​Documentário expõe exclusão racial na USP

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“USP 7%” chama atenção para fatos chocantes: maior universidade pública do país tem presença mínima de não-brancos entre alunos. E seus dirigentes parecem nem se incomodar com isso…

Por Débora Lopes, na Vice

Não é novidade: negros não são a maioria nas universidades públicas brasileiras e sequer se equiparam, em número, ao total de alunos brancos. Nas últimas semanas, um vídeo mostrando jovens negros tentando discutir a questão das cotas raciais numa aula da Universidadede São Paulo (USP) circulou pela internet e reacendeu o debate sobre o tema, que ainda enfrenta muitas negativas – vindas, principalmente, da direita neoliberal acostumada com o discurso de “Faça por merecer, estude para passar no vestibular”.

Partindo da premissa polêmica que envolve o assunto, os jornalistas Daniel Mello e Bruno Bocchini lançam no dia 13 de abril o documentário USP 7%, que discute a implementação efetiva de cotas para estudantes negros e pardos na faculdade mais disputada do país. “Discutir o racismo” é o mote do vídeo segundo Daniel, um dos diretores. “A USP é um lugar que não tem negro”, frisa. O nome do filme remete ao percentual de negros matriculados em 2012: módicos e assustadores 7%. No ano seguinte, em 2013, denúncias apontavam que, em alguns cursos, não havia nenhum negro matriculado.

No documentário, ao qual Vice teve acesso exclusivo, o depoimento de Luis Carlos Santos, fundador do Núcleo de Consciência Negra na USP, resume a participação marginal da raça negra, hoje, nos campi das faculdades públicas em geral: “No setor de serviços de limpeza”. Para traçar melhor a situação, o vídeo traz entrevistas com militantes mais velhos e duas jovens: uma já ingressa, que conta ter sofrido racismo lá dentro, e outra – cuja mãe trabalha como faxineira na universidade – que estuda para passar no vestibular. Duas versões foram montadas: uma com 15 e a outra com 25 minutos.

A discussão sobre preconceito racial vai além: Daniel conta que o documentário foi vencedor do edital “Curta-Afirmativo: Protagonismo da Juventude Negra na Produção Audiovisual”, lançado em 2012 e direcionado a cineastas negros, que acabou embargado depois de receber acusações por parte de um promotor maranhense . O diretor do documentário viu nessa situação o embate de sempre. “Ele usou os mesmos argumentos que vemos contra as cotas, dizendo que o edital era racista e privilegiava um grupo.” A verba de R$ 88 mil só foi liberada em 2014, quando o filme foi gravado.

A pré-estreia será no próprio Núcleo de Consciência Negra da USP; depois, o intuito dos diretores é que ele rode festivais nacionais e questione a invisibilidade da população negra na educação pública do país.

 

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Redação

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