“Sem essa base social, tudo pode cair como um castelo de cartas”

In Desmonte, Entrevistas
Nenhum governo se comprometeu em aprofundar o SUS, diz Sonia Fleury

A demissão da renomada professora e pesquisadora Sonia Fleury, da Fundação Getúlio Vargas, depois de 35 anos de serviços prestados à Escola Brasileira de Administração Pública e Empresas (Ebape), repercutiu negativamente em todo o campo da Saúde, acadêmico e profissional. A FGV alegou “renovação” nos quadros, mas, para Sonia, a decisão foi motivada por outros critérios: “A opção foi ideológica, a escola se tornou uma escola de business”, avaliou em uma carta onde comentou o episódio, quando registrou que sua história pessoal e profissional, diretamente ligada à luta pela democratização e pela construção do SUS, merecia mais respeito. Doutora em Ciência Política pelo Instituto de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), com uma trajetória de contribuição decisiva para a constituição do campo da Saúde Coletiva no país, desde o final dos anos 1970, Sonia foi consultora na elaboração do capítulo sobre a Seguridade Social na Constituinte de 1988, contribuiu na redação do documento preparatório e como expositora na 8ª Conferência Nacional de Saúde, e fundou o Núcleo de Estudos Político-Sociais em Saúde na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz). De volta à Fiocruz, ela contou à Radis que não pensa em parar, e antecipou que seguirá com seus projetos, como o que pretende dar voz a moradores de favelas na construção dos saberes sobre seus territórios. “Escrever sobre a favela é um projeto democraticamente revolucionário”.

No debate sobre os 30 anos do SUS, você reforçou que o neoliberalismo é um projeto que desmonta os direitos e vende o discurso de que não há alternativa. Por que os cidadãos estão comprando essa ideia? 
Há uma ausência muito grande na sociedade brasileira de debate e de informação. Existe um monopólio da informação. No Dia do Trabalho, por exemplo, não havia uma pauta sobre o trabalho e o momento que o país vive, com a perda de direitos. No mundo acadêmico, nada disso foi falado. Eu acho que a população não tem informação suficiente para se posicionar. Existe uma alienação. Estamos em uma sociedade anômica, que está alienada dos seus próprios interesses. E o neoliberalismo é um regime contrafactual. Ou seja, o neoliberalismo não provocou nenhum dos efeitos benéficos que promete.
Você participou da concepção do SUS, que foi fruto da redemocratização e do pensamento da esquerda no país. Que tipo de crítica — e autocrítica — pode ser feita em relação à consolidação do projeto?
Eu penso que o SUS foi um projeto radicalmente inovador e que contribuiu muito para outras áreas. A arquitetura da participação no SUS não existia e foi estendida para quase todas áreas sociais, ambientais, culturais. Houve uma grande contribuição do SUS para o federalismo brasileiro, as áreas intergovernamentais, o fato de elas pactuarem através das comissões intergestoras, isso tudo são grandes inovações federativas, administrativas e políticas que o SUS trouxe para a sociedade. Acho que nenhum governo depois da criação do SUS se comprometeu integralmente em aprofundar seu modelo. É como se o SUS não lhes pertencesse, não fosse obra deles e, portanto, eles não ganhariam tanto politicamente com o projeto. Então o SUS teve a sua própria dinâmica e as limitações dessa dinâmica foram dadas pelo subfinanciamento, pela falta de prioridade política.
Mas houve avanços? 
Houve inúmeros avanços, na área de medicamentos, na área de aids, enfim, nós sabemos dos inúmeros avanços, mas poderia ter havido mais se isso tivesse sido assumido como uma área prioritária para o avanço da democracia no Brasil, e eu acho que não foi. Com relação aos governos de uma forma geral, eu acho que eles ficaram extremamente preocupados com a governabilidade em termos de disputa eleitoral e muito pouco com uma disputa de hegemonia. Não houve uma politização das medidas boas que os governos tomaram. Não houve mudanças na concepção das pessoas em relação ao projeto político. O que foram trabalhadas foram alianças e não conquistaram os corações e mentes. Sem essa base social que seria dada pela conquista da hegemonia e pelo apoio da sociedade a essa transformação, tudo pode cair como um castelo de cartas como a gente viu com o golpe de 2016.
Como você encarou a demissão da Fundação Getúlio Vargas, instituição em que trabalhou por 35 anos?
Escrevi uma carta que circulou pelas redes sociais e explicita como encarei a demissão. Eu fui trabalhar na Escola de Administração Pública (Ebape) e via de positivo a diversidade de alunos, de diferentes inserções, de diferentes visões teóricas e políticas, econômicas, mas essa convivência era harmoniosa. A escola era bastante plural, os professores também tinham perspectivas bastante distintas. Era a primeira escola de administração pública da América Latina. Há algum anos, foi incorporada uma letra “e”, no nome, significando administração pública “e” empresas. Aos poucos, ela vai deixando de lado a administração pública e se transformando em uma escola de business. Foram incorporados professores da área de finanças, marketing, comportamento, e aos poucos começaram a demitir pessoas da administração pública, outras se aposentaram… Acho que a minha saída é parte desse processo, de eliminação da administração pública em si. A desconstrução da ideia de administração pública e a assimilação da ideia de administração como sendo uma única coisa, a administração de mercado.
Porque houve essa transição do projeto político pedagógico, na sua opinião?
É uma opção política muito clara, de privilegiar o mercado. Nós estamos vivendo uma ideologia hegemônica neoliberal, em que todos os problemas da sociedade vão perdendo a importância e a lógica de mercado passa a prevalecer. É uma opção ideológica que se faz. A instituição não deixa de ser de excelência na área que ela se definiu, mas abre mão de ter uma produção de conhecimento engajado com as transformações sociais no Brasil, com a construção de um Estado democrático. Nada disso interessa. Interessa publicar papers em inglês, internacionalizar, e cada vez tem menos relação com um projeto de desenvolvimento nacional.
Qual era a visão que os seus alunos tinham do SUS?
Sempre tivemos muita relação com as questões do SUS, não tanto com a Reforma Sanitária como movimento político, mas, por estarmos em uma escola de administração, havia muitos gestores interessados e envolvidos nos projetos de gestão. Lá, há alunos que estão se desenvolvendo na gestão das instituições onde trabalham, inclusive da Fiocruz. Mas não no mestrado acadêmico. A gestão pública ainda está presente, mas concentrada no mestrado profissional. A área acadêmica virou uma escola de business. Gestão pública é um tema amplo que pode envolver gestão participativa, transparência, contratos públicos, modelos de cogestão, estudos sobre OSs, judicialização. Outros interesses são também a relação público-privado, e estudos comparativos com outros sistemas de saúde, de outros países.
Quais são seus principais projetos atuais?
Estou com um trabalho em fase final do processo de publicação, um livro sobre as Unidades de Polícia Pacificadoras, as UPPs. E, em parceria com diversas instituições, como a UFF e o Museu da Maré, e com pesquisadores que abordam o tema das favelas, estamos desenvolvendo em uma plataforma colaborativa um dicionário de favelas. Nosso princípio é de pluralidade, mostraremos diferentes visões e disputas de sentidos. Escrever sobre a favela é projeto democraticamente revolucionário.
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