudo, ser autoritário, este jovem que quer começar a fazer coisas poderá fazê-lo somente no ritmo que tem. Preparamos um jovem combativo, mas para coisas que estejam mal feitas, não para que ele se mobilize desde sua pessoa”, disse Guerrero em entrevista à IPS.

Enquanto em muitos âmbitos hoje em Cuba sejam mantidos os mesmos esquemas de participação das últimas cinco décadas, jovens como o criador do El Guardabosque optam pela construção própria de expressão e participação cidadã “para que sejam verdadeiramente autênticos e funcionais”.

Díaz cresceu com o acesso à saúde e à educação garantido. As conquistas da geração de seus pais, protagonistas das transformações que sucederam o triunfo da Revolução de 1959, foram para ele “direitos herdados”. Viveu a adolescência marcado pela desintegração da União Soviética e pelo fim do socialismo na Europa oriental. A seu ver, iniciativas como o Ciclo Painel Viver a Revolução, convocado em 2009 pela Cadeira de Estudos Antonio Gramsci do governamental Instituto Cubano de Pesquisa Cultural Juan Marinello, ou muitos projetos autogeridos que surgem por todo o país, mostram formas participativas de fazer e pensar Cuba.

Convencido de que a “fusão” marca a juventude cubana e por isso os espaços “puros” já não funcionam, Díaz propõe que o trabalhador intelectual dialogue todo o tempo com os verdadeiros atores sociais: “os casos onde as duas funções se unem são os que considero com maior capacidade transformadora”. Os jovens que trabalham pelo socialismo em  Cuba “compreendem que já não se trata de defender a Revolução, mas de desenvolvê-la, ampliá-la, radicalizá-la”, afirmou.

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Redação

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