Mulheres, trans, vitoriosas

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Sayonara Naider Bonfim Nogueira, 41 anos, professora (Uberlândia)

No Dia Internacional da Mulher (e em favor da liberdade de gêneros), história de três trans que assumem sua singularidade e enfrentam o preconceito para trabalhar, criar filhos e constituir famílias não-ortodoxas

Por Caroline Santos, na Calle2

A professora de geografia Sayonara Naider Bonfim Nogueira, 41, já foi cerceada por usar o banheiro feminino da escola. Helena Freitas, 26, ‘engravidou’ o seu marido, também transexual, mas só conseguiu registar o filho com o seu nome de batismo que, na verdade, não representa a sua orientação de gênero. A advogada Robeyónce Lima, 27, enfrenta resistência da família por suas escolhas.

Porém, virar mãe, tornar-se educadora e ser a primeira trans a passar na prova da OAB (Organização dos Advogados do Brasil) em Pernambuco são realizações de sonhos que ajudam essas mulheres a se empoderarem – e a sair das duras estatísticas do preconceito.

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a Calle2 traz a inspiradora história de três transexuais que romperam a barreira da marginalidade e do anonimato e elevaram suas condições de trans para níveis sociais além das esquinas e prostíbulos, onde estão cerca de 90% das travestis e transexuais do país, de acordo com a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

“O Estado tem uma dívida social comigo. Enquanto uma cidadã sujeita a direitos e a deveres, sempre tive meus direitos ceifados, mas os deveres cobrados. Mesmo acreditando que possam existir políticas públicas a nosso favor, ainda tenho medo do que nos aguarda, já que a escola continua sendo um motor da exclusão”, analisa a professora Naider.

‘ENGRAVIDAR MEU MARIDO FOI BEM ESTRANHO’

Helena Freitas, 26 anos, operadora de telemarketing e mãe do Gregório (Porto Alegre)

‎“Sou muito feliz por ser mãe. Honestamente, tem ocasiões que dá vontade de pedir demissão do meu trabalho, mas nunca vou abrir mão do cargo de ser mãe. Tem dias que durmo só quatro horas, mas não delego a ninguém minhas funções. O Gregório, meu filho, foi a melhor coisa que me aconteceu.

Engravidar meu marido foi estranho no começo [Anderson também é trans – nasceu mulher, mas hoje é homem]. A minha ficha demorou um pouco para cair. Mas depois seguimos normalmente, como um casal de homem e mulher, só que no meu caso quem estava grávido era o homem.

Foi engraçado ver um homem grávido, mas eu nunca ri na frente do Anderson. Ele é muito bravo e não gosta de brincadeiras… e também estava muito sensível.

Eu curti muito a gravidez. Fiz um chá de bebê sem a participação do Anderson. Mas também tive meus receios, fiquei com medo de tudo, de perder o emprego, medo da separação e, principalmente, de faltar alguma coisa para o meu filho. Durante o parto, os médicos achavam que éramos irmãs. Ficamos o tempo todo de mãos dadas. Só uma enfermeira se deu conta do que estava acontecendo e passou a me chamar de ‘mãezinha’.

A briga para registrar o Gregório foi muito constrangedora. O rapaz do cartório disse que minha identidade social não é de verdade e perguntou onde eu a havia conseguido. A maioria das pessoas não conhece a identidade de nome social. O Gregório está registrado com meu nome civil.

Em qualquer lugar vem o questionamento de que não somos uma família normal, que eu não sou a mãe. Para mim isso é preconceito. Somos prova viva de que o amor se constrói entre seres humanos. Somos um casal transgênero e temos uma família.

Leia o texto na integra na revista Calle2

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Redação

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