Na trilha dos Racionais, história de nova periferia

 

170707-Racionais

Ao narrarem primórios do grupo, dois de seus integrantes ajudam a compreender a onda politizadora que percorre, desde os anos 1980, as quebradas das metrópoles brasileiras

Por Camilo Rocha, no Nexo

É horário de expediente na sexta-feira, mas não faz diferença: a fila para ver a exposição dos Racionais MC’s está de ótimo tamanho. Realizada por apenas uma semana no início de junho no Red Bull Station, centro de São Paulo, a mostra trazia objetos pessoais, projeções e murais que relembravam trechos de letras e imagens do grupo. Na mesma semana, o grupo participou de uma conversa de duas horas e um show comemorativo. Os vídeos de ambos os eventos beiram o 1 milhão de visualizações.

Quase trinta anos depois de seu surgimento, os Racionais continuam relevantes e celebrados por fãs, crítica e mídia. Tem sido sempre assim. Mesmo depois de ficar 12 anos sem lançar um álbum, quando “Cores & Valores” chegou em 2014 os fãs correram para ouvir e listas especializadas o colocaram entre os melhores daquele ano. Mesmo depois de esnobar a Rede Globo por anos, quando o integrante do grupo Edi Rock foi ao programa de Luciano Huck, o apresentador o elogiou efusivamente.

Nesta reportagem do Nexo, conversamos com Edi Rock e Ice Blue, músicos dos Racionais ao lado de KL Jay e Mano Brown, para falar sobre os primórdios do grupo, as influências iniciais na construção da identidade dos Racionais, tanto em termos musicais como políticos, e o legado do rap na periferia.

‘Lutar pelo oprimido’

Nas periferias da maior cidade brasileira, as mensagens de Malcolm X e Public Enemy estavam entre as maiores inspirações dos novos artistas. Ice Blue lembra da influência que teve uma biografia do líder ativista, recém-lançada na época. “Foi a história dele que ideologicamente nos direcionou para esse lado político. Esse livro passou em várias mãos, eu como vários MCs da época leram”, disse em entrevista ao Nexo..

Em uma entrevista ao site Noisey, KL Jay conta que foi em uma entrevista em vídeo com o Public Enemy que os membros do grupo ouviram falar em Malcolm X pela primeira vez. “Vimos um documentário do Public Enemy em que citavam ele, e fomos procurar saber quem era, e assim tivemos acesso à biografia”, relatou.

“Quando li Malcolm X, senti que era negro mesmo”, disse Brown à revista “Rolling Stone” em 2013. As coisas começaram a fazer sentido. Foi um murro na cara. Eu pensava: ‘Vou ser igual ao Malcolm X. Quero ser o Chuck D’ [rapper do Public Enemy].”

O empresário Milton Sales, que cuidou do grupo em sua fase inicial, também incentivou os Racionais a explorar esse lado político, chamando a atenção para o papel social do artista. “Ele dizia que eu tinha de usar meu talento para mudar as coisas, lutar pelo oprimido. Era disciplina de esquerda”, contou Brown à “Rolling Stone”.

O ativista norte-americano Malcolm X morreu em 1965, aos 39 anos. Suas ideias de afirmação e orgulho negro continuaram ecoando, com força crescente, pela militância e pela música negras. A geração do hip hop americano da década de 1980 colocou o líder em evidência para novos e maiores públicos.

O grupo americano Public Enemy se tornou um dos maiores promotores das ideias do líder ativista. Em 1987, o grupo deflagrou uma onda de rap politizado e agressivo, com letras que denunciavam injustiças sociais. Um de seus primeiros singles, “Bring the Noise”, sampleava de saída as palavras de um discurso de Malcolm X: “Too black! Too strong!” (negro demais, forte demais).

Capão da morte

Boa parte da periferia das grandes cidades brasileiras se formou principalmente nas duas ou três décadas anteriores à 1980. O Capão Redondo, bairro em que surgiram os Racionais, até os anos 1950 tinha povoamento esparso e aspecto mais rural do que urbano. Com o inchaço populacional e urbanização desregrada dessas áreas, situação repetida Brasil afora, o bairro chegou nos anos 1980 marcado pela carência de serviços públicos e altos índices de violência.

Os justiceiros eram personagens frequentes no noticiário policial da década de 1980. O mais famoso destes era o Cabo Bruno, oficial da PM a quem foram atribuídas mais de 40 mortes em bairros como Jardim Miriam, Jardim São Bento e Capão Redondo. “Na zona Sul não morreram só bandidos. Morreram muitos jovens que nada tinham com crimes”, disse um investigador ao jornal “O Estado de S. Paulo” em matéria de 1984.

Segundo o antropólogo Ricardo Teperman, autor de “Se Liga no Som – as transformações do rap no Brasil” (ClaroEnigma, 2015), em ensaio para o Nexo, as preocupações do grupo refletiam a “ressaca dos anos de ditadura, quando a militância de base ligada ao sindicalismo ou às organizações eclesiásticas arrefecera, deixando as camadas pobres da população ainda mais expostas à violência policial”.

‘Tiros a esmo’

“Pânico na zona sul”, estreia dos Racionais em disco, de 1988, não chegou de fininho. A música começa com batidas eletrônicas que simulam uma rajada de tiros. A letra acusa a polícia de ser conivente com os crimes dos “justiceiros que matam, humilham e dão tiros a esmo”.

É a primeira das faixas da coletânea “Consciência black”. Depois vem “Tempos difíceis”, que é ainda mais sombria: seu olhar não é apenas sobre uma região da cidade, mas sobre o mundo que “poderia ser melhor, mas ele é tão ruim”.

A denúncia de abusos policiais também marcou outra estreia importante do hip hop paulistano daquele ano: a dupla Thaíde & DJ Hum, que em “Homens da lei” cantava “Policial é marginal e essa é a lei do cão / A polícia mata o povo e não vai para prisão”.

O gênero começava a assumir aí o papel de ser porta-voz de fatos e olhares sobre a periferia que tinham pouco espaço na mídia ou no debate público. “O rap é nossa rede de televisão invisível. É a CNN que as pessoas negras nunca tiveram”, declarou o rapper americano Chuck D, do Public Enemy. No Brasil também os rappers da quebrada estavam se tornando o “Jornal Nacional” dos seus bairros.

“Assumimos essa postura de denúncia, o que foi necessário na época, pois não se falava sobre isso”, contou Edi Rock ao Nexo, pelo telefone. “Havia necessidade de uma voz. Soltaram essa bandeira na nossa mão e seguramos.”

Um som incômodo

Inicialmente, houve choque e estranhamento. O conteúdo das letras dos Racionais era considerado “pesado” por alguns bailes, como os da Chic Show, equipe que atuava desde os anos 1960 promovendo DJs e shows de funk e soul. Gravadoras independentes que operavam no cenário da música negra, como a Kaskata’s, se interessaram pelo som do grupo, mas sugeriram que se mudassem os temas abordados.

“Quando viemos de primeiro com essas ideias, a periferia não tava interessada em consciência, em música com mensagem, porque era chato”, lembrou Edi. “O pessoal não vai no baile pra ouvir orelhada, vai pra se divertir. Então queríamos fazer a revolução, a denúncia, mas por meio da música e da diversão. No começo foi meio difícil, a gente não sabia direito como fazer isso. Também, a gente tinha 18, 20 anos.”

Outra equipe, a Zimbabwe, se provou mais receptiva ao som com mensagens. “Eles eram um baile que já tinha uma visão política também”, explicou Blue. “Eles se identificavam com as ideias do grupo”. A Zimbabwe tinha um selo discográfico e por ele saiu, em 1988, a coletânea “Consciência Black” citada no início deste texto.

O orgulho do local de origem era outro componente novo que os Racionais e o hip hop traziam. “Esse é o meu lugar e eu o quero mesmo assim, mesmo sendo um lado esquecido da cidade”, cantava Mano Brown na faixa “Hey Boy”, presente no EP “Holocausto urbano” (1990), em que a letra se dirige a um hipotético jovem de classe média, cujos pais acham “que a cadeia é nosso lugar”.

Negócios com orgulho

Retratado muitas vezes como radical, por sua defesa da libertação negra “usando todos os meios necessários”, o que incluiria a violência, Malcolm X trazia um discurso mais confrontacional e forte do que o tom conciliatório de Martin Luther King Jr. Em vez de integração com a sociedade branca, X pregava a independência negra.

Neste sentido, um de seus ensinamentos mais significativos foi relativo à necessidade da criação de negócios controlados por negros e pessoas da comunidade. “Nosso povo não precisa apenas ser reeducado quanto à importância de apoiar negócios negros, mas o homem negro precisa ter consciência da importância de ele mesmo entrar para os negócios”. Para o ativista, era uma maneira de gerar empregos na comunidade e não depender mais de salários e vagas de chefes brancos.

Os Racionais também estavam atentos a esse lado do discurso militante, buscando sempre apoiar iniciativas de pessoas da comunidade assim como procurando cuidar eles mesmos dos lançamentos de seus discos, agendamento de shows e promoção de carreiras, assim como de outros grupos de rap. Em 1997, criaram seu selo próprio, a Cosa Nostra Fonográfica, que passou a ser responsável pelos álbuns do grupo. Em 2012, surgiu a produtora Boogie Naipe, que funciona como agência e assessoria para o grupo e para os projetos solo dos artistas dos Racionais, além de outros artistas.

Foram as bases do contexto atual, em que o rap se tornou uma indústria, com estrutura e profissionais qualificados, realidade muito distante de seu início precário, quase amador. “Hoje em dia tudo funciona, as empresas, os shows, as marcas, antes não era profissional, era tudo muito jovem”, falou Blue. “Hoje temos curador, produtor, técnico, uma indústria de rap. Antes dependíamos de técnico de rock”.

Na opinião dos dois entrevistados, o legado do gênero na periferia é muito mais amplo e profundo. Para Edi Rock o rap promoveu união e respeito nas comunidades, além de criar “o orgulho de quem você é, de onde você veio”. Ice Blue elaborou: “O legado do rap foi conscientizar, trazer o valor de morar em qualquer quebrada, andar com qualquer cabelo, assumir sua cor, seu bairro. Coisas que eram vergonhosas e que se tornaram orgulho”.

The following two tabs change content below.

Redação

O Outras Mídias é uma seleção de textos publicados nas mídias livres, que Outras Palavras republica. Suas sugestões podem ser enviada para [email protected]

Latest posts by Redação (see all)