Pacote do Veneno: como barrar?

In Reportagens
Crédito: Wikimedia Commons

Inconstitucional e rejeitado pela sociedade e entidades de saúde, meio ambiente, consumidor, direitos humanos e pequenos agricultores, pacote é encomenda da indústria de agrotóxicos aos ruralistas

Por Cida de Oliveira, na Rede Brasil Atual

Sem chegar a um acordo no dia 9, integrantes da Comissão Especial criada para analisar os 27 projetos de Lei que integram o chamado “Pacote do Veneno” vão se reunir novamente na próxima semana. Na terça-feira (15), devem debater pela última vez o substitutivo apresentado pelo relator, o deputado Luiz Nishimori (PR-PR), da bancada ruralista. E na quarta deverão votar o relatório. A reunião de ontem, em que era prevista a votação, foi interrompida por causa da ordem do dia e retornou hoje pela manhã.

Integrantes da Comissão, os deputados da oposição Alessandro Molon (PSB), Ivan Valente (Psol), Nilton Tatto (PT-SP) e Elvino José Bohn Gass (PT-RS) tentaram aprovar requerimentos para a participação de representantes de setores da saúde e meio ambiente para esclarecer os deputados, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Agência Nacional de Vigilância à Saúde (Anvisa), ambos vinculados ao Ministério da Saúde, e Ibama, do Ministério do Meio Ambiente.

Alegando cumprimento ao regimento, a presidenta da Comissão, a deputada ruralista Tereza Cristina (PSB-MS), apoiada pelo relator Nishimori e outros deputados ruralistas, negou a participação. O relator concordou em receber os representantes dos setores em reunião em separado, fora da agenda. E chegou a admitir mudanças em seu relatório. Molon, uma das vozes mais firmes contra o pacote, destacou não haver no regimento nada que impeça a participação desses especialistas em reunião ordinária.

Essas entidades estão entre as dezenas de outras que se manifestaram contra mudanças – para pior – na atual lei dos agrotóxicos. É o caso do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e Direitos Humanos (CNDH), Ministério Público Federal (MPF), Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida, Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil (Aprodab) entre outras. Todas elas defendem o apoio a propostas de redução do uso até o banimento dos agrotóxicos, e incentivos à transição para a chamada agroecologia. O modelo vai além da produção de alimentos orgânicos, livres de veneno, e engloba a reforma agrária para que mais famílias possam produzir alimentos para atender a toda a demanda – e não apenas uma elite que pode pagar mais caro por eles.

Tatto, que entregou à presidenta 100 mil assinaturas contra a aprovação do pacote, coletadas por meio da plataforma #ChegaDeAgrotóxicos, destacou que as mudanças na atual lei só atendem aos interesses das indústrias de agrotóxicos, que estão entre os sustentadores da bancada ruralista. “Flexibilizar ainda mais as regras dos agrotóxicos não interessa à sociedade, que vai ficar ainda mais exposta aos agrotóxicos, com riscos ainda maiores que os atuais de doenças, como intoxicações, câncer e malformações, entre outras, ao país, que terá mais gastos com saúde e nem à agricultura brasileira. Países estrangeiros, que importam do Brasil, estão aumentando as restrições a agrotóxicos”, disse à reportagem.

Na sessão, ele questionou os reais interesses da maioria da Comissão, formada por ruralistas que se dizem preocupados com o desenvolvimento da agricultura nacional, que sofreria retrocessos.

Fazendo uma análise das perdas dos trabalhadores com a reforma trabalhista, que passou a permitir que mulheres grávidas trabalhem em ambientes insalubres, com a pretendida reforma na lei dos agrotóxicos, o deputado Bohn Gass, de família de agricultores, questionou: “Como ficarão agora essas gestantes, podendo aplicar mais e mais venenos nas lavouras?”

Em pesquisas realizadas em diversos municípios, o professor Wanderlei Pignati, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) encontrou agrotóxicos até no leite materno. Outras pesquisas mostram que esses produtos atravessam a placenta e prejudicam o desenvolvimento do feto. Não é à toa que pesquisas, como aquelas feitas pela Universidade Federal do Ceará em áreas de pulverização aérea no estado, apontem crescimento no número de casos de malformações congênitas. Dado semelhante ocorre no interior do estado de São Paulo, de domínio da produção canavieira, conforme o Fórum Paulista de Combate aos Efeitos dos Agrotóxicos e Transgênicos.

Autor de projeto de lei que obriga informações nos rótulos de alimentos sobre agrotóxicos utilizados em sua produção, o deputado Ivan Valente (Psol-SP) defendeu a mobilização da sociedade como única maneira de impedir a aprovação do pacote conduzida com velocidade pela numerosa e poderosa bancada ruralista. “A única chance que temos de barrar o PL do Veneno é a mobilização popular. O descalabro do aumento do uso de agrotóxicos na alimentação do brasileiro é um projeto que só visa o lucro dos grandes latifundiários e dos ruralistas do Congresso. Não podemos permitir a aprovação em detrimento da nossa saúde”, destacou.

O trator da Comissão

Constituída pelo deputado cassado, condenado e preso Eduardo Cunha (MDB-RJ) em 8 de abril de 2016, a Comissão é formada em sua maioria por ruralistas. Entre eles, os autores de projetos incluídos no “Pacote do Veneno” Covatti Filho (PP-RS)  e Luis Carlos Heinze ( PP-RS),  além de  Valdir Colatto (PP-RS), autor do polêmico projeto que autoriza a caça de animais silvestres.

Entre todos os projetos, têm destaque os PLs 6.299/02, de autoria do ministro da Agricultura Blairo Maggi (PP), apresentado quando era senador, que modifica as regras para a cadeia dos agrotóxicos com o objetivo de facilitar o registro, liberação e venda desses produtos.

E o PL 3.200/2015, O PL 3.200/15, de Covatti Filho, praticamente exclui a Anvisa e o Ibama do processo de registro de agrotóxicos. Isso porque institui a Comissão Técnica Nacional de Fitossanitários (CTNfito), composta por integrantes titulares indicados pelo Ministério da Agricultura.

Em dois anos, a Comissão realizou oito audiências públicas. A de março de 2017 trouxe defensores da aplicação de agrotóxicos, que atuam no Canadá, Estados Unidos e Austrália. A indústria interessada, os ruralistas e o próprio Ministério da Agricultura também foram contemplados na maior parte delas. No entanto, não há sinais de participação de trabalhadores rurais, diretamente expostos a essas substâncias, e nem dos consumidores, que cada vez mais exigem alimentos saudáveis.

Segundo fontes ouvidas pela reportagem, a aprovação do pacote é tida como certa nos setores. Tanto que já há disputa entre os aspirantes à presidência dessa nova comissão, a CTNFito. Um deles é o ex-presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), Edivaldo Domingues Velini, envolvido em conflitos de interesse com empresas do setor de transgênicos e agrotóxicos, como a Monsanto, Basf, Syngenta, Dow, Arysta.

[Neste vídeo, de origem desconhecida, o revoltante mau trato ao animal durante aplicação de veneno.]

 

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