Nem tudo são flores na agricultura orgânica

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É árdua a luta de um grupo de agrônomos para convencer horticultores do extremo sul de SP a deixar rotina dos venenos. Mas resultados já aparecem

Por Tadeu Breda, na Rede Brasil Atual

[Leia também as três primeiras matérias desta série:. SP: mapa de uma surpreendente agricultura urbanaEm volta destas hortas, uma cidade e Na quebrada de São Paulo, rede oculta de hortas orgânicas]

É curioso presenciar a visita técnica de Ceceo Chaves a dona Massue. Um tem perto de 30 anos e é formado em agronomia pela Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, uma das mais conceituadas do país. Outra estudou até a quarta série, mas viveu todos os seus 70 anos em contato direto com a terra. “Dou todas as orientações técnicas que precisam, mas, sinceramente, não sei se conseguiria tocar uma lavoura”, confessa Ceceo. “Conheço as funções químicas das plantas e do solo, mas não tenho a prática da enxada.”

Não importa: dona Massue pede e parece valorizar muito cada conselho do engenheiro. Formam uma bela parceria, ainda que eventual. A agricultora é uma dos 315 pequenos produtores rurais de Parelheiros, bairro localizado no extremo sul de São Paulo, e uma dos 18 atendidos periodicamente por Ceceo graças a um projeto executado pelo Instituto 5 Elementos com recurso da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente. Seu objetivo é estimular e auxiliar os agricultores da região a transformarem seus cultivos tradicionais, com uso de agrotóxicos, em plantios orgânicos, ou seja, sem adição de nenhum produto químico agressivo à natureza ou à saúde humana.

A razão é tão óbvia quanto difícil de enculcar em trabalhadores acostumados demais com o uso de adubos e defensivos sintéticos, cujos resultados são rápidos e garantidos. Com aproximadamente 140 mil habitantes, a região de Parelheiros é atravessada por duas grandes áreas de proteção ambiental – Capivari-Monos e Bororé-Colônia –, cuja manutenção é essencial para a sobrevida dos dois principais reservatórios de água doce da capital: as represas Billings e Guarapiranga. Por isso é que Ceceo tenta convencer os agricultores da vizinhança a abandonar os venenos. E não está sozinho nesta cruzada. A própria prefeitura, por meio de uma Casa da Agricultura, outras ONGs e até uma igreja protestante também trabalham para transformar os hábitos produtivos do lugar.

Tudo o que se joga na terra e nas plantas, além de prejudicar a saúde dos consumidores, como todo mundo já sabe, vai embora com a chuva para os riachos que cortam a região – e que desembocam na imensa caixa d’água comum dos paulistanos. Também prejudica a fauna e a flora que ainda existem na mata. Apesar de estar munido deste e de outros milhões de argumentos, Ceceo está um pouco pessimista. Nem todos os produtores que começaram a receber as orientações técnicas do Instituto 5 Elementos – e que antes já haviam recebido assistência de outros grupos – se converteram à agricultura orgânica. “Tem gente que não plantou um pé de alface sequer sem veneno”, lamenta.

Teimosias

Dona Massue, porém, entendeu as preocupações do agrônomo e decidiu rever seus conceitos. É uma das únicas. Para tanto, levou tempo e venceu dificuldades. Uma delas, dentro de casa. Seu marido era cético com o papo de agricultura orgânica e não botava muita fé na proposta. Estava receoso de que plantar sem agrotóxicos diminuísse a produção e os rendimentos da família. Pouco a pouco, dona Massue foi ganhando espaço e aumentando os canteiros livres de veneno.

O projeto ensina agricultores a prepararem adubos orgânicos (Foto: Instituto 5 Elementos/Divulgação)

“O maior problema no começo foi melhorar a terra, que estava muito desgastada pelos químicos”, revela. “Daí as plantas demoravam a crescer. Até nosso empregado criticava: olha, os vizinhos que usaram químico já estão colhendo e a gente ainda nada. Mas não me preocupei. Fizemos muita adubação verde, o solo foi melhorando e a produção também.”

A relação de dona Massue com a agricultura orgânica começou há seis anos, quando um pessoal da Universidade de São Paulo apareceu em Parelheiros oferecendo cursos gratuitos sobre agroecologia. “Fiquei curiosa, comecei a frequentar as aulas, aprender e trocar experiências. Nessa época a gente nem pensava sobre os efeitos que poderia causar no meio ambiente. Muito menos com a saúde. A gente apenas plantava”, lembra. “Eles me convenceram a mudar algumas práticas.”

É verdade que a carga de trabalho aumentou um pouco na pequena propriedade dos Shirazawa. Agora, em vez decomprar aditivos e defensivos químicos, o casal, seus dois filhos e empregados eventuais têm de elaborar eles mesmos os preparados orgânicos que enriquecem a terra e combatem pragas. Para isso, contam com a orientação de profissionais como Ceceo, que tem em mãos receitas de bocaxe, compostagem, calda bordalesa e outras misturebas naturais utilizadas pela agroecologia para garantir produtividade com saúde e preservação. “Não é só jogar esterco de galinha na terra e achar que tudo vai nascer bonito”, explica Neto, outro técnico do Instituto 5 Elementos que auxilia os produtores de Parelheiros. “Há uma série de etapas para cumprir.”

Quando visitei as terras da dona Massue, uma sequência de chuvas fortes – 19 dias, contou – tinha colocado a perder boa parte de sua plantação de alface. Na ausência de eventos climáticos prejudiciais, contra os quais há pouco a fazer, a agricultora explica que conseguem vender cerca de 150 pés por dia – fora os demais produtos que cultivam por ali: morango, escarola, berinjela, pimentão, rúcula etc. O fato de serem cultivados sem veneno valoriza suas verduras e legumes, que podem assim ser negociados em feiras especialmente destinadas a produtos naturais.

Vizinhos

Apesar de ter começado a abandonar a agricultura convencional em 2006, dona Massue ainda não conseguiu ser oficialmente reconhecida como “produtora orgânica” – o que lhe daria o direito de vender suas hortaliças a preços bem mais elevados. E talvez nunca consiga. Isso porque as entidades responsáveis pela certificação são extremamente rigorosas. De acordo com Ceceo, analisam não apenas as técnicas de plantio, mas todas variáveis da produção, como localização da propriedade e qualidade da água utilizada para irrigação. É aí que dona Massue se enfrenta a uma barreira intransponível: seus vizinhos. Nenhum deles está se convertendo à agricultura orgânica.

Nem todos os agricultores querem deixar os defensivos químicos (Foto: Instituto 5 Elementos/Divulgação)

“Não estão nem aí”, reclama. “Dizem que, quando finalmente proibirem os químicos, deixarão de plantar. Outros acreditam que isso nunca vai ocorrer e que, quando começar a faltar comida, o pessoal vai implorar para que produzam com agrotóxico.” Como o veneno do lado de lá da cerca acaba afetando, ainda que minimamente, os cultivos de dona Massue, fica difícil obter o selo orgânico.

Para solucionar comercialmente este problema, a prefeitura encampou uma nova categoria de produtos agrícolas – os limpos. Não são 100% orgânicos, como exigem os cânones do setor, mas estão muito longe de ser convencionais. Assim, dona Massue envia parte de sua produção para uma feira limpa que ocorre semanalmente no Parque Burle Marx, na zona sul, e também no Parque do Ibirapuera. Apenas por estarem livres de agrotóxicos, podem também ser vendidos à Igreja Messiânica, que mantêm um grande centro na região de Parelheiros e todos os dias compra alimentos limpos em quantidade para abastecer seu refeitório. “O que vendo aos messiânicos num só dia às vezes equivale a uma semana inteira de sacolão.”

Outro agricultor que tem dado ouvidos às orientações de Ceceo é Antonio Petrino, mineiro de 53 anos que se criou na roça, mas que hoje vive basicamente do salário que consegue como caseiro de uma chácara em Parelheiros. Não deixou a terra, porém. A propriedade de que toma conta tem bastante espaço disponível, e o patrão deu carta verde para Petrino fazer o que mais gosta. O resultado é um milharal viçoso, entremeado com imensos pés de quiabo que frutificam a olhos vistos. Enquanto caminhamos pelo meio da plantação, escapando os microespinhos das quiabeiras, Petrino vai colhendo e devorando quiabos crus.

Ganância

“Tô comendo porque sei que é coisa pura, sem veneno. Assim dá pra ter certeza que não vai fazer mal.” Em outra parte do terreno nascem abóboras, maxixes, maracujás, bananas, tudo orgânico. Petrino tem ainda outro pedaço de terra na região que acaba de arar. Vai plantar mais quiabo e feijão, culturas que se complementam: uma cresce para cima, outra se espalha pelo chão. Quando vier a colheita, espera vender tudo e complementar a renda. A vontade de plantar orgânico veio do autoconvencimento de que é “errado” plantar da maneira convencional.

“O que move a gente a usar veneno é a ganância de plantar e colher rápido. E essa ganância tá deixando as pessoas doentes”, argumenta. “Já fiz muito isso, mas não faço mais. A gente vai vivendo e aprendendo.” Petrino aprendeu que as culturas orgânicas dão um pouquinho mais de trabalho, mas funcionam. “Basta ter dedicação e plantar as coisas certas no tempo certo. Não tem erro.”

Além de aumentar a oferta de alimentos saudáveis e evitar que o meio ambiente da região seja prejudicado por produtos químicos, incentivar a agricultura orgânica em Parelheiros é visto pela prefeitura também como uma eficiente estratégia de uso e ocupação do solo. “Nossos programas têm foco na produção, claro, mas não só. Com pequenas propriedades rurais, garantimos a permeabilidade do solo, o que é fundamental para abastecer as represas”, raciocina Tiago Janela, diretor do Departamento Municipal de Agricultura e Abastecimento. A presença dos agricultores também acaba afastando a construção de grandes condomínios fechados, que trazem consigo asfalto, desmatamento e concreto. “Por meio da agricultura, queremos preservar.”

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Redação

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