Por que Jean Willys incomoda tanto

O deputado Jean Wyllys cuspiu em direção ao deputado Jair Bolsonaro

Ele é visto por muitos dos seus pares como um intruso, uma presença indesejável que deve ser extirpada dessa fraternidade de “homens de bem”, donos de contas na Suíça e de currais eleitorais

Por Bruno Bimbi, no LadoBi

“O cara senta atrás de mim nas reuniões das comissões da Câmara e começa a falar: ‘E aí, viadinho? Deu muito o cu essa semana?’. Eu ignoro, faço de conta que não ouvi, mas ele insiste. Parece uma criança da quinta série”, me contou tempo atrás o deputado federal Jean Wyllys. “O cara” é Jair Bolsonaro, o mesmo que disse que não estupraria a deputada Maria do Rosário “porque ela não merece, porque é feia”. O mesmo que usou sua declaração de voto na sessão do impeachment da presidenta Dilma Rousseff para homenagear aquele que a torturou, Brilhante Ustra, conhecido por enfiar ratos na vagina das mulheres na escuridão dos porões da ditadura militar. “Você deveria contar isso, Jean”, eu falei, mas a resposta dele foi um olhar de resignação: “Lá é assim mesmo, os caras me odeiam. Não aguentam uma bicha nordestina com 145 mil votos discutindo de igual a igual com eles”.

Não é fácil ser Jean Wyllys num Congresso Nacional com valores tão deturpados como o brasileiro. Um Congresso que teve o presidiário Cunha como presidente de uma câmara e ainda tem o réu Renan como presidente da outra. O mesmo Congresso que já teve, como presidente da Comissão de (pasmem!) Direitos Humanos, um pastor que pede a senha do cartão de crédito dos fiéis, que disse que os negros descendem de um ancestral amaldiçoado, e que afirma que Deus mandou matar John Lennon.

Desde que foi eleito pela primeira vez, Jean é visto por muitos dos seus pares como um intruso, uma presença indesejável que deve ser extirpada dessa fraternidade de “homens de bem”, donos de contas bancárias na Suíça e de currais eleitorais. Mas ele não é odiado apenas por ser gay: de fato, uma das coisas que mais criticam dele é não ser como o “saudoso” Clodovil. Jean Wyllys incomoda porque, além de ser gay, é inteligente, articulado, e não aceita o papel subalterno ou pitoresco que gostariam que ocupasse ao lado de Tiririca. E conquistou muitos votos: foi o sétimo deputado mais votado do estado do Rio de Janeiro na última eleição, com uma campanha mais barata que todos os outros deputados que foram reeleitos.

No primeiro mandato, Jean tinha escolhido participar da Comissão de Finanças e Tributação: quanta ousadia, a bicha quer discutir o orçamento da União! Autor de projetos de lei relevantes e bem fundamentados, premiado três vezes como “melhor deputado do Brasil” pelo site Congresso em Foco, distinguido pela revista britânica The Economist como uma das 50 personalidades mais destacadas do mundo na defesa da diversidade (junto de nomes como Barack Obama e Bernie Sanders), Jean conquistou prestígio no parlamento e subverteu para sempre o lugar destinado aos homossexuais na política brasileira.

Por isso ele é tão odiado.

As retaliações são muitas e variadas. Primeiro começaram a divulgar nas redes sociais que, em uma entrevista à CBN, Jean Wyllys tinha defendido a pedofilia – afinal, o gay sempre tem que ser apresentado como um perigo para os meninos. “O pedófilo ocupa um lugar importante na educação da criança”, foi a frase que lhe atribuíram. Claro que era uma mentira tosca, e a própria CBN esclareceu que ele jamais dissera isso. Mas nessa época de “pós-verdades”, já era tarde demais: a mentira já tinha sido compartilhada por milhares de pessoas na internet.

E foi apenas a primeira. Jean Wyllys já foi acusado falsamente de ter apresentado um projeto de lei para mudar trechos da Bíblia (sim, isso mesmo), outro para implantar o ensino da religião islâmica nas escolas (!!), outro para obrigar todas as crianças a mudar de sexo (uma deturpação ridícula de um projeto inspirado na lei de identidade de gênero argentina, aprovada por unanimidade no Senado do país vizinho); de ter dito que os cristãos são palhaços e a Bíblia é uma piada; de defender o casamento entre homens e animais; e de prometer que iria embora do Brasil se o impeachment fosse aprovado. “Ainda aqui, deputado? Não vai cumprir a promessa?”, perguntam para ele os haters, acreditando em sua própria mentira.

Em um vídeo, Jean dizia que a polícia tem uma formação de viés racista, para que os policiais acreditem que os negros são mais perigosos que os brancos. Um deputado do Pará, delegado, editou a fala e deixou apenas “os negros são mais perigosos que os brancos”. Com milhares de compartilhamentos, o novo vídeo sugeria que Jean é racista. Logo ele, que denuncia no plenário a maneira como a guerra às drogas extermina a juventude negra e pobre. Quando não editam suas falas, diretamente as inventam. Fabricam projetos que ele jamais apresentou e criam do nada posições que não são as suas, como, por exemplo, quando o acusam de chavista sem ter lido tudo o que ele escreveu sobre Maduro.

Cada mentira tem o intuito de apagar sua imagem de parlamentar sério e honesto, professor universitário, jornalista, ativista de direitos humanos. Tentam convertê-lo em uma espécie de inimigo público, um maluco com ideias extravagantes, um perigo para a juventude e para a família, um intolerante. É curioso: aquele que luta contra o ódio, por não aceitá-lo, é acusado por homofóbicos de ser “intolerante”. Aquele que defende direitos iguais para todas as famílias é acusado de “inimigo da família”.

Essa estratégia vem acompanhada por um assédio pessoal insuportável dentro da Casa. Além de xingá-lo nas reuniões das comissões, Bolsonaro o faz no microfone. “Idiota”, “imbecil”, “você usa papel higiênico para limpar a boca”, “cu ambulante”, “deputado que ama o aparelho excretor” são algumas das coisas que Bolsonaro gritou contra Wyllys no parlamento, ao vivo, pela TV Câmara.

A intenção sempre foi provocar uma reação que colocasse a vítima no papel de agressor, para desqualificá-la. Foi o que finalmente aconteceu no dia da votação do impeachment, depois de mais de cinco anos de calúnias, ofensas homofóbicas, campanhas difamatórias e ameaças de morte. Depois de aguentar uma chuva de gritos e xingamentos durante seu voto, numa das jornadas mais difíceis e tensas da história do Congresso, Jean não conseguiu mais conter a indignação e cuspiu em direção a Bolsonaro. O filho do apologista da tortura, Eduardo, também cuspiu em direção ao Jean, mas apenas a bicha foi enviada para o Conselho de Ética. Agora a coalizão das bancadas da Bíblia, do boi e da bala — a mesma que sustentou Eduardo Cunha como presidente — quer cassar ou suspender o mandato do primeiro ativista gay e defensor dos direitos civis a ocupar uma cadeira no Congresso.

Até Rodrigo Maia, nas antípodas ideológicas do pensamento do Jean, quis arquivar as representações contra ele assinadas pelo bufão da ultradireita Alexandre Frota e outras figuras do mesmo nível. Os aliados de Cunha (que não perdoa Jean por tê-lo chamado de ladrão na tribuna) forçaram, no entanto, uma votação na mesa diretora e assumiram como próprio o pedido de punição.

Agora, o Conselho de “Ética” de uma casa habitada por vários citados na Lava-Jato e na planilha da Odebrecht, por réus por diversos crimes, por exploradores da fé alheia e por representantes do mais podre fisiologismo pode iniciar um processo de cassação ou suspensão de um parlamentar que jamais foi acusado de qualquer crime ou desvio ético, sob o pretexto de ter cuspido em direção àquele que, há quase seis anos, o insulta e difama, e cujos seguidores o ameaçam de morte nas redes sociais.

O Conselho de “Ética” pode expulsar dessa fraternidade de “homens de bem” a bicha empoderada que cometeu um crime gravíssimo: ser culta, formada, preparada, e conquistar prestígio social, reconhecimento internacional e muitos votos, desafiando o papel que cabia aos homossexuais numa democracia que ainda permite que mais de 300 LGBTs sejam assassinados a cada ano em estarrecedores crimes de ódio.

Esses que se recusaram, ano após ano, a debater honestamente os excelentes projetos de lei de Jean Wyllys — projetos elogiados por especialistas e organizações da sociedade civil por sua relevância e seriedade, porém engavetados no Congresso mais conservador desde 1964 — querem agora calar sua voz, porque muito os incomoda. Que a sociedade brasileira não o permita.


* Bruno Bimbi
é jornalista, doutor em Letras, tesoureiro da Executiva Estadual do PSOL-RJ, ativista gay e autor do livro Casamento igualitário.

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