Por que o livro digital apenas engatinha no Brasil

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Apenas um terço das editoras publica e-books; vendas mal passam de 1% do total. Poucos títulos e insistência dos governos no papel estão entre as principais razões

Por Juliana Domingos de Lima, no Nexo

No dia 23 de agosto, foi divulgado o primeiro Censo do Livro Digital, pesquisa inédita sobre a produção e comercialização do formato no mercado editorial brasileiro.

Realizado pela Fipe, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, em parceria com a Câmara Brasileira do Livro e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, o censo mostra que os e-books correspondem a 1,09% do faturamento total das editoras; 2,38% se excluirmos livros técnicos, didáticos e religiosos.

Das 794 editoras pesquisadas, só 294 produzem e comercializam conteúdos digitais – 63% das editoras brasileiras ainda estão fora desse mercado. Os dados do censo são de 2016.

O faturamento com os livros digitais também é altamente concentrado nas 30 maiores editoras do mercado: 85% do faturamento digital total no mercado brasileiro vem delas, que correspondem a 10% das produtoras de conteúdo digital para vender.

49.662 – é o número total de títulos digitais disponíveis para comercialização no Brasil (o dado é de 31 de dezembro de 2016)

2.751.630 – unidades de e-books foram vendidas no Brasil em 2016

O livro digital chegou ao Brasil, de maneira incipiente, em 2009, pela extinta livraria digital Gato Sabido. Mas foi só com a entrada de grandes corporações nesse mercado – como a Livraria Cultura, que vende livros digitais para o leitor que usa o Kobo, e a Amazon, que vende livros digitais para o Kindle – que as vendas deslancharam. O primeiro e-reader da Cultura foi lançado em 2012, e livros digitais começaram a ser vendidos no Brasil pela Amazon no mesmo ano.

O que os números do censo representam

O primeiro dado que chamou atenção de Marina Pastore, supervisora de livros digitais da Companhia das Letras, é o número elevado de editoras que não produzem conteúdo digital. Este “provavelmente é um dos motivos da baixa participação do e-book no mercado de forma geral”, disse Pastore ao Nexo. “Mas eu faria a ressalva de que nem todo tipo de conteúdo se adapta facilmente aos formatos digitais disponíveis hoje”.

Livros de formatação mais complexa – como é o caso dos didáticos, dos livros de arte e de alguns infantis – são mais difíceis e caros de produzir e nem sempre funcionam bem em todos os tipos e tamanhos de tela, segundo a supervisora.

Outro fator apontado por Pastore como limitante para o crescimento do mercado é o tamanho do catálogo digital brasileiro. “Segundo o Censo foram publicados 9.483 ISBNs digitais em 2016, contra os 17.373 ISBNs impressos levantados pela pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, destacou.

O ISBN corresponde ao International Standard Book Number, código que identifica numericamente os livros, inclusive por edição, em um sistema mundial. No Brasil, o ISBN é coordenado pela Biblioteca Nacional. O mesmo livro publicado em versão impressa e em versão digital possui dois ISBN diferentes.

A editora, que é a maior do Brasil, tem atualmente 2.570 títulos disponíveis em e-book, o que corresponde a pouco mais da metade de seu catálogo. Este é um dos principais focos do trabalho de Pastore. “Estamos sempre trabalhando para aumentar este número, tanto com os lançamentos (que em geral saem ao mesmo tempo nos dois formatos) quanto com a conversão de títulos mais antigos”, disse.

O Nexo ouviu também Antonio Hermida, editor de mídias digitais das editoras SESI/SENAI-SP e função que também exerceu na extinta Cosac Naify.

O mercado brasileiro de e-books está ou esteve recentemente em expansão?

Sim, ele segue crescendo desde o início, isso é inegável. O caso é que, até uns poucos anos, havia um alarde, uma sirene de perigo, que vaticinava um “boom do digital” e “o fim do papel”, das editoras e das livrarias. Bem, esse “boom” não aconteceu, no entanto, apesar das quedas de receita das editoras, que chegaram a 40% em 2015 por conta do governo não ter comprado, os digitais não apresentaram queda de faturamento, pelo contrário. Nesse aspecto, acredito que o faturamento do livro digital é um faturamento honesto, real para o mercado, porque  não depende de grandes compras governamentais.

Se há estagnação, ela está ligada à baixa que o mercado editorial vem enfrentando em geral ou a outros motivos? 

Não acho que o mercado editorial digital, ou o mercado editorial como um todo esteja estagnado. Estamos vivendo um período de instabilidade financeira no país que se reflete em todo o varejo.

Qual você avalia como o maior (ou os maiores) obstáculos ao crescimento do formato digital no país?

Até bem pouco tempo não tínhamos o hábito de pagar por conteúdos digitais como músicas e filmes, não havia oferta desses serviços, tampouco um combate à pirataria [que fosse] mais consciente e menos em aspecto criminal. Digo bem pouco tempo mesmo, a partir do Netflix. Vejo isso como um fatores mais estruturais da coisa.

O momento de recessão e instabilidade econômica que vem se agravando certamente contribui para o crescimento e o preço de aparelhos dedicados ainda é alto para popularização de aparatos que servem “apenas para ler” (e aqui, nestas aspas, temos uma expressão de mentalidade que demonstra um problema ainda maior: somos uma população recém alfabetizada, um público leitor jovem historicamente).

O que é possível dizer sobre a comparação do Brasil com outros mercados nesse aspecto?

Bem, o Brasil é o maior mercado de língua portuguesa do mundo? Sim. Mas compará-lo com mercados como o norte-americano (como é feito normalmente) me soa sempre como papo de vendedor. Na história do mercado editorial como um todo, o Brasil está sempre alguns anos atrás dos eventos dos EUA, o que ajuda a prever certas coisas.

No entanto, com a sincronia de tendências na era da informação, fica evidente que os mercados são muito distantes em número e tamanho. O tal “boom” do ebook foi previsto por meio desse tipo de análise temporal de reflexo do mercado norte-americano no brasileiro que, bem, falhou. E isso não é ruim, só mostra que temos que nos concentrar mais em nossas peculiaridades (que são muitas), nossas barreiras estruturais, em vez de tentar aplicar as mesmas fórmulas de mercado de países com histórico de alfabetização e cultura letrada completamente diferentes do nosso e até entre si. E isso não significa fechar os olhos para tendências e novos modelos de negócio.

Por que a produção de livros digitais é tão concentrada nas maiores editoras, como mostra o censo?

Numa análise rápida e superficial, diria que por uma questão de as maiores terem poder para investir com um risco ínfimo. Os e-books, no geral, não se pagam de imediato (apesar de todo o discurso sobre a produção ser muitíssimo barata) e a fórmula mais simples para gerar receita com e-books é com investimento em um catálogo numeroso e lançamentos simultâneos impresso e digital. Se falarmos de best-sellers, que são a exceção, o livro se paga e paga a versão digital – que também vai vender e dar lucro.

Para as editoras pequenas e médias, o e-book ainda é bastante visto como consequência de mercado e, às vezes, de forma bastante esotérica. O mercado editorial, generalizando bastante, é ainda avesso à tecnologia.

Qual o potencial do formato de ser explorado por editoras pequenas, independentes ou mesmo por autores que se autopublicam?

As principais vantagens do formato estão ligadas ao custo e à mobilidade. Os e-books podem ser comprados de qualquer lugar com acesso à internet, a partir de qualquer smartphone e lidos ali mesmo, no app da loja. O formato é relativamente barato de ser produzido, demandando um investimento pequeno por título.

Para autores autopublicados, praticamente todas as grandes lojas disponibilizam serviços de conversão do conteúdo e instruções de formatação para padronização. No entanto, isso pressupõe que o livro esteja finalizado: revisado, editado, com uma capa que diga algo ao potencial leitor. Etapas que têm custos para o autor.

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