Chile abre campanha para democratizar Forças Armadas

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Movimento cidadão propõe medidas para livrar Forças Armadas da herança de Pinochet. Entre elas, deselitizar escolas militares e romper vínculos entre exército e EUA

Por Pablo Ruiz, na Adital

Carmen Gloria Quintana, chilena que juntamente com o estudante Rodrigo Rojas, em 1986, foi queimada viva por militares da ditadura de Augusto Pinochet, divulga o nascimento do “Movimento pela Democratização das FA [Forças Armadas] e da Ordem”. Pretende reunir 1 milhão de assinaturas para serem apresentadas à presidenta Michelle Bachelet, para que se deem passos nessa direção.

Carmen Gloria assinala que “está claro que as FA não são de todo o povo, mas de um setor e uma classe política, por isso, nós chamamos a que voltem a ser de todo o povo, em honra de O’Higgins e Carrera [Fundadores do Chile], como era antigamente”.

A iniciativa é encabeçada ademais por María Paz Santibáñez, o ator Benjamin Vicuña, o Agrupamento de Familiares de Executados Políticos (Afep), a Confech [Confederação de Estudantes do Chile], o Agrupamento de Familiares de Detidos Desaparecidos (AFDD), a Defensoria Popular e a Comissão Funa, entre outras.

Entre as demandas que apresentam ao governo estão: colocar fim à política institucional de encobrimento das violações de direitos humanos; eliminar as cláusulas de sigilo que encobrem os nomes de quem foi denunciado como torturadores no Informe Valech; e rebaixamento de patente de todos os membros das Forças Armadas envolvidos em delitos de lesa-humanidade. Além disso pedem o fim das altas pensões e privilégios que gozam os militares processados ou condenados por violações aos direitos humanos; o fim dos 10% da Lei Reservada do Cobre, que têm as FA e a destinação destes recursos para a saúde e educação; ingresso democrático e amplo nas escolas matrizes das Forças Armadas; entre outras demandas.

Carmen Gloria Quintana foi queimada viva por uma patrulha militar, em 2 de julho de 1986, acontecimento no qual faleceu o fotógrafo Rodrigo Rojas de Negri, de apenas 19 anos, e que a deixou com graves lesões. Ela diz que, a partir do testemunho do oficial Fernando Guzmán, “revelou-se o que muitos sabíamos, mas que não tínhamos provas: no interior das FA existe um pacto de silêncio para encobrir todos os crimes de violações aos direitos humanos e escapar da responsabilidade frente à justiça”.

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11 de setembro de 1973 Froças Armadas bombardeiam palácio presidencial.

Carmen assinala que “o Exército e as FA não dão nenhum sinal de estarem submetidos ao poder civil” e que “o ministro da Defesa, na minha opinião, parece mais bem um porta-voz das FA do que um ministro político”.

Carmen recorda que o comandante chefe do Exército, general Humberto Oviedo, na Comissão de Defesa da Câmara dos Deputados, fez pouco caso das vítimas “dizendo que o Exército havia entregado todas as informações e que os militares guardavam seu direito de reter informação e isto me parece imoral de um comandante chefe, que está formando jovens que vão ser os que defenderão nosso país”.

“Chegou o momento de que as Forças Armadas, Carabineiros do Chile [correspondente à Polícia Militar], a Polícia de Investigações e a Guarda recuperem sua honra ante a sociedade chilena, que demonstrem que pertencem a todos os chilenos e não somente a quem colaborou com a ditadura, que se comprometam com o respeito irrestrito dos valores democráticos e dos Direitos Humanos, pois até agora têm demonstrado o contrário, ainda seguem honrando os assassinos, protegendo muitos dos que mataram e torturaram”, indica.

Valentina Saavedra, presidenta da Fech [Federação de Estudantes], expressa seu apoio à iniciativa e diz, ademais, que “o que, hoje demandamos, quando defendemos o direito à educação, quando os trabalhadores exigem seus direitos trabalhistas, quando as mulheres lutamos pelo direito ao aborto, finalmente o que estamos fazendo é erradicar tudo o que deixou a ditadura”. Consultada sobre o treinamento que as Forças Armadas continuam recebendo nos Estados Unidos, aonde são enviados a cada ano ao redor de 200 militares, assinala que “está dentro das nossas demandas que o Chile não envie mais soldados à Escola das Américas, que sejam revelados e tornados públicas os maus currículos, aos quais eles se submetem porque seguir com a lógica do inimigo interno é seguir com a lógica da Guerra Fria. Eu creio que isso já terminou, aparentemente”.

Sobre a responsabilidade de civis nas violações aos direitos humanos, Alicia Lira, presidenta do Afep, indica que sua organização apresentou uma querela contra os instigadores e executores do golpe de Estado cívico-militar.

“No Massacre de Laja – assinala a dirigente – fica claro que o empresário que entrega a lista dos trabalhadores aos carabineiros atua em cumplicidade e convivem juntos”.

O Massacre de Laja ocorreu uma semana depois do golpe de Estado no Chile, em 11 de setembro de 1973. Então, um pelotão de carabineiros assassinou 19 pessoas pertencentes às localidades de Laja e San Rosendo.

* Pablo Ruiz, jornalista, pertence ao Observatório da Escola das Américas – SOAWatch

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Redação

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