Uma estranha armação contra o MST

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Foto mostra delegado da Operação Castra, com o chefe da Casa Civil de Beto Richa e o diretor da Araupel

A suspeita promiscuidade entre o delegado que deflagrou a invasão da Escola Florestan Fernandes, o governo do Paraná e o diretor de uma empresa de celulose suspeita de invadir terras públicas

Por Patricia Faermann, no GGN

“Por que a Justiça do Paraná não é célere em resolver a situação da grilagem de terra? Por que a Justiça do Brasil é tão demorada em resolver questões sociais? Por que é rápida para criminalizar o movimento social?”, questionou o coordenador nacional do MST, Gilmar Mauro.
Por trás dos ataques ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, nas ações das polícias civil e militar nos Estados do Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, na última sexta-feira (04), com ampla repercussão nos meios alternativos e redes sociais, relações políticas e interesses outros foram levantados a partir das motivações para a tentativa de prisão de 14 lideranças do MST.
O GGN foi um dos primeiros a buscar o histórico que contextualiza as medidas policiais na última semana [leia aqui]. Batizada de “Operação Castra”, do latim, a origem da palavra significa “levantar acampamento”, ou ainda “partir para a guerra”, muito mais do que uma investigação sobre a “invasão” de integrantes do movimento em terras paranaenses e o suposto “roubo” de gado de um fazendeiro, a ação retoma as marcas de um duro conflito por luta de terras desde 1997.
Se este ano, o comando de 70 policiais no Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul partiu de uma denúncia do suposto proprietário da Fazenda Dona Hilda, em Quedas do Iguaçu, interior do Paraná, que narrou ter tido prejuízo de R$ 5 milhões com a entrada de integrantes do MST em suas terras, o caso carrega outras relações políticas e de interesses.
Isso porque coincidentemente no mesmo período em que a investigação pela Delegacia de Cascavel teve início, estava sendo registrada outra derrota e para os grandes fazendeiros, e a vitória aos movimentos sociais. Em abril, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) anunciava o que deveria ser um desfecho da luta por terras na região, e o possível fim do ciclo de violências.
O Incra havia conquistado a posse de outros imóveis rurais no município de Quedas do Iguaçu, no Paraná. As terras já haviam sido questionadas anteriormente, quando da posse da então empresa Araupel. Durante uma das primeiras tentativas de compra pelo Incra, junto ao MST, em 2003, foi constatado que as propriedades já estavam viciadas pela grilagem.
Por isso, a própria Justiça Federal do Paraná concedeu a posse provisória ao Instituto, possibilitando outras ocupações, com a migração de outras milhares de famílias na região. Entre os assentamentos que se instalaram, estavam os Marcos Freire e Ireno Alves, o Dom Tomas Balduíno e o Celso Furtado.
Acampamento Herdeiros da Luta (Foto Joka Madruga)
Acampamento Herdeiros da Luta (Foto Joka Madruga)
Em maio do ano passado, a Justiça reconheceu definitivamente a situação de grilagem no Rio das Cobras, reconhecendo-a como pública e condenando a empresa Araupel. Mas a situação da Araupel não estava concluída e faltavam terras a solucionar o conflito agrário do interior do Paraná.
Isso porque outras áreas remanescentes ainda precisavam ser decididas pela Justiça, o que motivou recursos protelatórios da Araupel e do poder público, que estendem as ações sem conclusão, até hoje. É na demora destes conflitos, arraizado na própria Justiça, e que permitiu a brecha para a ação dos policiais contra lideranças do Movimento, que o MST recorda o contexto local.
“O objetivo da operação é prender e criminalizar as lideranças dos Acampamentos Dom Tomás Balduíno e Herdeiros da Luta pela Terra, militantes assentados da região central do Paraná. (…) Denunciamos a escalada da repressão contra a luta pela terra, onde predominam os interesses do agronegócio associado a violência do Estado de Exceção”, havia completado o movimento.
Além disso, outras relações políticas são registradas no caso. O Movimento explica que a empresa Araupel foi uma das grandes financiadoras de campanhas políticas de autoridades públicas, como o chefe da Casa Civil do Governo Beto Richa, Valdir Rossoni.
“A empresa Araupel que constitui em um poderoso império econômico e político, utilizando da grilagem de terras públicas, do uso constante da violência contra trabalhadores rurais e posseiros, muitas vezes atua em conluio com o aparato policial civil e militar”, argumentou o MST.
Neste cenário, uma fotografia foi recuperada, mostrando a extensão desses laços políticos. Nela, é registrado o delegado titular da 15 subdivisão de Cascavel e coordenador da Operação Castra, Adriano Chohfi; o deputado estadual Paulo Litro (PSDB); o chefe da Casa Civil do governo do Paraná  de Beto Richa Valdir Rossoni (PSDB); e o diretor da Araupel Tarso Giacomet.
“Estamos assistindo a um processo de criminalização do movimento social em todo o Brasil, vários movimentos passando por situações bastante difíceis e, em particular, o nosso MST. (…) Já perdemos 4 militantes mortos, e são vários militantes com prisão preventiva. E esse episódio acontece em uma área em que a terra é grilada pelo grupo Araupel”, disse o coordenador do MST, Gilmar Mauro, em vídeo.
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Redação

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